Celleney Peny.
Eu dei as minhas medidas para a modista, a madame Thristledown, porém, o que eu tinha planeado claramente não saiu como eu imaginava.
Que novidade, Neyney!
Parece que ultimamente tudo vem dando mais errado que pode dar.
Eu planeava sair daqui do atelier, assim que desse as medidas para a modista para encontrar um relojoeiro, trocar os meus cristais por algumas ferramentas para conseguir batalhar mais uma vez com essa geringonça que o meu avô inventou de criar, mas não…
Claro que o plano não sairia como eu imaginava que seria.
Eu estou simplesmente com duas princesas da era das pedras comigo, uma delas, nesse caso, a Lyra, está pior que os cães de guarda lá da mansão me controlando para não sair no meio da noite para uma balada.
É, eles não controlavam os ladrões e sim a mim, não que fosse necessário, tá?!
O meu avô é que era um exagerado, mas olha só o que ele fez?
Hipocrisia, é o que se fala.
Mas bem, com a Lyra me observando como um cão de guarda, eu não consigo simplesmente me livrar dela para fazer o que eu devo fazer.
E outra, a cidade inteira de pessoas bonitas, que mais me fazem pensar que talvez eu tenha entrado em algum filme dessa época por alguma falha da Matrix, porque os meus olhos nunca estiveram tão deslumbrados com absolutamente nada do que eu estou a ver, estão com os olhos em mim.
A cidade, essa cidade no caso, tem de tudo um pouco, moças, senhoras, senhores, passando e passeando, vestidos exuberantemente, de forma antiquada, porque eles são do passado mesmo, mas exuberantemente, tem carruagens, cavalos, guardas, tudo quanto você e eu podemos imaginar como um reino de mil oitocentos e quarenta e cinco pudesse ser, mas, no meio de todas essas pessoas e coisas, os seus pares de olhos observam-me minuciosamente.
Ou seja, a duquesa com certeza sabe o que está fazendo.
O que a dama de companhia falou dela, começa a fazer sentindo agora que eu estou realmente aonde ela queria que eu estivesse.
E outra, acaba sendo meio-óbvio quem eu sou aos olhos de qualquer um deles, pelo menos na maioria, eu tenho traços opostos aos deles, do tom de pele mais escuro para mais, o que não torna possível a minha vontade de sumir por aqui completamente despercebida pelos outros.
Vovô, onde você estava com a cabeça?
Concluindo, essa saída, simplesmente serviu para fazer a minha ficha cair ainda mais, me gerar pânico, me causar mais medo ainda, como se já não fosse o suficiente o que estou a sentir e olha que eu não sou medrosa, menos, conseguir o que eu realmente preciso.
- Precisamos retornar, vossas altezas. - o guarda, acho que é o título da função dele, eu estou completamente perdida com isso, diz com a porta da carruagem já aberta e eu suspiro fundo, perdida.
Eu nem sequer consegui localizar com o olhar uma simples relojoaria.
Nada!
- Celleney. - eu ouço a Cora me chamar, me fazendo olhar para frente, e encontrá-la chamando-me para entrar na carruagem também.
Todos estão atentos à carruagem, eles realmente veneram a realeza por aqui, pelo que posso ver.
O que me restou fazer, foi entrar na carruagem sem vontade alguma, porque eu só queria puder voltar para aquele palácio, com a esperança de que talvez eu consiga arranjar esse maldito relógio, e ele de alguma forma, da forma que ele fez, magicamente me leve para casa. É só o que eu quero.
Amanhã tem essa brincadeira que não é de todo uma brincadeira, de baile de acasalamento… tirando isso, eu estou longe de casa, eu estou confusa, e esse lugar não é para mim, eu sequer sei como é possível que eu esteja aqui, e com certeza não deve ser seguro.
Socorro!
O caminho inteiro de volta para o palácio, eu procurei ao máximo prestar atenção na trajetória, procurando encontrar alguma relojoaria apenas com o olhar, mas nada.
Eu estou oficialmente entrando em pânico.
Chegamos, e simplesmente nada demais aconteceu, o Henrik não está aqui pelo que entendi, e eu fui mandada para o quarto onde eu estou hospedada, para ser enforcada por um novo vestido, para me fazer presente ao almoço, deles.
Basicamente, eu fui torturada, até o horário do almoço chegar, introspetiva, procurando pensar em alguma coisa fazível, que possa me trazer alguma explicação lógica e uma solução o quanto antes.
- Está pronta, senhorita. - a dama de companhia que puxou todos os meus folículos capilares, mas ao menos me deixou bonita, diz, me tirando da minha crise existencial interna.
- Obrigada. - eu falo, a observando através do espelho, e ela assente.
E se eu perguntasse para ela?
Que besteira, Celleney.
A duquesa com certeza ordenou que eles contassem as coisas que eu for fazer ou questionar para ela.
São eles mesmos que eu ouço fofocarem de mim por esses imensos corredores.
O reino deles ficou a saber da minha existência até da minha fisionomia, declarada graciosa por quem escreveu aquele jornal, por eles ficarem comentando de mim, com certeza esse não seria inteligente, eu perguntar justo a ela, nada.
CARAMBA!
- Eu vou surtar. - eu balbucio passando a minha mão pelo meu rosto, exasperada.
- Falou alguma coisa, senhorita? - a dama de companhia questiona-me do quarto, desentendida e eu encaro-a, sem nem força de dar um sorrisinho desentendido.
- Não. - eu respondo-a voltando para o quarto novamente.
- Temos de ir, senhorita. - ela fala e eu assinto caminhando para fora desse quarto.
O que eu vou fazer?
Cheguei a sala de desjejum, antes de todos e entrei na sala, e fui logo me sentar à mesa, como se isso fosse me ajudar a pensar melhor.
Têm muitas coisas aqui do lado de fora do palácio também, têm várias pessoas trabalhando lá fora e é enorme, talvez…
Eu posso tentar sair do quarto mais tarde e procurar por algo que sirva, eu me viro até com tampa de garrafa se for necessário, mas eu preciso arrumar alguma coisa que me faça ao menos começar.
Fato engraçado: Eu nem sequer sei por onde começar.
ARGH!!!
A vontade que eu estou de chorar é insana.
Tic-Tac…
Tic-Tac…
Tic-Tac…
Os ponteiros do relógio que tem aqui, por mais que razoavelmente distante de onde eu estou, fazem esse som, perturbando ainda mais a minha cabeça.
Quanta loucura, quanta insanidade, eu com certeza vou ficar maluca aqui.
Eu olho para o relógio no meu pulso, atordoada.
- Gostaria de saber se toma banho com ele, também. - a voz do Virgil soa, me assustando, e me fazendo retirar o meu olhar dessa geringonça do meu pulso para a cara desse filho da mãe debochado do Virgil.
- Não acha estranho querer saber como eu tomo banho, e insistir em dizer que me chamar do meu próprio nome é indecente, Virgil? - eu o questiono pousando as minhas mãos por cima do vestido, debaixo da mesa o encarando, e ele me oferece o pequeno sorriso debochado dele, se sentando no lugar dele ainda me encarando.
- Estava chorando? - ele me questiona e eu reviro os meus olhos, sem vontade alguma de o responder.
Eu quero realmente chorar.
Chorar, porque, por que porras eu não morri no lugar do meu avô e ainda isso teve que me acontecer?
Eu não sei se a vossa ficha caiu antes da minha, mas eu estou simplesmente no século dezoito!
Não sei como eu vim parar aqui, e logo aqui exatamente, e sei menos ainda como voltar, eu estou simplesmente perdida no tempo, da era dos dragões, dinossauros e vikings.
Um belo exemplo de viking, é o Virgil.
- Está tudo bem? - ele quebra o silêncio deixado por mim, e eu suspiro fundo, procurando encapsular por mais um bocado o meu surto, voltando o meu olhar para ele novamente, para notar uma nova expressão no rosto dele, preocupação?
Seria essa a sua feição?
Talvez, mas não necessariamente importa.
- Eu estou no fim do mundo, onde Judas bateu as botas, a sua mãe quer me obrigar a participar desse baile de acasalamento, eu não sei, simplesmente não sei como voltar para a minha casa, e você, justo você que ousou me chamar de concubina ou de interesseira atirada mais de uma vez, está me questionando se eu estou bem, Virgil! - eu acho que a minha tentativa de encapsular o surto, não deu certo. - Então não, eu não estou nada bem! - eu explodo, e com certeza pela sua feição, ele não estava à espera, mas eu não estou ligando.
O silêncio toma esse lugar, e até os guardas que ficam iguais estátuas deram uma olhada, uns para os outros de soslaio.
- Baile de época. - eu ouço ele pontuar sarcasticamente depois de um tempo. - O que falou tem outro significado. - ele fala todo debochado e a minha única reação é o ignorar, e revirar os meus olhos.
Blá blábláblá.
Socorro!