Celleney Peny.
Depois da curta resposta da Lyra, o silêncio instalou-se na enorme sala de desjejum, até aparecerem todos de uma vez.
Quer dizer, seguidos, primeiro entraram a duquesa, o Charles e a Cora, e logo a seguir o Henrik e o Virgil.
Sinceramente, com as estátuas que retratam pessoas dessa época, eu juro que não achei que eles fossem tão bonitos assim.
As estátuas não fazem jus ao que os meus olhos viram quando eu vi o Henrik descer da carruagem e nem ao que eu estou vendo agora, mas nada disso me interessa ou devia me interessar agora.
- Bom dia! - eu saúdo-os indo para o que eu considero agora o meu lugar, assim que os vejo entrar, animados, como se não fosse sete da manhã.
- Bom dia! - eles me respondem sorrindo, com excessão da duquesa, é claro.
- Chegou cedo, priminha. - o Virgil afirma irónico e eu dou um sorriso forçado para ele, enquanto eu me sento, tentando não ser espetada pelos ferros debaixo desse vestido, me ajustando na cadeira.
- A sua mãe me deu uma ajudinha nisso. - eu o respondo e ele sorri encarando-a, como se já soubesse disso.
- Você está tão bonita. - a Cora me elogia e eu sorrio.
- Obrigada, você também. - eu a respondo e as suas bochechas coram.
- Está animada para ir à cidade? - ela me questiona.
- Eu estou! - eu afirmo. - Talvez, eu me recorde de alguma coisa por lá. - eu a respondo e ela assente.
- Do que você se lembraria na cidade, quando você diz que estava desmaiada na floresta? - a Lyra questiona-me e eu suspiro revirando os meus olhos, tirando dos da Cora para o dela.
- Eu espero justamente me recordar de como eu fui parar na floresta, Lyra. - eu respondo-a e ela sorri zombeteira tirando o olhar dela de mim, fazendo pouco caso.
- Isso quer dizer que ainda não se recorda de nada, senhorita Celleney? - a voz do Henrik soa, e instintivamente fecho os meus olhos assim que sinto a sua voz acariciar os meus ouvidos, antes de virar o meu olhar para ele.
Ele questionou isso de forma sugestiva, e o meu coração sentiu medo, porque os meus batimentos aceleraram.
Os seus olhos observam-me aguardando a minha resposta, e eu procuro não me distrair na profundidade visivelmente trambiqueira do olhar esmeralda dele.
- Infelizmente não. - foi o máximo que consegui o responder antes de tirar o meu olhar do dele embasbacada com a beleza do príncipe da era jurássica.
- E o que tem feito para se recordar do que supostamente perdeu memória, senhorita Celleney? - a duquesa me questiona e eu suspiro fundo.
Novamente o assunto vai girar em volta da minha pessoa, que sinceramente não precisa de mais isso.
- Exatamente o que eu devo fazer. - eu digo-lhe. - Tentar me recordar. - concluo com o óbvio enfiando o garfo na minha boca enquanto mantenho o contacto visual com ela. - Garanto que ser questionada o tempo todo como se eu fosse uma mentirosa não é maneiro. - eu falo, e todos eles franzem o cenho ao mesmo tempo, me assustando.
O que foi?
- Maneiro? - a Cora questiona confusa me encarando, e eu suspiro.
Explicar tudo o que eu falo, também não é maneiro.
- É, maneiro. - eu repito. - Legal, bom... - eu explico. - Algo que não é do meu agrado, não é honrado, não é deleitável. - talvez gastando todo o meu vocabulário eles entendam.
- Nós entendemos. - o Virgil fala como se eu tivesse o insultado e eu arregalo os olhos sobressaltado com o fechamento dele, e dou de ombros.
- Eu só estava explicando. - eu afirmo num sussurro levantando as minhas mãos em rendição.
- Não acha que teve tempo demais para tentar recuperar a sua memória? - a Lyra questiona-me sarcástica e eu suspiro.
- Bem, deixe-me ver. - eu falo ironicamente pousando o meu garfo, apoiando o meu cotovelo sobre a mesa, mostrando a minha mão para ela. - Conte comigo, me ajude aqui. - eu digo olhando para o meu dedo já baixando o meu dedo mindinho, sentindo o olhar aniquilador dela em mim.
- Primeiro eu cheguei e perdi a consciência completamente confusa. - eu lhe digo. - Depois, eu tive que me explicar com vocês, porque simplesmente recebi uma ajudinha quando estava lá naquela floresta toda encharcada e adivinhem, continuava confusa. - eu digo baixando mais um dedo e levanto o meu olhar para ela.
- Vamos princesa, conte comigo. - eu provoco cinicamente para ela que me encara. - O que aconteceu depois, eu m*l acordei, e para além de me questionarem, eu tive de explicar novamente algo que até agora não entendo. - eu prossigo. - O dia inteiro de ontem, eu fui obrigada a dançar, no tempo que eu podia estar tentando me recordar de alguma coisa, e hoje, eu fui puxada para fora da cama, para tirar medidas de vestidos. - eu concluo cerrando o meu pulso e levanto o meu olhar para ela que está ruborizada, presumo que de raiva por alguma razão.
- Então você me responde a sua questão, princesa? - eu a questiono irónica.
- É, não teve realmente tanto tempo assim. - a Cora afirma recebendo olhares de repreensão da irmã e da tia e eu concordo.
- Que não seja por isso, após regressar terá até o resto das horas disponíveis para pensar e repensar a sua trajetória até aqui, senhorita Celleney. - o Henrik diz, mais como um ultimato que outra coisa, e eu seguro-me para não engolir em seco.
Eu realmente espero encontrar um relojoeiro, porque até amanhã eu pretendo não estar mais aqui.
Eu não quero estar aqui e não pretendo estar nessa cerimónia.
- O início da temporada é amanhã, Henrik, ela precisa de treinamento antes de se apresentar para o resto do reino como alguém que está sobre o meu supervisionamento. - a duquesa diz.
- A senhorita Celleney, deixou claro que não tem pretensão de participar no baile. - o Charles diz em minha defesa e eu sorrio amena o encarando.
- Caso não tenha visto, é a segunda vez em apenas os dois dias que cá chegou, que ela se tornou tópico de rumores por todo o reino no jornal impresso. - ela fala e eu franzo o meu semblante confusa.
Segunda vez?
É, aqui eles são mesmo fofoqueiros.
Eles nem sequer me viram.
- Todos sabem que ela está hospedada aqui no palácio real, que veio na mesma carruagem que o Henrik, - ela diz visivelmente no seu auge. - Ontem a marquesa Genevieve Chatterton, comentou sobre ela, e eu tive que ludibriar todas elas, e a encaixar algures na linhagem nobre usando a temporada como desculpa para a sua aparição. - ela diz no mesmo tom que a minha mãe costuma falar.
Como eu já mencionei os meus pais são extremamente ocupados, tão ocupados que preferi morar com o meu avô, que normalmente o estado de espírito dela é igualzinho ao da duquesa, sempre farta.
- Portanto, se ela não se recordar e não for embora até amanhã, ela terá sim de participar da temporada e ela não possui escolha qualquer. - ela é brava, o seu tom não é gritante, mas é autoritário e cirúrgico que o meu coração falhou.
Que tragédia!
No que foi que eu me meti?
Não fui eu que me meti, na verdade, foi o meu avô.
O irónico é que eu sempre me metia em confusões, e ele era quem me dava bronca por conta disso, mas foi só ele me abandonar por que supostamente o coração dele parou de bater que os papéis se inverteram.
Socorro!
- Se ela não se recordar, ela participará. - o Henrik diz. - Mas o que falei está dito, ela usará as horas que a restarão para decidir se me contará ou não de onde veio e como veio. - o Henrik diz impositivo e eu me arrepio toda quando o seu olhar sai do da tia e vem para mim, me fazendo engolir em seco. - Certo? - ele me questiona, e...
Caramba!
- Certo. - a minha voz sai toda enfraquecida.
Céus.
Ninguém contestou, e eu simplesmente voltei o meu olhar e a minha atenção para a minha comida, com um embrulho no estômago no lugar da fome.
O silêncio sumiu depois de alguns minutos, mas eu permaneci na minha até o Charles se dirigir a mim.
- Conseguiu descansar ontem? - ele questiona-me e eu sorrio com o quão atencioso ele é.
Não exatamente, príncipe amável.
- Consegui, depois de um tempo. - eu o respondo e ele observa-me e assente como se percebesse que dei uma resposta, cortês.
- Onde a viu? - o Virgil simplesmente questiona como se eu não estivesse aqui e o Charles me encara como se me perguntasse se podia responder.
- No jardim, eu estava sem sono. - eu respondo por ele para esse ruivo intrometido vulgo duque da era das cavernas.
- Oh, então tem o hábito de andar pelo palácio quando está sem sono, priminha? - ele questiona sugestivo, com certeza se recordando da cozinha.
Só porque ele me acompanhou para a cozinha.
- Olha como você já me conhece, priminho. - eu respondo entrando na brincadeira dele, e oferecemos um para o outro o sorriso mais falso que existe e eu volto a prestar atenção na minha comida.
É o que eu posso fazer de melhor por enquanto.