KN
A vida nunca foi boa comigo.
Eu aprendi cedo que ou você engole o mundo, ou é engolido por ele.
Perdi meus pais num acidente quando eu tinha dezessete anos.
Um caminhão atravessou o sinal e levou eles embora numa tarde de domingo.
E naquele mesmo dia eu prometi pra minha irmã, que ainda era pequena, que nada nunca ia faltar pra ela.
De lá pra cá, não teve mais sentimento.
Não teve amor.
Não teve carinho.
Só estratégia, poder, guerra.
Eu virei quem eu precisava ser pra manter a gente vivo.
O dono dessa p***a aqui.
O morro inteiro me respeita — uns me temem, outros me odeiam.
Azar o deles.
A BOPE já tentou me derrubar mais vezes do que eu consigo contar, mas eu sempre saí por cima. Sempre.
Não sou homem de me abalar com comentário de zé povinho.
Aqui eu mando. Aqui eu dito as regras.
E eu não tenho tempo nem paciência pra fraqueza.
Amor? Essa merda nunca serviu pra ninguém.
Só faz o homem cair.
Eu não sou desses. Nunca fui. Nem pretendo ser.
Enquanto eu revisava umas anotações no caderno, sentado na cadeira da salinha da boca, escutava o barulho lá fora: rádio tocando, moleque gritando preço, som de moto subindo e descendo o beco.
Mais um dia normal no inferno que eu chamo de lar.
Assino uns papéis, confiro as contas, vejo quem tá me devendo carga... quando a porta se abre sem ninguém bater.
Paiva: — Fala, irmão.
É o Paiva que entra primeiro, jogando o boné na mesa e se jogando no sofá com a maior naturalidade.
W7 vem logo atrás, mastigando um chiclete como se não tivesse pressa nenhuma.
W7: — Cê tá com a cara mais feia que o normal hoje, hein? — ele provoca, rindo.
Eu olho pros dois de r**o de olho e fecho o caderno devagar.
KN: — Ou vocês têm alguma coisa importante pra me dizer, ou levantam daqui antes que eu resolva fazer vocês trabalharem dobrado hoje.
Paiva ri, esticando as pernas.
Paiva: — Relaxa, p***a. A gente só veio ver se tu ia colar mais tarde no churras lá na laje. Já tão montando a churrasqueira, vai começar a rolar um pagodinho — ele fala, tentando aliviar o clima pesado.
KN: — Não. — corto seco, levantando da cadeira. — Tenho coisa melhor pra fazer do que perder meu tempo com música r**m e cerveja quente.
W7 dá uma gargalhada alta.
W7: — Esse aí não tem cura mesmo, só vive pra essa p***a desse morro. Tu tá precisando t*****r, hein!
Dou um meio sorriso, sem humor nenhum, e volto a revisar umas mensagens no celular.
Quando tô quase mandando eles saírem, a porta abre de novo.
Neguinho entra, esbaforido.
Neguinho: — Chefe, tu não tá ligado no que eu vi agora lá fora! — ele diz, já com aquele ar fofoqueiro que eu odeio.
Levanto a cabeça devagar.
KN: — Fala logo, p***a.
Ele engole em seco.
Neguinho: — A Camila chegou. Trouxe uma mina nova aí e, p***a… que mina gata, chefe. Morena, mas com cara de marrenta. E ainda por cima com um pivete junto.
Fecho a cara na hora.
KN: — O quê? — minha voz sai baixa, mas suficiente pra gelar o moleque.
Neguinho engole em seco de novo.
Neguinho: — Isso mesmo. Ela já tá lá na casa da Camila, subiu com ela.
Mas sei lá, viu... a mulher é bonita demais pra ser só visita.
Sinto uma raiva surda crescendo dentro de mim.
Eu já tinha falado pra Camila parar de trazer gente estranha pro morro.
Ela sabe que aqui não é lugar pra turista — muito menos pra quem eu não conheço.
Jogo o caderno na mesa e me viro pros três.
KN: — Descobre quem é essa mina. Hoje ainda. Se é amiga da Camila mesmo ou se é alguma esperta querendo se enfiar onde não deve.
Paiva assobia, como quem já entendeu que o clima pesou.
W7 dá um sorrisinho debochado, mas não fala nada.
Passo as mãos no rosto, respiro fundo e olho pro Neguinho de novo.
KN: — E vê se para de ficar babando em visita. Aqui não é desfile de moda.
Ele acena com a cabeça e sai apressado.
Fico sozinho por um instante, encarando a parede.
Por algum motivo, o jeito que ele falou dessa mina ficou martelando na minha cabeça.
Bonita. Marrenta. Com um pivete.
Não sei por quê, mas isso me incomodou mais do que devia.
E se tem uma coisa que eu odeio é quando algo mexe comigo sem eu querer.
(...)
O resto da tarde passou devagar, mas minha cabeça não saiu do mesmo lugar.
Não era só raiva — embora eu tivesse bastante dela também.
Era um incômodo, uma pontada estranha que eu não sabia dar nome.
Eu não gostava de novidade no meu morro.
Não gostava de gente que eu não conhecia andando nas minhas ruas, comendo no meu botequim, subindo as minhas ladeiras.
E principalmente, não gostava de saber dessas coisas pelos outros — como se eu fosse um i****a desatento.
Quando deu por volta das sete, larguei tudo na boca e dei a ordem pro Neguinho segurar lá embaixo.
Paiva e W7 já sabiam o que ia acontecer só pelo meu olhar.
W7: — Vai sozinho? — perguntou, apoiado na moto.
KN: — Vou. — respondi seco, já acendendo um beck.
Subi a viela com calma, sem pressa.
A música alta já ecoava da laje da Camila — gargalhadas, conversa, som de criança correndo.
Eu conhecia aquele cenário de cor. Já tinha subido aquelas escadas um milhão de vezes.
Mas hoje era diferente.
Hoje eu tava indo ver quem era essa mina que ousou aparecer aqui como se fosse qualquer coisa.
Quando cheguei na porta, Camila me viu primeiro.
Parou de rir e cruzou os braços, com aquela expressão petulante dela.
Camila: — Até você resolveu dar as caras? — soltou com um sorrisinho debochado. — O mundo tá acabando mesmo.
Não respondi. Só dei um passo à frente e encostei na parede da porta, encarando lá dentro.
A casa tava cheia, como sempre.
Mesa posta com comida, umas crianças correndo pelo corredor, vizinhos conhecidos jogando conversa fora.
Mas meu olhar parou nela.
Sentada no sofá, ajeitando o cabelo atrás da orelha enquanto falava baixinho com o moleque no colo.
A tal mina nova.
E porra... o Neguinho não tinha exagerado.
Ela era bonita de um jeito simples, mas chamava atenção sem querer.
Tinha um olhar marrento, desconfiado — como quem já passou por coisa demais pra abaixar a cabeça pra alguém.
Ela levantou o rosto bem na hora que eu encarava.
E ficou me olhando de volta.
Não baixou os olhos.
Não sorriu.
Só me encarou. Séria.
Era isso.
Essa mulher ia me dar trabalho.
KN: — Quem é? — soltei a pergunta sem tirar os olhos dela, num tom baixo, mas firme o bastante pra Camila revirar os olhos.
Camila: — Amiga minha, KN. — respondeu no mesmo tom debochado de sempre. — Qualquer coisa, eu mesma te explico depois.
KN: — Explica mesmo. — falei, apagando o beck na soleira da porta.
A morena ainda continuava me olhando, sem medo.
Como se não tivesse a menor ideia de quem eu era… ou como se simplesmente não se importasse.
E isso me irritou mais ainda.
Dei meia-volta, descendo as escadas devagar.
Ela tinha nome.
História.
Motivo pra estar ali.
E eu ia descobrir.
Porque naquele morro ninguém aparecia do nada.
Muito menos alguém que conseguia me tirar do eixo só com um olhar.
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