A partir daí minha vida foi de m*l a pior bem rápido, os primeiros dias no orfanato foram os mais difíceis para mim. Eu estava triste, tristeza e fome eram duas coisas que me deixavam irritada.
Por que ela não voltava logo? Ela ia voltar? Ahren insistia em me dizer todos os dias que ela ia sim vir nos buscar, mas chegou uma hora que nem ele mesmo acreditava mais naquilo, só dizia para ver se eu ficava menos triste. Para completar eu não tinha nenhuma amiguinha ali, algumas crianças eram malvadas, alguns meninos escondiam brinquedos e puxavam os cabelos das meninas, outras eram muito barulhentas.
Um dia, do alto da escada eu olhei para saber como estavam as coisas lá embaixo. Coloquei o rosto entre as grades. Tinham dois meninos correndo e gritando, brincando de pique pega no meio da sala enquanto uma rodinha com 5 meninas brincavam de bonecas.
O laço vermelho brilhava cintilante no cabelo de Bárbara. Eu não sabia o porquê, mas as bonecas dela sempre eram as mais bonitas. As roupas dela sempre pareciam mais novas e na moda, e as outras garotinhas sempre tentavam imitar o visual dela com o pouco que tinham, os sapatos e acessórios de cabelo da Bárbara sempre pareciam caros.
É claro que as outras meninas viviam atrás dela.
Barbie, esse era o apelido dela, e sinceramente, paparicavam mais aquela menina do que a única boneca original da marca que revezávamos para usar.
Eu só queria ficar quietinha e em silêncio, então o balanço na grande árvore do jardim se tornou o meu lugar favorito, eu ia para lá todas as tardes.
— Você vai querer? – Ahren se aproximou, me mostrando um potinho com frutas cortadas.
Balancei a cabeça, eu não estava com nenhuma fome.
— Acha que ela está brava? Porque fiz xixi na cama? – Perguntei-lhe. Ahren deu de ombros, fazendo uma careta por causa do sol.
Os passarinhos cantavam coisas que eu queria saber entender.
— Acha que é por causa disso? – Perguntou ele, meu irmão mordeu um pedaço de maçã cortada depois de se sentar no balanço ao meu lado.
Dei de ombros.
— Não sei, ué. Pode até ser. Mamãe não gostava quando eu fazia xixi na cama.
– Ponderei.
Ora, e o que é que eu podia fazer? Não conseguia segurar a bexiga toda vez que tinha pesadelos. De tempos em tempos eu tinha uns sonhos esquisitos, alguém corria atrás de mim e chegava tão perto de me pegar que o xixi escorria pelas minhas pernas.
Pelo jeito não era só no sonho que isso acontecia.
— Escuta, Lili. E se ela foi viajar? Talvez já esteja até voltando.
— Mas ela não disse que ia voltar, disse?
Ahren parou para pensar. Ela não disse, eu tinha pensado naquilo um milhão de vezes. Ahren não teve tempo de formular uma resposta, o grupo de garotinhas que andavam com Bárbara se colocou em nossa frente e uma chuva de cascas de banana foi jogada diretamente em mim.
— MIJONA! – Cacau, a fiel escudeira dela, gritou me apontando o dedo, todas as outras repetiram. — MIJONA!
— MIJONA!! – Bárbara deu um sorriso c***l, naquele momento eu senti ódio correndo nas veias. Só o que me importava era agarrar naqueles cabelos loiros dela e não soltar mais.
— MIJONA!
— ELA NÃO É NENHUMA MIJONA! – Meu irmão levantou e gritou bem alto para me defender, fazendo as meninas calarem a boca.
— É SIM! – Bárbara deu um passo a frente, gritando mais alto que o meu irmão. — Sua mãe nunca vai vir te buscar porque além de feiosa você é uma Maria Mijona!
Eu olhei para ela com ódio, toda frustração e tristeza que eu vinha sentindo nos últimos dias foram parar nas minhas mãos e eu voei em cima dela. Agarrei seus cabelos, indo direto para o chão.
Bárbara gritou, as outras meninas se afastaram gritando e algumas correram para pedir ajuda. Meu irmão se manteve olhando enquanto eu dava uma surra nela, quem ela achava que era para me chamar de feiosa? Se não fossem as roupas e os acessórios ela ia parecer uma pata choca.
Não sei quanto tempo durou mas em algum momento vieram adultos para me tirar de cima dela. Fomos parar na sala da diretora, uma sentada do lado da outra, eu revirava os olhos enquanto era obrigada a ouvir Bárbara abrir o berreiro.
Nem preciso dizer por qual motivo eu levei a pior, fui pega no flagra, e ela teve sorte por eu não ter uma tesoura por perto ou poderia dar adeus aos seus fios dourados.
Bárbara tinha algum tipo de favoritismo estranho ali, o que na época eu não queria entender.
A partir desse dia eu me tornei a garota mais perseguida e odiada daquele orfanato, mas descobri que ser firme fazia com que tivessem medo de apanhar. Meu irmão me defendia como podia, ele se meteu em diversas encrencas para salvar a minha pele, já que eu insistia em fazer algumas brincadeiras de mau gosto para retribuir um pouco de tudo que a turminha da Barbie fazia contra mim.
Ouvir coisas ruins sobre si mesma constantemente da boca de várias pessoas faz com que em algum momento comecemos a duvidar da veracidade das afirmações. Eu era só a estranha, magricela e com a pele pálida demais. Quando fiz onze anos precisei usar óculos e um ano depois precisei de um aparelho para corrigir os dentes, de tempos em tempos eu tinha espinhas, o que rendeu uma gama de novos apelidos para a minha conta e uma baixa autoestima que me fazia querer fugir de espelhos.
Mas pelo menos eu era inteligente, sempre tirava ótimas notas e fazia questão de negar qualquer pedido de ajuda da turma da Barbie chorona.
Conforme os anos foram se passando eu finalmente pude tirar o aparelho quando completei os dezesseis anos, mas os óculos ainda eram meus companheiros por muito mais tempo.
As coisas não mudaram muito nós anos seguintes, as garotas não pararam de me atormentar e infelizmente nem eu e nem meu irmão fomos adotados durante os anos que vivemos ali. Para o meu azar Ahren completou dezoito anos e teria que partir do orfanato, me deixando sozinha com aquela turma insuportável.
Ahren me prometeu que iria sair e conseguir um emprego, assim, quando eu saísse dois anos depois nós teríamos um lugar para morar, mesmo que fosse alugado. Os dias foram maus depois que ele se foi, ocupei meu tempo com os estudos e com a leitura recreativa para fugir da realidade triste e monótona que tomou conta daquele lugar...
Até uma visita de caridade mudar tudo para mim pela primeira vez.
Fomos reunidos no salão principal do orfanato, a turma da Barbie cochichava sem parar e eu não entendi o motivo de tanta animação.
— Silêncio! – A diretora ordenou antes de começar. — Como sabem, a família Oliveira virá fazer a visita anual para fazer doações para a instituição.
A família Oliveira era uma das mais tradicionais e ricas do Rio de Janeiro, todos os anos, além de um bom valor em dinheiro eles doavam roupas de marca, brinquedos e sapatos para o orfanato. Era uma briga só na divisão dos ítens e eu sempre preferia ficar de fora.
— Estejam todos prontos amanhã às seis da tarde. Tomem banho, se arrumem direito e limpem as orelhas. Desta vez o filho do casal Oliveira também virá. Estamos entendidos? – Cruzei os braços, era mesmo necessário falar que tínhamos que fazer a higiene pessoal básica?
Bom, com os meninos daqui, talvez fosse essencial sim.
— Sim, senhora.