Capítulo 7
Angélica
O carro reduziu a velocidade assim que entrou na rua arborizada. Angélica percebeu imediatamente que aquele não era um lugar comum. As casas não eram casas — eram verdadeiras mansões, escondidas atrás de muros altos, cercas elétricas e portões automáticos imponentes. A iluminação era suave, planejada, diferente da luz dura e irregular das ruas onde ela morava.
Seu coração começou a bater mais rápido.
— Chegamos — disse o motorista, estacionando em frente a um portão gigantesco de ferro preto, com detalhes dourados e o sobrenome Ferraz gravado no centro.
Angélica engoliu em seco.
— É… obrigada — respondeu, com a voz um pouco mais baixa do que gostaria.
Pagou a corrida e desceu do carro. Assim que seus pés tocaram o chão, sentiu o peso da decisão que havia tomado. O vestido emprestado por Diana, que parecia tão bonito no espelho do quarto apertado, agora parecia simples demais diante daquela ostentação absurda. O salto fino tocou o chão perfeitamente limpo da calçada, e ela se sentiu como uma mancha fora de lugar.
O portão se abriu automaticamente, revelando uma longa alameda iluminada por pequenos postes embutidos no chão. O jardim era impecável: grama aparada com perfeição, árvores ornamentais, fontes decorativas e esculturas modernas espalhadas de forma estratégica.
Meu Deus…
Aquilo parecia cenário de filme. Ou de um mundo que definitivamente não era o dela.
Respirou fundo e começou a caminhar.
A cada passo, a insegurança aumentava. O som distante da música eletrônica vinha da casa principal, misturado a risadas altas e conversas animadas. Angélica sentia o coração martelar no peito, como se quisesse avisá-la para dar meia-volta enquanto ainda havia tempo.
Quando finalmente chegou à entrada da mansão, teve vontade de chorar.
A casa era enorme, moderna, toda em vidro, concreto e mármore. Luzes coloridas iluminavam a fachada, e carros de luxo estavam estacionados por toda parte: SUVs importadas, esportivos reluzentes, veículos que ela só tinha visto em propagandas.
Na porta, dois seguranças altos, de terno escuro, observavam cada convidado com atenção.
Angélica sentiu as mãos suarem.
— Nome? — perguntou um deles, sem emoção.
— A-Angélica… Angélica Souza — respondeu, apertando a bolsa contra o corpo.
O segurança conferiu a lista, fez uma pausa curta demais para o conforto dela, depois assentiu.
— Pode entrar.
Ela passou.
Assim que cruzou a porta, o impacto foi imediato.
O salão principal era gigantesco, com um pé-direito altíssimo. Um lustre de cristal dominava o teto, refletindo luzes que piscavam no ritmo da música. O chão de mármore brilhava tanto que ela teve medo de escorregar. Sofás claros, mesas de vidro, quadros abstratos caros e uma escada imponente levavam ao andar superior.
Tudo gritava dinheiro.
Tudo gritava exclusividade.
E Angélica sentiu, com uma clareza c***l, que não pertencia àquele lugar.
As pessoas estavam espalhadas pela casa, rindo alto, dançando, bebendo. As meninas usavam vestidos curtíssimos, colados ao corpo, maquiagens impecáveis, cabelos perfeitamente arrumados. Os meninos exibiam roupas de marca, relógios caros, perfumes fortes.
E então vieram os olhares.
Primeiro discretos.
Depois curiosos.
Por fim… julgadores.
Alguns paravam a conversa por um segundo para observá-la. Outros cochichavam. Risadinhas surgiam aqui e ali. Angélica sentiu o rosto queimar.
Ela tentou ignorar, caminhando lentamente até a mesa de bebidas, fingindo naturalidade. Mas cada passo parecia pesado demais. Cada olhar atravessava sua pele como uma agulha.
— Quem é ela? — ouviu alguém sussurrar.
— Nunca vi…
— É amiga de quem?
— Estranha…
Angélica pegou uma taça qualquer só para ter algo nas mãos. O líquido dourado dentro do copo tremia levemente — ou talvez fossem seus dedos.
Deu um gole pequeno e fez uma careta com o gosto forte.
Por que eu vim?
O desejo de ir embora crescia a cada segundo. Pensou em Diana. Pensou no apartamento simples, no sofá gasto, no cheiro familiar do lar. Pensou que poderia inventar uma desculpa, chamar um Uber e desaparecer dali antes que alguém realmente a atacasse.
Mas então… ela o viu.
Rafael Ferraz estava perto da piscina interna, cercado de amigos. Usava uma camisa clara, aberta no colarinho, sorriso fácil, postura relaxada de quem sabe que domina o ambiente. Ria alto, confiante, como se o mundo inteiro fosse feito para ele.
O coração de Angélica falhou uma batida.
Ele me convidou… ele vai me notar.
Ela se agarrou a essa esperança como alguém que se afoga se agarra a um pedaço de madeira.
Endireitou os ombros e tentou se aproximar, mas antes que desse dois passos, esbarrou sem querer em uma garota.
— Olha por onde anda! — a menina reclamou, analisando Angélica de cima a baixo. — Nossa… de onde você saiu?
— D-desculpa… — murmurou, encolhendo-se.
A garota riu, debochada, e se afastou, balançando o cabelo perfeitamente escovado.
Angélica sentiu o nó se formar na garganta.
Ela começou a perceber que as conversas ao redor diminuíam sempre que passava. Que os sorrisos se tornavam tortos. Que os olhares eram longos demais. Não era curiosidade inocente — era julgamento.
Era desprezo.
— Ela não combina nada com esse lugar.
— Quem convidou essa aí?
— Parece perdida.
Cada comentário era uma facada silenciosa.
Angélica caminhou até um canto mais afastado da sala, perto da parede de vidro que dava para o jardim. Olhou para fora, tentando respirar. O reflexo no vidro mostrava uma garota bonita, sim — mas deslocada. Pequena diante de tudo aquilo.
Os olhos começaram a arder.
Eu devia ir embora agora.
A mão já se movia em direção à bolsa para pegar o celular quando ouviu uma gargalhada mais alta, vinda do grupo de Rafael. Ele olhou em sua direção — e sorriu.
Não um sorriso gentil.
Um sorriso carregado de algo que ela não soube identificar na hora.
O estômago se revirou.
Mesmo assim, aquele sorriso foi suficiente para fazê-la ficar.
Angélica respirou fundo, ignorando o instinto que gritava para fugir. Tentou se convencer de que tudo aquilo era apenas nervosismo. Que precisava dar um tempo. Que festas eram assim mesmo.
Mas, no fundo, algo dentro dela já sabia:
Ela não tinha sido convidada para pertencer.
Tinha sido convidada para ser o espetáculo.
E enquanto a música aumentava, os risos ficavam mais altos e os olhares mais cruéis, Angélica ainda não imaginava que aquela noite não terminaria apenas em vergonha.
Terminaria em lágrimas.