Celleney Peny.
O pequeno-almoço terminou, e eu permaneci quieta no meu canto pensando no que fazer.
Para comprar ferramentas, eu preciso de dinheiro, afinal o ato de comprar exige dinheiro não é mesmo?
O mais engraçado é que eu não tenho.
Irónico, até porque eu sou herdeira de um império bilionário de relógios, e estou nesse fim do mundo sem sequer um centavo para fazer o meu nome.
Se ao menos eu estivesse com a minha bolsa...
Mas, não faria diferença eles não têm POS ou uma ATM aqui mesmo, eu não costumo andar com dinheiro físico na bolsa.
As únicas coisas que eu tenho, são os meus brincos, são de ouro com um pequeno diamante, os meus dois anéis, essa geringonça nomeada relógio que eu não posso e não tenho como me livrar, e a minha saia com cristais.
Acho que não vão negar trocar umas ferramentas por uns cristais, né? Quem negaria?
O meu avô estaria desapontado, uma má negociação, cristais por ferramentas, mas o que eu posso fazer?
Eu só tenho hoje para fazer isso funcionar, porque depois do que ouvi naquela mesa, com certeza a minha vida não irá por bons caminhos depois.
O que você fez vovô?
- Para onde vai? - a Lyra me questiona quando eu faço menção de deixá-las para ir até ao quarto destruir a minha preciosa saia.
- Eu preciso ir à casa de banho. - minto ignorando o olhar ignorante dela sobre mim. - Encontro vocês lá embaixo. - eu falo para elas, estamos no corredor, a Cora assente positivamente, e eu simplesmente me retiro.
Não estou para as chatices da Lyra agora.
Caminho apressada pelo corredor até chegar ao meu quarto.
Fecho a porta, vou para o guarda-roupa aonde as peças de roupa com que cheguei estão, e retiro a saia, ofegante de tão apressada que estava vindo.
Retiro dois cristais do vestido, não estraguei a saia, mas o quão o meu coração está a doer não está escrito.
Guardo-os de entre o meu seio e o corpete do vestido, eles são pequenos e de tão apertado que esse corpete é, eu não corro o risco de os perder.
Saio do quarto e agora, sim, caminho até a entrada do palácio, passando pelos corredores que estão ao rubro quando de madrugada estava às moscas.
Os olhares das pessoas, são iguais a dos funcionários das empresas da nossa família, quando eu ia ocasionalmente como castigo do meu avô, ou até mesmo para ir ver ou os meus pais ou, alguns dos meus primos ou, até os meus tios, de curiosidade, outros de admiração...
Mas esses tem uma mistura de julgamento em acréscimo e murmuram mais, com certeza falando m*l da minha chegada aparentemente polémica.
Deve ser por eles que os jornais souberam que eu cheguei, mas ao menos me acham graciosa, não estaria escrito se eles não achassem e não estivessem comentando que eu seja.
Não é suposto você ficar feliz com isso agora, Celleney.
Estava me aproximando da porta, quando os meus ouvidos chegaram antes de mim e de maneira intrometida escutou a voz do Henrik.
- Porque isso agora? - ele questiona discretamente para a tia, enquanto ambos observam a carruagem aonde a Lyra e a Cora já entraram.
- Pelo mesmo motivo que você mandou investigar o aparecimento repentino dessa estrangeira. - o meu coração acelera.
Ele é um príncipe, é claro que ele mandou investigarem sobre mim.
É mais do que claro que ele não ficaria à espera que eu o contasse alguma coisa ou que ele simplesmente acreditasse de bom grado sem desconfiar de uma estrangeira como eles me chamam, que ele encontrou no meio da floresta.
Será que ele descobriu alguma coisa, por isso deu-me aquele ultimato?
Talvez alguém tenha realmente visto como eu apareci aqui.
Afinal eu não necessariamente sei, eu acordei depois daquela luz intensa me ter encadeado, com pingos batendo a minha cara, e naquele chão lamacento.
Talvez eu não estivesse tão sozinha naquela floresta como pensava, né?
- Se alguém a vir poderá se recordar de alguma coisa e manifestar-se. - ela fala e humn... entendido. - Foi por isso que mandei a Lyra com ela. - ela conclui, e eu assinto.
É óbvio que ela não precisa das minhas medidas, foi só uma desculpa, os últimos vestidos me caíram como uma luva, mesmo me enforcando sem sequer eles terem precisado das minhas medidas.
- Nas vésperas da coroação é perigoso que tanto a Lyra quanto a Cora saiam desse jeito do palácio. - o Henrik fala, mas eu ouvi o bastante então eu simplesmente passo por todos eles, os fazendo encerrarem o assunto por ali e vou direto para a carruagem, cujo subo com a ajuda do guarda que estava parado ao lado da porta e não faço questão de os encarar.
Não acredito que vou subir nesse engenho outra vez.
- Argh... - eu suspiro frustrada pelo que ouvi, e ainda com o quão difícil é sentar com isso no corpo.
Assim que eu entro o guarda fecha a porta e eu suspiro fundo indignada.
- Está tudo bem? - a Cora que está sentada na minha frente questiona-me.
- Eu estou, só estou a tentar me habituar a isso que vocês chamam de roupa. - eu respondo-a não me aguentando.
- O que era suposto ela realmente chamar de roupa? - a Lyra questiona, me encarando assim que à carruagem começa a andar. - Os pedaços de tecido que tinha amarrados no seu corpo quando cá chegou? - ela questiona-me e eu a encaro.
Ambas estão no banco na minha frente, essa carruagem é relativamente maior a que subi, com o Henrik.
- Os pedaços de pano que você falou são definitivamente mais confortáveis e estilosos que isso. - eu a respondo e ela sorri zombando, revira os olhos e olha para o lado.
Som de trombetas soa fortemente, enquanto a carruagem sai daqui e eu só consigo observar tudo isso de queixo caído.
Realmente incrédula com tudo isso, quando eu cheguei aqui, eu de fato achei que era algum tipo de pegadinha ou dos meus amigos, ou dos meus primos.
Porque comparando a responsabilidade deles só existe quando se trata de trabalho, depois disso eles não têm muito senso, não.
Uma vez, eles me deixaram no meio do mato.
É...
Só para vocês terem uma noção de como homem não pensa e o porquê de eu ter achado eles capazes de fazer isso.
Nesse dia nós estávamos a voltar de uma festa, a viagem de volta era longa, e eu achando que estava segura, já que estava voltando com eles, deixei-me dormir de tão cansada que estava.
Acontece que acordei, deitada no mato, recebendo uma picada dolorosa de formigas, graças a Deus não foi de cobra ou de escorpião visto que os quatro foram inconsequentes, e adivinha, eles tinham sumido.
Eu estava no mato mesmo, onde só tinha capim, areia, e com certeza animais mortíferos, a rua era deserta, não passava carro nenhum, e os cafajestes tiraram o meu celular da bolsa.
Eu tive que andar naquele sol quente por uns dez minutos que pareceram horas, mas foram dez minutos, até eles voltarem rindo, achando a maior graça no mundo.
Por isso eu não entendo, já tendo só homem na minha família devia ser castigo suficiente para a minha existência, por que eu tinha que estar nessa situação agora?
A melodia real vai cessando a medida que nós nos distanciamos do palácio, e eu simplesmente estou com o meu coração batendo a mil por hora.
A minha ficha caiu faz tempo, mas cada vez que eu olho para esse lugar, eu confirmo cada vez mais a loucura em que estou metida.
Que doido!
O som do galopar dos cavalos, das rodas da carruagem acariciam os meus ouvidos, até as casas sublimes de tão bonitas remetem a esse ano, as vestimentas das pessoas...
Tudo me faz questionar se eu não estou a sonhar, porque tudo isso parece uma simulação.
Tem uma carruagem na frente da nossa e outra atrás, e eu observo pela janela, mulheres que transbordam uma elegância apreciável, vestidos enormes de vários tons, cores, texturas e ‘designs’, penteados variados, umas com leques e luvas nas mãos, como a Cora e a Lyra caminhando pelas ruas acompanhadas.
Os homens são tão bem vestidos e bonitos, parece que eu estou presenciando a reencarnação aonde os homens eram cavalheiros.
Não têm carros, apenas cavalos e carruagens.
Eu estava quieta observando tudo, com os meus olhos esbugalhados de tão surreal que isso é, quando a Lyra simplesmente fecha a cortina da janela, me fazendo simplesmente suspirar e revirar os olhos, mas a ignoro.
Eu estou definitivamente no passado.