Capítulo XXIX

1579 Words
Celleney Peny. - O que tem nas unhas? - a Cora questiona-me, e eu levo o meu olhar até as minhas unhas. A Alice, minha amiga, fez as minhas unhas há uma semana mais ou menos. Com certeza eu não estou bem agora, mas não tenho a opção de permanecer na minha pausa depressiva quando simplesmente vim parar em mil oitocentos e quarenta e cinco num piscar de olhos. Ela apareceu lá em casa, e eu estava sozinha no meu quarto, querendo entender como uma coisa dessas tinha acontecido com o meu avô. Comigo. Tentar entender como ele pôde simplesmente me abandonar, sendo que eu queria ter morrido no lugar dele. Tentando entender qual é o objetivo de eu realmente estar viva, com certeza não é para torrar o dinheiro da minha família com compras ‘online’, por mais divertido que seja. Se não tenho um propósito, qual é o sentido de eu estar aqui e de não terem me tirado desse mundo ao invés de terem tirado o meu avô de mim e da minha família? A imagem dele estatelado no chão, assim que abri as portas daquela oficina atormentam-me e estavam me consumindo tanto que eu simplesmente não ligava para mais nada. Inclusive, para as minhas unhas que já estavam com o esmalte todo descascando, e na visita da Alice, ela quis me dar um up e fez uma unha francesa em mim. Nada exuberante, graças a Deus, imaginem se eu tivesse chegado aqui com as unhas vermelhas, aí, sim, eu estaria mais ferrada do que estou agora. - Esmalte. - eu respondo-a mostrando mais para ela que observa curiosa, já a Lyra observa de soslaio fingindo que está pouco interessada. - Uma amiga fez em mim. - eu conto e ela sorri. - E o que é um esmalte? - está tudo bem Celleney, é só explicar, elas não têm por isso que não sabem. - Um esmalte é basicamente uma tinta para as unhas. - é a maneira mais didática de explicar. - Oh... - ela balbucia assentindo com a cabeça. - Têm várias cores. - eu conto. - Mas vocês não devem ter aqui. - eu falo e vejo a Lyra revirar os olhos. - Elas estão muito bonitas. - a Cora elogia voltando o seu olhar para mim e eu sorrio. - Acha que quando se recordar de onde veio, podemos pedir para importarem esses esmaltes para o nosso reino? - ela questiona realmente interessada e eu sorrio. - Claro que não, Cora. - a Lyra nem sequer me deixa responder. - E por que não? - a Cora a questiona tão sem paciência quanto eu. - Porque princesas não usam tinturas nas unhas, é rude. - rude? Por acaso as minhas unhas insultaram essa moça e eu não vi? Eu realmente não tenho paciência. - Como pode uma tintura ser rude, Lyra? - a Cora a questiona tão desentendida quanto eu. - Shhh! - a Lyra a manda calar e a Cora revira os olhos enquanto a carruagem para. Parece que chegamos. - Isso sim é rude. - eu não me aguento e falo para a Lyra que opta por me ignorar, e dar a mão para o guarda parado na porta da carruagem que ele abriu a ajudar a descer. O meu coração está ameaçando sair pela boca de tão nervosa que eu estou. Não devia, até porque praticamente eu sou mais avançada que qualquer um deles, mas eles não sabem, claro, imaginem se eu chegasse desse jeito: “Oi, eu sou a Celleney e vim do futuro com inúmeras revelações para a vossa nação.” Seria icónico, mas aqui facilmente me considerariam uma bruxa se eu contasse sobre os factos históricos e guerras ocorridas nessa época, e eu não estou querendo ser queimada ou apedrejada por aqui. Eu saio da carruagem, logo depois da Cora com a ajuda do guarda aqui parado, e os meus olhos se arregalam de tão chocante que tudo realmente é. Tudo é lindo, parece que eu estou num filme, literalmente, mas é visivelmente algo que teria nessa época. Que loucura. Eu observo as pessoas ao redor fazerem reverência para ambas que entram diretamente no atelier na minha frente, e a medida que as duas passam por eles, os mesmos vão se levantando, e o olhar de curiosidade e cochichos vêm para mim. Socorro! Eu nunca me senti tão deslocada. Eu estendo o meu olhar para além das pessoas, e observo a rua em que estamos, procurando alguma relojoaria ou joelharia. - Celleney. - a Cora chama-me, fazendo com que eu volte o meu olhar para frente e entrar na joelharia. - Que honra puder recebê-las no meu atelier, vossas altezas. - eu ouço a modista falar para a Lyra e a Cora parecendo realmente honrada, enquanto fecham a porta atrás de mim. Belo lugar. Tem vários modelos de vestido, esse seria com certeza um paraíso para as meninas querendo fazer festa de quinze, a maioria gosta desses vestidos. Mas só para essa ocasião mesmo. Eu me questiono quando foi que essas roupas pararam de ser de uso diário? Eu não faço a mínima ideia, mas eu agradeço porque por mais bonito que seja, é infernal andar com isso. - Esta é a senhorita Celleney. - eu ouço a Lyra falar, me tirando da minha pequena distração, fazendo-me olhar para a modista que sorri, me observando de cima a baixo o mais discreta que ela conseguiu. - Prazer! - eu falo esticando a minha mão na direção dela e ela olha para ela estranhando. Não apertam a mão aqui também? Que surpresa. Vendo que ela não ia retribuir, eu simplesmente baixo a minha mão. - Ela é estrangeira. - a Lyra diz como se estivesse me justificando. - O prazer em recebê-la é todo meu, senhorita. - ela diz sorrindo e agora não estou tão certa disso. - O reino está eufórico pelo seu aparecimento. - ela conta e eu sorrio. É claro que ficou, acontece o mesmo onde eu deveria agora, onde eu pertenço, no futuro, também. Provavelmente eu nasci para ser icónica. - É mesmo? - eu questiono retoricamente, fingindo que não tenho conhecimento sobre esse fato inédito e em resposta ela assente sorrindo, enquanto a Lyra e a Cora são acomodadas por outra moça que fez reverência para ambas também. - Seja bem-vinda ao reino de Eldravia, senhorita. - a moça diz e assinto em agradecimento. - Obrigada. - eu falo e suspiro, fundo. Como eu distraio a informante da duquesa aqui, para procurar um relojoeiro? E como eu faço para sair daqui, sem me perceberem? Eu sou visivelmente diferente da maioria deles, e por mais que as ruas aqui pareçam ser bem movimentadas, não acho que alguém passa por aqui despercebida, ainda por cima alguém como eu num lugar desses. - Então, eu tiro só as medidas mesmo, não? - eu questiono propositalmente para a Lyra, querendo acelerar esse processo e fazer o que eu realmente interesso-me aqui. - Para que mais acha que viemos, Celleney? - ela me questiona como se fosse óbvio, e eu finjo que não sei para o que realmente viemos. - Podemos retirar o seu vestido… - a moça que recebeu a Cora e a Lyra sugere, e eu nem permito que ela toque nas hastes dele. - Não é preciso. - eu falo. - Como assim não é preciso, Celleney? - a Lyra questiona e as quatro me encaram confusas, e eu sorrio para a Marigold Thristledown, a modista, que me encara curiosa. Ela deve me achar estranha. - Eu conheço as minhas medidas, pode anotar. - eu falo para ela e o olhar dela se volta para a Lyra. - Não seja inconveniente, Celleney. - a Lyra fala e eu a encaro indignada. - Se ela sabe as medidas não tem porque tirar o vestido. - a Cora diz e eu assinto voltando a olhar para a modista. - A princesa Lyra comentou que é a melhor modista daqui, madame Thristledown. - eu digo-lhe e ela ruboriza sorrindo. - E eu tenho noção que não está a atender mais ninguém agora, apenas para nos receber. - eu concluo e ela pigarrea olhando de soslaio para a Lyra. - Podemos tornar o seu horário mais flexível, é só escrever as minhas medidas, que olha, são quase idênticas a da Lyra. - eu falo ironicamente indicando os papéis na sua mesa. - Os vestidos são para o baile, deve dar medidas exatas. - a Lyra insiste e eu a ofereço o meu sorriso mais sarcástico. - Nós duas sabemos que é impossível fazer vestidos para um baile em questão de horas, Lyra. - eu falo sugestiva, e eu penso que ela captou o que eu quis dizer, pois agora os seus olhos deixaram a frustração de lado e começaram a observar-me com curiosidade. - E não se preocupe que eu fornecerei as minhas exatas medidas. - eu falo e ela dá-me um sorriso fingindo. Definitivamente, não gosto dela. Suspiro e volto o meu olhar para a modista e a sua funcionária que oscilavam os seus olhares de mim, para ela sem saber o que fazer. - Vamos? - eu falo indicando para ela a sua mesa, e a mesma assente sem muita escolha. - Si—sim, por favor. - ela diz indo para a mesa e eu a sigo as ditando em seguida. Duvido que o plano arcaico da família real, não vai dar muito certo.
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