Capítulo 1: O peso do silêncio
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Stay — Rihanna
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Julia atravessou a sala correndo, com as meias sujas de tinta, e quase escorregou ao tentar desviar da boneca caída sobre o tapete.
— Devagar, meu amor.
Luiza a segurou antes que a menina caísse, arrancando dela uma risadinha despreocupada.
— Eu consegui.
— Por pouco, sua danadinha.
Luiza sorriu antes de deixar um beijo demorado na única bochecha limpa da filha, oposta à outra que estava um pouco suja de suor e de tinta guache amarela.
Em seguida, limpou parte da bochecha borrada com a barra da própria camiseta e só então a permitiu voltar para seus afazeres.
Julia voltou para os desenhos espalhados perto da mesa de centro como se nada tivesse acontecido.
Do outro lado da sala, Arthur falava ao celular enquanto dividia a atenção entre a televisão ligada em um canal esportivo e o notebook aberto sobre as pernas.
— Não, eu entendi a proposta... mas, se vocês quiserem fechar isso ainda esta semana, vou precisar do contrato até amanhã cedo.
A voz dele estava concentrada e firme.
Enquanto aguardava uma resposta, abriu rapidamente um e-mail na tela do notebook e conferiu uma planilha.
Julia ergueu o rosto dos desenhos e olhou para a mãe.
— Será que o papai vai brincar comigo hoje?
Contraindo os lábios numa linha fina, evitando demonstrar raiva na resposta para a filha, Luiza hesitou por um instante.
Arthur passou por elas naquele momento, ainda falando ao telefone. Pegou o carregador sobre o aparador e seguiu até a varanda.
— Não, calma... agora consigo abrir o e-mail.
A porta de vidro se fechou atrás dele.
Julia continuou olhando para a mãe.
— Mamãe?
Luiza piscou algumas vezes.
— Oi, meu amor.
— Você não falou nada.
— Desculpa, querida. Só estou cansada.
Ela ajeitou uma mecha do cabelo da filha atrás da orelha.
— O seu pai está ocupado hoje. Quem sabe amanhã ele brinca com você?
Julia pareceu pensar por alguns segundos.
— Tá bom.
Então voltou para os desenhos espalhados pelo tapete.
Luiza permaneceu observando a menina por um instante antes de se aproximar e sentar ao seu lado.
Pouco depois, as duas já discutiam seriamente se o cachorro desenhado por Julia parecia mais um cachorro ou uma batata com pernas.
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O jantar aconteceu entre notificações de celular, comentários distraídos sobre futebol e histórias confusas contadas por Julia.
— A Vitória chorou porque perdeu um lápis rosa.
A menina falava com a seriedade de quem relatava um acontecimento histórico.
— Aí a professora achou dentro da mochila dela mesma.
Luiza riu imediatamente.
Arthur também. O riso dele chegou alguns segundos depois.
— Bom...
Luiza serviu arroz no prato da filha.
— A apresentação da escola mudou de horário.
Arthur ergueu os olhos.
— Quando?
— Sexta. Vai ser às quatro da tarde.
Ele passou a mão pelo rosto.
— Acho que consigo ir.
Luiza apenas assentiu.
O celular dele vibrou novamente. Arthur o pegou quase no mesmo instante.
Uma voz feminina começou a soar no áudio reproduzido em volume baixo. Falava sobre contratos, prazos e números. Arthur ouviu parte da mensagem e respondeu rapidamente.
Depois voltou a atenção para a mesa.
— Uma cliente nova. Está desesperada por causa do prazo.
— Entendi.
Luiza voltou a comer.
Julia continuava contando alguma história sobre uma colega da escola e um adesivo de unicórnio.
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Mais tarde, Arthur realmente tentou participar da noite em família. Ligou o futebol, chamou Julia para sentar ao lado dele no sofá e começou a explicar quem era o melhor jogador do time.
A menina ouviu tudo atentamente durante alguns minutos. Depois escorregou devagar para o chão, pegou o tablet e começou a assistir a um desenho encostada no tapete da sala.
Arthur continuou acompanhando a partida. De vez em quando, uma notificação iluminava a tela do celular.
Na cozinha, Luiza lavava os pratos. A água escorria pelos talheres enquanto o narrador esportivo falava alto na televisão.
Ela colocou um prato na pia com um pouco mais de força do que pretendia.
Arthur virou o rosto.
— Aconteceu alguma coisa?
— Nada.
Ele permaneceu olhando para ela por alguns segundos.
— Vem assistir comigo.
Luiza secou as mãos no pano de prato. Por um instante, encarou a televisão ligada na sala.
— Vou para o quarto. Preciso arejar a mente um pouco.
— Tudo bem.
Arthur voltou a atenção para a partida.
Luiza passou pela filha e deixou um beijo rápido no topo de sua cabeça antes de subir as escadas.
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Tempo depois....
Julia acabou dormindo no sofá antes do fim do segundo tempo.
Luiza encontrou a filha encolhida entre as almofadas, abraçada à própria boneca, enquanto a luz azulada da televisão iluminava parcialmente seu rosto.
Arthur continuava sentado no mesmo lugar. O celular permanecia em uma das mãos. Uma cerveja descansava esquecida sobre a mesa de centro.
— Ela dormiu tem tempo muito? — perguntou Luiza em voz baixa
Arthur olhou rapidamente para a filha.
— Ah... sim. Acho que faz pouco tempo.
— Entendi. — disse Luiza, semicerrando os olhos enquanto o encarava.
Luiza pegou Julia no colo delicadamente e a levou para o quarto.
Arthur até se ofereceu para carregá-la, mas Luiza disse que não precisava.
Então ele voltou os olhos para a televisão.
Pouco depois, uma nova notificação iluminou a tela do celular.
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No quarto infantil, acomodou Julia sob as cobertas e afastou uma mecha de cabelo grudada em sua bochecha. A menina murmurou algo incompreensível durante o sono e abraçou o ursinho com mais força.
Luiza sorriu. Permaneceu ali por alguns segundos antes de apagar o abajur e sair do quarto.
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Um tempo depois, quando Luiza saiu do banho, Arthur já estava na cama. A luz branca da tela do celular iluminava parcialmente seu rosto.
Luiza passou hidratante nos braços diante do espelho.
Sobre a cômoda, alguns objetos estavam espalhados de maneira quase idêntica à dos últimos meses: o porta-retrato da família, o carregador, o livro que ela ainda não terminara de ler e um bloco de anotações onde havia rabiscado algumas ideias dias antes.
Fechou a tampa do hidratante e se aproximou da cama.
— A conta da internet venceu? — perguntou Arthur sem tirar os olhos da tela.
— Paguei hoje.
— Ah, ótimo. Obrigado.
Alguns segundos depois:
— A Julia já tomou o remédio?
— Tomou. Nunca deixo de dar.
— Certo. Só perguntei por via das dúvidas.
Luiza apenas murmurou um "hmm".
Logo o quarto voltou ao silêncio.
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Luiza apagou a luz principal e se deitou.
Poucos segundos depois, sentiu o colchão afundar levemente quando Arthur se aproximou. O braço dele deslizou por sua cintura. Vieram os beijos curtos em seu ombro. Depois em seu pescoço.
Luiza fechou os olhos por um instante. Então respirou fundo.
— Arthur...
A voz saiu baixa.
— Estou cansada hoje.
Ela ajeitou o travesseiro.
— Deixa para outro dia.
Arthur permaneceu em silêncio por alguns segundos. Então se afastou.
— Tudo bem.
O tom saiu mais seco do que ela esperava.
Luiza continuou olhando para a escuridão do quarto. Ao lado dela, Arthur se ajeitou no colchão. Nenhum dos dois voltou a falar.
O som distante dos carros atravessava a janela de tempos em tempos. Alguns minutos depois, a respiração dele ficou mais pesada. Logo vieram os primeiros roncos baixos.
Luiza permaneceu acordada. Os faróis dos carros desenhavam sombras rápidas no teto através da cortina. Ela virou discretamente o rosto na direção da janela.
Do outro lado da cama, Arthur dormia profundamente.
O quarto permaneceu silencioso.
E a noite seguiu avançando devagar ao redor deles.
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