TOUCHÉ

1437 Words
— Uh! – Eu arfei buscando o ar ao sentir o corpo dele me pressionar contra a parede depois de um beijo que tirou meu fôlego. Alex estava certo, nos vimos algumas vezes em outras doações que ele mesmo tinha feito questão de vir fazer mesmo sem a presença dos pais. Em uma delas ele marcou um encontro comigo, nos vimos em uma madrugada na rua atrás do orfanato. No início só conversávamos e ríamos de diversas situações, de certa forma encontramos conforto um no outro. Alex fugia das discussões infernais em casa e eu tinha meu momento de escape depois de ser atormentada pelas Barbie's Girls. Eu me sentia diferente e livre, Alex passou a me levar a lugares que jamais sonhei em ir. Conheci o mar em um dos nossos encontros proibidos, e também foi em um deles que ele me deu o meu primeiro beijo. O problema é que nós nunca mais paramos. Quando nos víamos Alex me atacava e me beijava feito um animal. E bem, eu até que gostava... Era gostoso e de qualquer maneira nunca passamos de alguns amassos. A parte mais divertida de tudo isso era rir em silêncio enquanto Bárbara se esforçava para chamar atenção de Alex a cada vez que ele aparecia no orfanato. Nós ríamos dela nas nossas escapadas noturnas. Depois que conheci Alex os dias pareciam passar mais rápidos e mais leves. Um ano inteiro se passou e na próxima doação anual Alex e eu nos pegamos no banheiro mais próximo. Quando fizemos um ano e meio ele se lembrou da data e me levou até um quiosque na Barra da Tijuca para comer camarões. Uma das coisas que eu gostava nele era que mesmo sendo rico e tendo um gosto requintado ele não se importava em fazer os passeios simples que mais me agradavam. Na verdade ele até gostava. Com roupas leves e um palito cheio de camarões nas mãos nós sentamos na faixa de areia perto do quebra mar da Barra para olhar a beleza na natureza. — Olha só como sua boca está imunda, cheia de mostarda. – Juntou as sobrancelhas, brincando. — E você vai me obrigar a limpar, é? – Provoquei-o entre uma mordida e outra. — Não, vou limpar para você. – Ele capturou minha boca, passando a língua nos meus lábios antes de tentar me beijar e ser afastado pela minha mão suja. — Você é nojento, sabia? – Impliquei enquanto o vento fresco movia alguns fios rebeldes do meu cabelo. — Gostoso, você quis dizer. — Hmm, talvez um pouco disso também. – Tirei uma mecha de cabelo do rosto. — Um ano e meio é um bom tempo, não acha? — Acho, baby. Isso só prova que temos química, resta saber se teremos química também em outros aspectos. – Alex cheirou meu pescoço. — Também prova outra coisa. – Encarei seus olhos castanhos especulaculativos. — O que? — Que podemos namorar, tecnicamente já é isso que estamos fazendo. – Mordi meu último camarão. — Se já é isso que fazemos então para que mudar? Estamos bem assim, gata. – Alex beijou meu ombro desnudo. — Mas eu quero compromisso, Alexandro. Não estou com você como forma de passatempo, para isso eu tenho meus livros. – Limpei meus dedos em um guardanapo. — Relaxa, anjo. Vou dar um jeito nisso mais para frente. — Vou te apresentar ao meu irmão assim que for oficial. Não quero viver escondida como se estivesse cometendo um crime, se ele descobre que estamos nos encontrando... — Ele não vai. Em breve vou conhecê-lo e ele vai gostar de mim. Prometo. — Mesmo? — Claro que sim. Depois daquela noite eu fiz inúmeros planos para nós dois, especialmente porque em breve eu iria sair do orfanato para morar com Ahren, ele cumpriu a promessa de conseguir um lugar para nós. Era alugado, mas pelo menos teríamos um teto sobre as nossas cabeças, ou telhas, quem sabe? O problema é que os meses foram passando e Alex se esquivava de todas as minhas cobranças. Sua desculpa era que tinha falado com os pais e que eles odiaram a idéia dele assumir publicamente um namoro com uma garota de um orfanato. Traduzindo, uma garota pobre e sem sobrenome de peso. Aquilo me matou por dentro, passei a odiar aquele casal fingido e dissimulado, eles queriam o que? Que Alex ficasse com alguém para ter um relacionamento de aparência tipo o deles? O que me deixava com mais raiva era Alex acatar esse absurdo mesmo morando sozinho, brigamos por causa disso e ele disse que os pais eram responsáveis por bancar seus estudos, e que por isso tinha que fazer suas vontades, para enfrentá-los ele precisaria arrumar um emprego e se bancar sozinho. Pois eu só baixei a guarda quando ele provou que estava mesmo buscando um trabalho. Segurei a onda e continuamos saindo escondidos por mais seis meses, mas quando fiz dezoito anos ele já tinha conseguido um bom emprego graças aos contatos influentes. Então eu lhe dei um ultimato: Ou iríamos namorar sério ou poderíamos parar de nos ver no momento que eu pusesse os pés para fora do orfanato. — Assim você me quebra, gata. – Reclamou ele, no telefone. — Vai ficar quebrado então, amor. Minhas malas estão prontas e estou me mudando amanhã mesmo, se não assumir o namoro você vai ser só mais uma coisa que eu vou deixar para trás. — Tá certo, hoje mesmo vou mudar meu status de relacionamento e dizer aos meus pais que estamos juntos. Satisfeita? — É o mínimo que pode fazer se gosta mesmo de mim. – Pontuei. — É claro que gosto, e vou provar. Boa noite, anjo. Quando eu acordei no dia seguinte dispensei o café, estava ansiosa para ir embora daquele lugar de uma vez por todas. A diretora reuniu todos no refeitório para que se despedissem de mim e depois me acompanhassem até a saída. O que aconteceu a seguir foi impagável. Ao chegar na sala Alex estava com um buquê enorme de rosas vermelhas e balões em forma de coração que tinham a frase que abalou as estruturas daquele orfanato e fez os queixos caírem. “FELIZ DOIS ANOS DE NAMORO” A partir daí foram só gritos, confusão e chororô. Assisti de camarote Bárbara perder o brilho e as outras meninas me olharem horrorizadas. Corri para os braços de Alex e lhe dei um beijo. — Mas o que significa isso?! – A diretora se exaltou. — Alex e eu estamos juntos há dois anos. Mas isso não é relevante agora que sou maior de idade e estou indo embora. – Respondi sorrindo. — NÃO ACREDITO NISSO!!! Como é que você pôde escolher essa feiosa ao invés de mim, Alex?! – O rosto de Bárbara ficou vermelho feito cerejas frescas, seus olhos brilharam de ódio. Alex deu de ombros, enlaçando minha cintura. — Ela é mais interessante do que você, o que posso fazer? — Urrrgh!!! – Ela gritou, batendo o pé e saindo da sala depois de esbarrar em algumas meninas da turminha. O resto das meninas continuou de boca aberta. Cacau cruzou os braços, com nojo, como se estivéssemos cobertos de bosta. — Você poderia ter escolhido qualquer uma, Alexandro. – Desdenhou ela. — É. Mas eu não quis, fazer o que? – O olhei com um sorriso de orelha a orelha, eu amava aquele garoto. — A gente está vazando, vejo vocês na próxima doação. Saímos do orfanato sob os olhares de fúria daquelas m*l armadas. Aquela foi a manhã mais feliz da minha vida até ali. — Eu vivi para ver esse momento acontecer! – Vibrei enquanto tomávamos café da manhã na primeira lanchonete que encontramos a caminho da casa do meu irmão. — Vai ser ainda mais épico quando eu te mandar a gravação por e-mail. – Ele tirou o celular do bolso. — Você gravou?! — Acha que eu ia perder a chance de rever a cara delas? Eu gargalhei tanto que meus óculos foram parar na minha boca. Depois de comermos Alex me levou embora e deixou na frente do endereço que meu irmão tinha me mandado por mensagem. — Nenhuma chance de eu entrar? – Perguntou quando o carro parou. — Não se quiser continuar vivo. Deixa eu contar a ele primeiro. – Alex me beijou antes de me ajudar a tirar minhas malas do carro. Ele se despediu de mim com um tapa no meu traseiro e eu esperei que Ahren não estivesse vendo isso de alguma janela. Um Uber não iria se despedir com uma palmada daquelas.
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