— Uh! – Eu arfei buscando o ar ao sentir o corpo dele me pressionar contra a parede depois de um beijo que tirou meu fôlego.
Alex estava certo, nos vimos algumas vezes em outras doações que ele mesmo tinha feito questão de vir fazer mesmo sem a presença dos pais. Em uma delas ele marcou um encontro comigo, nos vimos em uma madrugada na rua atrás do orfanato. No início só conversávamos e ríamos de diversas situações, de certa forma encontramos conforto um no outro. Alex fugia das discussões infernais em casa e eu tinha meu momento de escape depois de ser atormentada pelas Barbie's Girls.
Eu me sentia diferente e livre, Alex passou a me levar a lugares que jamais sonhei em ir. Conheci o mar em um dos nossos encontros proibidos, e também foi em um deles que ele me deu o meu primeiro beijo.
O problema é que nós nunca mais paramos.
Quando nos víamos Alex me atacava e me beijava feito um animal. E bem, eu até que gostava... Era gostoso e de qualquer maneira nunca passamos de alguns amassos.
A parte mais divertida de tudo isso era rir em silêncio enquanto Bárbara se esforçava para chamar atenção de Alex a cada vez que ele aparecia no orfanato. Nós ríamos dela nas nossas escapadas noturnas.
Depois que conheci Alex os dias pareciam passar mais rápidos e mais leves. Um ano inteiro se passou e na próxima doação anual Alex e eu nos pegamos no banheiro mais próximo. Quando fizemos um ano e meio ele se lembrou da data e me levou até um quiosque na Barra da Tijuca para comer camarões.
Uma das coisas que eu gostava nele era que mesmo sendo rico e tendo um gosto requintado ele não se importava em fazer os passeios simples que mais me agradavam. Na verdade ele até gostava. Com roupas leves e um palito cheio de camarões nas mãos nós sentamos na faixa de areia perto do quebra mar da Barra para olhar a beleza na natureza.
— Olha só como sua boca está imunda, cheia de mostarda. – Juntou as sobrancelhas, brincando.
— E você vai me obrigar a limpar, é? – Provoquei-o entre uma mordida e outra.
— Não, vou limpar para você. – Ele capturou minha boca, passando a língua nos meus lábios antes de tentar me beijar e ser afastado pela minha mão suja.
— Você é nojento, sabia? – Impliquei enquanto o vento fresco movia alguns fios rebeldes do meu cabelo.
— Gostoso, você quis dizer.
— Hmm, talvez um pouco disso também. – Tirei uma mecha de cabelo do rosto. — Um ano e meio é um bom tempo, não acha?
— Acho, baby. Isso só prova que temos química, resta saber se teremos química também em outros aspectos. – Alex cheirou meu pescoço.
— Também prova outra coisa. – Encarei seus olhos castanhos especulaculativos.
— O que?
— Que podemos namorar, tecnicamente já é isso que estamos fazendo. – Mordi meu último camarão.
— Se já é isso que fazemos então para que mudar? Estamos bem assim, gata. – Alex beijou meu ombro desnudo.
— Mas eu quero compromisso, Alexandro. Não estou com você como forma de passatempo, para isso eu tenho meus livros. – Limpei meus dedos em um guardanapo.
— Relaxa, anjo. Vou dar um jeito nisso mais para frente.
— Vou te apresentar ao meu irmão assim que for oficial. Não quero viver escondida como se estivesse cometendo um crime, se ele descobre que estamos nos encontrando...
— Ele não vai. Em breve vou conhecê-lo e ele vai gostar de mim. Prometo.
— Mesmo?
— Claro que sim.
Depois daquela noite eu fiz inúmeros planos para nós dois, especialmente porque em breve eu iria sair do orfanato para morar com Ahren, ele cumpriu a promessa de conseguir um lugar para nós. Era alugado, mas pelo menos teríamos um teto sobre as nossas cabeças, ou telhas, quem sabe?
O problema é que os meses foram passando e Alex se esquivava de todas as minhas cobranças. Sua desculpa era que tinha falado com os pais e que eles odiaram a idéia dele assumir publicamente um namoro com uma garota de um orfanato. Traduzindo, uma garota pobre e sem sobrenome de peso.
Aquilo me matou por dentro, passei a odiar aquele casal fingido e dissimulado, eles queriam o que? Que Alex ficasse com alguém para ter um relacionamento de aparência tipo o deles? O que me deixava com mais raiva era Alex acatar esse absurdo mesmo morando sozinho, brigamos por causa disso e ele disse que os pais eram responsáveis por bancar seus estudos, e que por isso tinha que fazer suas vontades, para enfrentá-los ele precisaria arrumar um emprego e se bancar sozinho.
Pois eu só baixei a guarda quando ele provou que estava mesmo buscando um trabalho.
Segurei a onda e continuamos saindo escondidos por mais seis meses, mas quando fiz dezoito anos ele já tinha conseguido um bom emprego graças aos contatos influentes. Então eu lhe dei um ultimato: Ou iríamos namorar sério ou poderíamos parar de nos ver no momento que eu pusesse os pés para fora do orfanato.
— Assim você me quebra, gata. – Reclamou ele, no telefone.
— Vai ficar quebrado então, amor. Minhas malas estão prontas e estou me mudando amanhã mesmo, se não assumir o namoro você vai ser só mais uma coisa que eu vou deixar para trás.
— Tá certo, hoje mesmo vou mudar meu status de relacionamento e dizer aos meus pais que estamos juntos. Satisfeita?
— É o mínimo que pode fazer se gosta mesmo de mim. – Pontuei.
— É claro que gosto, e vou provar. Boa noite, anjo.
Quando eu acordei no dia seguinte dispensei o café, estava ansiosa para ir embora daquele lugar de uma vez por todas. A diretora reuniu todos no refeitório para que se despedissem de mim e depois me acompanhassem até a saída.
O que aconteceu a seguir foi impagável.
Ao chegar na sala Alex estava com um buquê enorme de rosas vermelhas e balões em forma de coração que tinham a frase que abalou as estruturas daquele orfanato e fez os queixos caírem.
“FELIZ DOIS ANOS DE NAMORO”
A partir daí foram só gritos, confusão e chororô. Assisti de camarote Bárbara perder o brilho e as outras meninas me olharem horrorizadas. Corri para os braços de Alex e lhe dei um beijo.
— Mas o que significa isso?! – A diretora se exaltou.
— Alex e eu estamos juntos há dois anos. Mas isso não é relevante agora que sou maior de idade e estou indo embora. – Respondi sorrindo.
— NÃO ACREDITO NISSO!!! Como é que você pôde escolher essa feiosa ao invés de mim, Alex?! – O rosto de Bárbara ficou vermelho feito cerejas frescas, seus olhos brilharam de ódio.
Alex deu de ombros, enlaçando minha cintura.
— Ela é mais interessante do que você, o que posso fazer?
— Urrrgh!!! – Ela gritou, batendo o pé e saindo da sala depois de esbarrar em algumas meninas da turminha.
O resto das meninas continuou de boca aberta. Cacau cruzou os braços, com nojo, como se estivéssemos cobertos de bosta.
— Você poderia ter escolhido qualquer uma, Alexandro. – Desdenhou ela.
— É. Mas eu não quis, fazer o que? – O olhei com um sorriso de orelha a orelha, eu amava aquele garoto. — A gente está vazando, vejo vocês na próxima doação.
Saímos do orfanato sob os olhares de fúria daquelas m*l armadas. Aquela foi a manhã mais feliz da minha vida até ali.
— Eu vivi para ver esse momento acontecer! – Vibrei enquanto tomávamos café da manhã na primeira lanchonete que encontramos a caminho da casa do meu irmão.
— Vai ser ainda mais épico quando eu te mandar a gravação por e-mail. – Ele tirou o celular do bolso.
— Você gravou?!
— Acha que eu ia perder a chance de rever a cara delas?
Eu gargalhei tanto que meus óculos foram parar na minha boca. Depois de comermos Alex me levou embora e deixou na frente do endereço que meu irmão tinha me mandado por mensagem.
— Nenhuma chance de eu entrar? – Perguntou quando o carro parou.
— Não se quiser continuar vivo. Deixa eu contar a ele primeiro. – Alex me beijou antes de me ajudar a tirar minhas malas do carro.
Ele se despediu de mim com um tapa no meu traseiro e eu esperei que Ahren não estivesse vendo isso de alguma janela.
Um Uber não iria se despedir com uma palmada daquelas.