Naquela noite a turma da Barbie estava reunida ao redor da cama dela, infelizmente Bárbara dormia no mesmo quarto que eu e por isso não pude evitar ouvir os risinhos e cochichos ao entorno do que elas fofocavam.
— Uau! É esse? – Cacau perguntou quando Bárbara virou o celular para elas. Houveram alguns suspiros e risinhos contidos. — Qual é o nome dele?
— Alexandro, ele tem 18 anos e vai para a faculdade, vai ser um engenheiro. – Bárbara virou a tela de volta para si e encarou sei lá o que com cara de b***a.
Revirei os olhos, b***a ela já era por achar que um cara rico de 18 anos ia querer alguma coisa com um bando de garotas mimadas de 15 e 16. Cobri minha cabeça com o edredom e me forcei a dormir. No dia seguinte a presença do tal Alexandro Oliveira foi assunto o tempo inteiro, na mesa do café da manhã, pelos cantos no jardim e em todo lugar para onde as meninas andavam.
Quando uma das garotas disse que tinha separado o melhor vestido para colocar Bárbara olhou bem na cara dela e a expôs na frente do resto da turma.
— Esse vestido é horroroso, Maria Júlia. Acha mesmo que ele vai gostar dessa roupa? – As outras riram, fazendo Maria ruborizar de vergonha.
Eu dei de ombros, elas criaram a cobra por quem seriam picadas. Que agora abrisse os olhos e se afastasse da turminha da Barbie.
— O Alexandro só vai olhar para mim hoje, entenderam meninas? Nenhuma de vocês devem me atrapalhar.
Elas concordaram feito cadelinhas na coleira. Eu saí dali, esperei a hora certa e me arrumei minimamente bem para receber a família Oliveira. Nada exagerado, calça jeans, uma blusa social e sapatilhas, além de um r**o de cavalo que fazia parecer que eu iria para uma entrevista de emprego.
As dezessete horas todos estavam sentados nos sofás do salão principal. Quem olhava assim, todos limpos, arrumados e perfumados não imaginavam que aquele orfanato só faltava pegar fogo nos demais dias da semana. Uma hora depois a família Oliveira finalmente chegou, o casal distinto adentrou o salão acompanhados do filho e da diretora.
Tivemos que seguir todos os protocolos de dar boas vindas e apresentar nossos dotes a eles. Uma de nós preparou bolinhos, outras apresentaram concursos escolares que foram ganhos e eu apresentei um projeto de ciência que tinha ganhado o primeiro lugar na feira esse ano. Percebi que minha explicação prendeu a atenção deles, até mesma da senhora Oliveira que se mantinha esnobe e de nariz em pé.
Depois que as doações foram devidamente feitas, a diretora fez questão de deixá-los livres para ver as reformas que haviam sido feitas. Quando Alexandro se mostrou interessado em andar pelos cômodos Bárbara correu para falar com ele.
— Olá, eu me chamo Bárbara Paiva, mas todos me chamam de Barbie por aqui. É um apelido carinhoso que ganhei. – Ela estendeu a mão coberta por uma luva. Sim, Bárbara perdeu a noção do ridículo e se vestiu quase como uma princesa de época.
Alexandro a olhou sem muito interesse.
— Ah. Que... legal. Alexandro Oliveira. – Ele apertou sua mão.
— Nós sabemos seu nome. – Ela deu aquele sorriso venenoso que me fez revirar os olhos. — Eu posso lhe apresentar os cômodos.
— Agradeço, Bárbara. Mas gosto de explorar sozinho.
O brilho dela sumiu um pouco, mas seu sorriso falso continuou ali, finalmente eu estava me divertindo. Depois da cena e do casal Oliveira já estarem afastados eu fui me trancar no único lugar que me interessava naquele lugar, a biblioteca.
Me afundei na poltrona reclinável o máximo que podia, quase ninguém frequentava a biblioteca se não fosse para fazer pesquisas escolares.
Eu me transportei para dentro do meu livro assim que o abri, o personagem principal era um delegado que havia pedido a esposa e a filha e agora estava em busca de vingança, bom, estava até encontrar a linda Raquel Viana. Eu estava envolvida na narrativa, sentindo a dor do personagem no meu próprio coração.
— Mas que cavalo! Como pôde falar assim com ela? – Reclamei para as páginas.
— Com ela quem? – O susto me jogou direto para trás, fui com tudo para o chão, a poltrona virou bem em cima de mim.
— Ai! – Reclamei ao ser acertada na cabeça pelo encosto da poltrona.
O peso da poltrona sumiu de cima de mim, Alexandro tinha desvirado a poltrona e estava me olhando preocupado quando ergui os olhos.
— Você se machucou?
Eu me apressei em ficar de pé, ajeitando a blusa e o r**o de cavalo que agora devia estar todo torto. Meus óculos foram parar na boca e meu livro tinha rolado para onde só deus sabia onde.
— Não. – Eu limpei a garganta, colocando os óculos no lugar.
A sombra de um riso passou pelo rosto dele. Alexandro pegou algo no chão, meu livro.
— Com quem estava falando? Por acaso é maluca para falar sozinha?
— Eu estava falando com o meu livro. – Eu peguei meu xodó da mão dele.
— E o que foi que ele te respondeu?
Esse filho da mãe estava debochando de mim.
— Escuta, eu agradeço por me ajudar com a poltrona mas se veio aqui me falar gracinha já pode sair. – Cruzei os braços, erguendo o queixo como fazia com as cadelas da Bárbara.
Ele ergueu as mãos em sinal defesa.
— Eu só estava brincando, gostei do seu projeto de ciências. Você claramente é a mais inteligente desse lugar. – Alexandro deu uma olhada ao redor, como se não tivesse nada interessante por aqui.
— É mesmo? – Me interessei, ter uma pessoa famosa gostando do meu projeto de ciências pareceu vantajoso.
— Sim, como se chama?
— Angelique, Angelique Martins.
— Nome original. Você já sabe o meu. – Ele piscou um olho para mim. Abusado, não sabia se gostava ou não dele, mas seria mais fácil odiá-lo. — O que está lendo aí?
Eu não queria dividir, geralmente garotos menosprezavam a leitora de romances.
— Um livro qualquer.
— Um romance, imagino. – Ele pôs uma das mãos no bolso da calça. Até que era bonito, mas ainda sim não via motivo para todo fogo que as meninas tinham com ele. — O que mais você lê?
— Comecei a ler Hannah Arendt por causa de uma das personagens desse livro. Estou gostando.
— Tem bom gosto. – Alexandro puxou uma cadeira, se sentou e tirou um cantil de bolso da calça. — Já li Hannah Arendt para alguns trabalhos.
Ele deu um gole e me ofereceu o objeto de inox. Eu não precisava ser inteligente para saber que tinha bebida alcoólica ali dentro.
— Eu só tenho dezesseis anos.
— E daí? – Deu de ombros. Ponderei antes de pegar o cantil, nunca tinha bebido mas tinha curiosidade.
Virei o cantil na boca, o líquido desceu queimando pela minha garganta.
— Gosta daqui? – Indagou.
— Preciso responder essa pergunta? Ninguém gosta de morar em um orfanato, Alexandro. Esse aqui é péssimo por sinal, as Barbie girls me odeiam. – Voltei a me sentar na poltrona, agora com a postura ereta.
— Alex, só Alex. Posso falar com meus pais e conseguir uma transferência para você.
— Ah, não. Tenho preguiça só de pensar em tentar me encaixar de novo.
Alex deu de ombros.
— Se encaixar é fácil, basta fazer coisas que você não gostaria de fazer.
— Prefiro pagar o preço.
— Sorte sua, não tenho escolha a não ser fazer coisas que não gosto. Como por exemplo visitas de caridade. – Ele bebeu mais.
— Não queria estar aqui? – Perguntei.
— Não é que eu não goste de caridade, mas acho que uma doação pode ser feita sem que eu precise deixar de sair com os amigos. Qual é a necessidade desse protocolo todo?
— Gosta deles? Dos seus pais? – Minha pergunta aleatória o fez pensar. A vida dele devia ser boa, ele era rico, bastava uma palavra para que conseguisse investimento e apoio financeiro dos pais.
Bom, na verdade só a presença deles já devia ser alguma coisa.
— Gosto. Mas gostaria mais se fossem separados, eles brigam demais e enchem meus ouvidos. É por isso que estou me mudando.
— Vai morar sozinho?
— Sim. Acabei de fazer dezoito, posso fazer isso.
— Ele deve estar em algum lugar por aí. – Ouvimos a voz da diretora no corredor, pelo som dos saltos no chão a senhora Oliveira parecia procurar Alex impacientemente.
Nós levantamos e ouvimos atrás da porta até que as duas se afastassem. Alex guardou o cantil no bolso onde estava antes.
— Não diga que bebemos. – Pediu.
— Será nosso segredo. – Jurei. Ele mostrou um sorriso contido.
— Gostei de você. Talvez a gente se veja em uma próxima doação. – Alex piscou de novo e eu soube que não iria odiá-lo como pensei. Tinha gostado de seu jeito aparentemente despojado e sem amarras as regras.
Ele saiu, e o olhar que ele me lançou enquanto sumia pelo corredor me dizia que não seria a última vez que eu o veria.