5. SURPRESA

1787 Words
Me joguei nos braços do meu irmão assim que ele abriu a porta. A saudade dele me sufocava as vezes e mesmo ele indo me visitar no orfanato não era a mesma coisa. Ele não era mais um pirralho fedido, Ahren tinha cheiro de perfume de marca e parecia um playboyzinho graças ao jeito de se vestir, esse branquelo de olhos azuis parecia um cara rico. Mas só parecia, a casa não era luxuosa e apesar de ser bonita e aconchegante era bem simples. Mas eu estava feliz por ter um lugar nosso, nos dias que se passaram descobri algumas coisas, a primeira delas era que Ahren fazia sucesso com as mulheres e que elas batiam lá em casa procurando ele de vez em quando. A segunda era que Ahren cozinhava horrivelmente, mas estava se virando. A terceira era que meu irmão tinha conseguido um bom emprego trabalhando com produção de eventos e que, apesar de trabalhar finais de semana e a noite na maioria das vezes, ele conseguia tirar um bom dinheiro com isso. E a última, mas não menos importante, era que ele tinha conseguido convencer a senhoria a lhe vender o imóvel e que agora, o que estava sendo pago mensalmente eram as parcelas da compra e não o aluguel como ele tinha dito uns meses antes. Aquela era uma ótima notícia, embora teríamos uma casa própria para morar e depois podíamos reformá-la do nosso jeito. Em uma noite de quinta feira eu fiz o jantar, cozinhei o prato preferido de Ahren e esperei que ele comesse tudo e abrisse o botão da calça depois de já estar satisfeito para tocar no assunto de Alex. Eu precisava comer pelas beiradas. — Semana que vem vai ser minha formatura do ensino médio. – Comecei, encarando a toalha de mesa antes de olhá-lo. — De quanto precisa? – Perguntou bebendo o suco, juntei as sobrancelhas. — O que? — Deve querer dinheiro para se arrumar e essas coisas que as garotas fazem. – Ahren explicou, seus ombros subiram e desceram. Dei de ombros. Na verdade em tinha pensado nisso. — Acho que só preciso de um vestido e talvez uma graninha para contribuir com a festa. A formatura vai ser simples. — Te dou o dinheiro na segunda. — Certo. Mas na verdade eu estava pensando se você vai poder ir já que vai ser a noite. — É claro que eu vou, você foi na minha. A gente só tem ao outro, Lili. – Lhe mostrei um sorriso enquanto empurrava os óculos para trás. Meu irmão era o único que me chamava assim. Mamãe costumava me chamar de Angel, por um momento pensei onde ela estaria e se estaria orgulhosa de mim por estar me formando com um ótimo histórico de notas, mas tratei de deixar isso para lá. Nunca entendi o motivo de sermos deixados e para dizer a verdade não queria entender. Talvez eu tivesse sido uma criança chata, resmungona e feia desde sempre, mas isso não justificava o abandono de Ahren já que ele sempre foi bonito e esperto. Preferi parar de me forçar a pensar demais nisso, nada mudaria o nosso passado e nem o nosso destino de qualquer maneira. Pelo menos era isso que eu pensava naquele momento. — Eu tenho que te contar uma coisa. – Eu disse encolhendo os ombros, prestando atenção na expressão dele, Ahren me mostrou um sorriso simples. — Vai querer me matar. — Ficou reprovada, Lili? – Ahren fez cara de quem chupou limão. — Não! – Quase gritei, me sentindo ultrajada. — Estou namorando. Empurrei os óculos para trás. Ahren parecia ter levado um tiro, seu rosto ficou todo vermelho, os olhos azuis feito duas metralhadoras me alvejando. Seus punhos se fecharam em cima da mesa e eu ficaria do tamanho das esquiletes se pudesse. — Cazzo! Figlio di puttana! Chi è questo ragazzo? — Você não conhece, irmão. — Mas preciso conhecer, agora! Esta noite! Ligue para ele agora mesmo, o quero aqui em dez minutos. – Meu irmão levantou, furioso. Depois de colocar o copo e o prato na pia ele apoiou as mãos na bancada e olhou para o lado de fora pela janela. Ele estava mesmo chateado e eu cheguei a me sentir culpada, ele era minha única família. — Por que isso agora, Lili? Você só tem dezoito anos. Eu deixei alguma coisa faltar para você? — É claro que não! Não foi por carência, eu só gostei dele. Eu sei que é difícil porque estou dando essa notícia de repente. Mas estamos juntos há um bom tempo, você pode confiar que é um relacionamento sério, irmão. Ahren se virou para mim, os olhos se abriram mais que o normal. — Como assim há um tempo? Há quanto tempo está ficando com esse cara sem me contar, Angelique? Merda, eu tinha acabado de f*der com tudo de vez. Mordi o lábio, me preparando para a rajada de chumbo grosso que viria a seguir. — Dois anos. – Confessei. Meu irmão perdeu a cor, encarou o vazio e esfregou o rosto. Esperei que ele desse um soco na mesa, ou que quebrasse um copo, mas não aconteceu. Ele não disse nada e eu tive mais medo do silêncio do que uma possível explosão. — Traga ele aqui. – Se limitou. — Eu acho que ele não vai conseguir vir hoje, ele faz faculdade e... — Dois dias, é o prazo que você tem para trazê-lo. – Ahren deixou a cozinha e um clima horrível de enterro ficou para trás. Fui atrás dele e me coloquei em sua frente. — Eu não queria te magoar, Ahren. Eu só queria que ficasse feliz por mim, nunca achei que alguém fosse gostar de mim e agora que isso aconteceu eu me sinto especial. Suas sobrancelhas loiras se juntaram. — Você é especial, Lili. Não importa se um cara acha isso ou não, você é inteligente e bonita. Qualquer um teria sorte em ter você por perto. Ergui os ombros. — Mas é só você que acha isso! Entende que eu sempre fui a estranha, desajeitada, quatro olhos, dente de lata que deixa tudo cair no chão por onde passa? É um milagre que ele tenha se apaixonado por mim, irmão. Por favor, não estraga isso. — Talvez, se você esquecer essas idéias absurda sobre si mesma e enfiar nessa cabeça dura que você é tudo de bom. Revirei os olhos tentando não sorrir feito uma boba, Ahren tinha um jeito estranho de me fazer sentir melhor. — Eu sou tudo de bom então. – Repeti para convencê-lo. — Claro que é, você é minha irmã. – Ele sorriu e me envolveu em um abraço quente de urso. Quando nos separamos só sobrou nossos sorrisos cúmplices. — Ah, eu vou matar esse filho da p... °°° — Bem-vindos, pais e convidados dos alunos do terceiro ano! Esta noite estamos aqui para comemorar essa passagem para um novo plano na vida dos formandos. Ahren franziu o cenho para mim, ela estava anunciando nossa formatura ou nossa morte? Me sentei com os dois homens da minha vida na plateia, cada um de um lado. Ahren já tinha conhecido Alex e não tinha ido com a cara dele, bem, já esperávamos isso e com o tempo eu acreditava que tudo iria melhorar. As vezes a conversa dos dois ficava tensa e eu precisava intervir, além disso Ahren mantinha um punhal com a lâmina cega por perto dizendo que iria cortar o p*u de Alex se ele tentasse qualquer gracinha. Ameaças a parte a noite foi maravilhosa, ganhei meu diploma e me diverti muito apesar de Ahren ter barrado a bebida. Em algum momento eu o convenci e ele me deixou tomar alguns drinks. Meu irmão era um espetáculo onde passava e as meninas da minha turma só faltaram cair em cima dele, o deixei a vontade e fui para o bar com Alex. Se eu queria namorar tinha que deixar ele fazer isso também. Tomei uns três drinks e no quarto comecei a sentir umas coisas estranhas, não era apenas tonteira ou sintomas característicos da ingestão de álcool. Eu estava com sono, muito sono e comecei a ver e ouvir coisas sem sentido. Ergui o dedo para Alex pedindo um tempo. — Eu já volto. Fui direto para o banheiro mas não consegui chegar lá, tropecei e caí no meio do corredor. Tinha borboletas ao meu redor e depois elas se transformaram em morcegos chupadores de sangue, eu comecei a gritar, abanando as mãos. As pessoas me olhavam de um jeito estranho, eu estava em uma encrenca, aquela bebida não estava pura e eu estava com medo. Tirei meu celular da bolsa e liguei para o primeiro contato que estava nas últimas chamadas. — Lili? Cadê você? Não estou te vendo daqui. – Ahren atendeu. — Ahren! Morcegos... – Eu chorei alto, juntando algumas pessoas curiosas por perto. — Tem morcegos, eu bebi as borboletas Ahren, eu vou morrer! Chorei feito uma criancinha. — Droga, bebeu demais, Lili. Eu sabia que era má idéia. Onde você está? — Eu não sei! – Chorei ainda mais, tapando os olhos para não ver os morcegos, vi alguém vindo na minha direção e desliguei o telefone pensando ser Ahren, ele veio rápido. Bem rapidinho. — Vem gata, acabou a festa para nós. Vamos embora. – Aquela voz não era de Ahren. — Não. Eu não quero ir! – Reclamei. Senti algo gelado dentro do meu vestido, eram dedos, tinha uma mão tocando minha coxa e indo em direção a minha b***a. Um borrão passou na minha frente e de repente a mão sumiu. Eu estava exausta e deixei o sono levar minha consciência embora. Tudo bem que no dia seguinte eu acordei com dor de cabeça, e Ahren tinha um nariz quebrado por ter arrebentado a cara do meu namorado ao pensar que ele tinha me dopado para tentar de aproveitar de mim. Mas pelo menos tudo foi resolvido e Alex explicou que foi lá para fazer o mesmo que ele, me socorrer, e que a mão dentro do meu vestido foi um acidente na hora que ele tentou me levantar. Essa foi a única vez que eles brigaram apesar das ameaças, mesmo não gostando dele os dois conviviam como o cão e gato e se comportavam quando eu estava por perto. Foram meses felizes, mas como dizem por aí alegria de pobre dura pouco. Em uma noite de terça feira eu cheguei em casa tarde depois de sair com Alex e vi Ahren arrasado na cozinha com algumas contas abertas na mesa. — O que aconteceu? – Perguntei me sentando. — Eu perdi o trabalho, Lili.
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