Luana
A porta bateu forte assim que ele saiu. O barulho ecoou pela sala pequena, me fazendo até dar um leve pulo no sofá. O cheiro do perfume dele ainda pairava no ar, uma mistura forte de algo amadeirado com álcool, como se ele fosse feito só de vícios e noites m*l dormidas.
Eu não conhecia aquele homem, mas bastou um olhar pra sentir o peso que ele carregava. Um olhar gelado, duro, como se ele pudesse atravessar a alma de qualquer um sem precisar dizer uma palavra. E foi exatamente isso que ele fez comigo.
Quando ele virou o rosto e me encarou antes de sair, eu senti raiva. Raiva de alguém que eu nem sequer conhecia direito.
Luana: Quem é ele? — perguntei baixo, assim que o silêncio voltou a dominar a sala.
Camila ainda estava perto da porta, os dedos tremendo levemente quando girou a chave novamente. Ela suspirou pesado e só depois me olhou, como se tivesse medo de falar qualquer coisa.
Camila: Ele é o KN — disse num tom quase sussurrado.
Luana: KN? — franzi a testa, sem entender. — Tá, mas KN quem? Algum ex seu?
Camila soltou uma risada nervosa, sem nenhum humor, e caminhou até a poltrona. Se jogou nela, cruzando as pernas e apoiando o rosto nas mãos. Eu fiquei ali parada, esperando que ela explicasse, porque aquilo não tava fazendo sentido.
Camila: Ele não é “alguém”, Luana. Ele é o dono desse morro.
Ela finalmente levantou o rosto. O olhar assustado denunciava que falar aquilo em voz alta parecia quase um pecado.
Meu coração deu uma batida estranha, rápida demais. Eu repeti as palavras na minha cabeça: o dono do morro.
Luana: Você tá falando sério?
Camila apenas assentiu, devagar.
Camila: Ele manda em tudo aqui. Tudo. Se alguém respira, é porque ele permite. Se alguém some, é porque ele decidiu que ia sumir.
— Ela mordeu o lábio, encarando o chão, como se lembrasse de algo r**m. — Ele perdeu os pais quando era moleque. Só tem a irmã agora. Mas não deixa ninguém se aproximar dele. É frio, calculista, não tem coração. Só faz o que tem que ser feito pra manter o poder.
Me encostei na parede, tentando processar. Então era por isso aquele olhar? Por isso aquele peso quando ele entrou? Era como se todo mundo já soubesse que ali ele era a lei.
Camila respirou fundo outra vez, ajeitando o cabelo atrás da orelha.
Camila: Ele não gosta de gente nova por aqui. Pra ele, qualquer um pode ser uma ameaça. — Ela me encarou séria. — Cuidado. Você chamou a atenção dele hoje, e eu não sei se isso é bom ou péssimo pra você.
Luana: Então por que você me chamou pra cá?
Camila: Tava com saudades e quero você passando uns dias comigo. E relaxa, o KN não vai mexer contigo.
Meu estômago revirou com as palavras dela, mas tentei disfarçar. Balancei a cabeça, fingindo que nada daquilo me abalava. Por dentro, no entanto, eu só conseguia pensar na forma como ele me olhou antes de sair — como se já me odiasse, ou como se tivesse decidido que eu não deveria estar ali.
A única pergunta que martelava na minha mente era: por que logo eu?
(...)
O sol já começava a invadir o quarto quando senti um peso pequeno sobre minha barriga. Abri os olhos devagar, ainda sonolenta, e dei de cara com aqueles olhinhos castanhos me encarando com um sorrisinho sapeca.
Lucas: Bom dia, mamãe — disse baixinho, com aquela voz arrastada de quem também acabava de acordar.
Sorri, mesmo cansada. Ele sempre dava um jeito de transformar qualquer manhã em algo bom.
Luana: Bom dia, meu amor — murmurei, passando a mão nos cabelos bagunçados dele.
Ele se aninhou mais em mim, e ficamos alguns minutos ali, só aproveitando o silêncio do quarto. Até que senti ele inquieto, querendo brincar, querendo se mexer.
Luana: Vamos tomar banho, então? — falei, me sentando na cama.
Ele assentiu animado, e eu o peguei no colo. O banheiro era simples, mas pelo menos tinha água quente naquela manhã fria. Coloquei ele de pé no box e comecei a tirar a roupinha, enquanto ele já se divertia batendo as mãos na água.
Luana: Fica quietinho, hein, Lucas! — tentei não rir quando ele começou a espirrar água em mim.
Lucas: Tá bom, mamãe.
Mas eu sabia que não tava “bom” coisa nenhuma. A qualquer momento ele ia inventar outra arte.
Mesmo assim, dei banho nele com carinho, esfregando cada cantinho, deixando-o cheiroso e limpinho. Depois enrolei ele na toalha e o levei pro quarto para trocar de roupa. Ele escolheu uma camiseta de super-herói, um calção e a sandália que Camila tinha dado.
Quando ele ficou pronto, foi minha vez. Tomei um banho rápido, coloquei um vestidinho simples com um casaquinho por cima e prendi o cabelo num coque improvisado. Ainda cansada, mas pelo menos apresentável.
Quando descemos, o cheiro de café já tomava a cozinha. Camila estava sentada à mesa, mexendo no celular enquanto tomava um gole de café preto.
Camila: Bom dia, dorminhoca — disse sem levantar os olhos do celular.
Luana: Bom dia. Ele que me acordou hoje — falei, indicando Lucas.
Camila soltou uma risadinha, como quem já esperava.
Camila: Ele é uma figurinha mesmo.
Olhou para Lucas com carinho, enquanto ele atacava um pedaço de bolo de fubá. Peguei uma xícara de café e aproveitei um pouco da leveza daquela manhã.
Até que Camila largou o celular e me observou por alguns segundos.
Camila: E aí? Dormiu bem depois de ontem?
Minha expressão endureceu. Lembrei do olhar de gelo dele, do peso daquela presença que parecia grande demais pra aquela casa — e pra aquele morro.
Luana: Não sei. É como se eu tivesse feito algo errado só por estar aqui.
Camila apoiou a mão na minha.
Camila: Você não fez nada. Ele é assim mesmo. Só não bate de frente, tá? Vai por mim. É melhor pra você.
Assenti, mesmo com o orgulho latejando dentro de mim. Eu não gostava de ser tratada como problema só por existir.
Lucas me cutucou pedindo mais bolo. Sorri e peguei outro pedaço pra ele. Enquanto servia, a pergunta voltou a me atravessar:
Será que todo dia daqui pra frente vai ser assim? Vivendo sob o olhar de alguém que já decidiu me odiar?
Porque uma coisa eu sabia: eu não ia baixar a cabeça pra ele tão fácil.
E assim, naquela manhã, em meio ao cheiro de café e uma conversa leve, um novo desafio se desenhava na minha mente.
Ele podia ser o dono do morro.
Mas da minha vida, quem mandava era eu.