cap 03 não na minha vida

1122 Words
Luana A porta bateu forte assim que ele saiu. O barulho ecoou pela sala pequena, me fazendo até dar um leve pulo no sofá. O cheiro do perfume dele ainda pairava no ar, uma mistura forte de algo amadeirado com álcool, como se ele fosse feito só de vícios e noites m*l dormidas. Eu não conhecia aquele homem, mas bastou um olhar pra sentir o peso que ele carregava. Um olhar gelado, duro, como se ele pudesse atravessar a alma de qualquer um sem precisar dizer uma palavra. E foi exatamente isso que ele fez comigo. Quando ele virou o rosto e me encarou antes de sair, eu senti raiva. Raiva de alguém que eu nem sequer conhecia direito. Luana: Quem é ele? — perguntei baixo, assim que o silêncio voltou a dominar a sala. Camila ainda estava perto da porta, os dedos tremendo levemente quando girou a chave novamente. Ela suspirou pesado e só depois me olhou, como se tivesse medo de falar qualquer coisa. Camila: Ele é o KN — disse num tom quase sussurrado. Luana: KN? — franzi a testa, sem entender. — Tá, mas KN quem? Algum ex seu? Camila soltou uma risada nervosa, sem nenhum humor, e caminhou até a poltrona. Se jogou nela, cruzando as pernas e apoiando o rosto nas mãos. Eu fiquei ali parada, esperando que ela explicasse, porque aquilo não tava fazendo sentido. Camila: Ele não é “alguém”, Luana. Ele é o dono desse morro. Ela finalmente levantou o rosto. O olhar assustado denunciava que falar aquilo em voz alta parecia quase um pecado. Meu coração deu uma batida estranha, rápida demais. Eu repeti as palavras na minha cabeça: o dono do morro. Luana: Você tá falando sério? Camila apenas assentiu, devagar. Camila: Ele manda em tudo aqui. Tudo. Se alguém respira, é porque ele permite. Se alguém some, é porque ele decidiu que ia sumir. — Ela mordeu o lábio, encarando o chão, como se lembrasse de algo r**m. — Ele perdeu os pais quando era moleque. Só tem a irmã agora. Mas não deixa ninguém se aproximar dele. É frio, calculista, não tem coração. Só faz o que tem que ser feito pra manter o poder. Me encostei na parede, tentando processar. Então era por isso aquele olhar? Por isso aquele peso quando ele entrou? Era como se todo mundo já soubesse que ali ele era a lei. Camila respirou fundo outra vez, ajeitando o cabelo atrás da orelha. Camila: Ele não gosta de gente nova por aqui. Pra ele, qualquer um pode ser uma ameaça. — Ela me encarou séria. — Cuidado. Você chamou a atenção dele hoje, e eu não sei se isso é bom ou péssimo pra você. Luana: Então por que você me chamou pra cá? Camila: Tava com saudades e quero você passando uns dias comigo. E relaxa, o KN não vai mexer contigo. Meu estômago revirou com as palavras dela, mas tentei disfarçar. Balancei a cabeça, fingindo que nada daquilo me abalava. Por dentro, no entanto, eu só conseguia pensar na forma como ele me olhou antes de sair — como se já me odiasse, ou como se tivesse decidido que eu não deveria estar ali. A única pergunta que martelava na minha mente era: por que logo eu? (...) O sol já começava a invadir o quarto quando senti um peso pequeno sobre minha barriga. Abri os olhos devagar, ainda sonolenta, e dei de cara com aqueles olhinhos castanhos me encarando com um sorrisinho sapeca. Lucas: Bom dia, mamãe — disse baixinho, com aquela voz arrastada de quem também acabava de acordar. Sorri, mesmo cansada. Ele sempre dava um jeito de transformar qualquer manhã em algo bom. Luana: Bom dia, meu amor — murmurei, passando a mão nos cabelos bagunçados dele. Ele se aninhou mais em mim, e ficamos alguns minutos ali, só aproveitando o silêncio do quarto. Até que senti ele inquieto, querendo brincar, querendo se mexer. Luana: Vamos tomar banho, então? — falei, me sentando na cama. Ele assentiu animado, e eu o peguei no colo. O banheiro era simples, mas pelo menos tinha água quente naquela manhã fria. Coloquei ele de pé no box e comecei a tirar a roupinha, enquanto ele já se divertia batendo as mãos na água. Luana: Fica quietinho, hein, Lucas! — tentei não rir quando ele começou a espirrar água em mim. Lucas: Tá bom, mamãe. Mas eu sabia que não tava “bom” coisa nenhuma. A qualquer momento ele ia inventar outra arte. Mesmo assim, dei banho nele com carinho, esfregando cada cantinho, deixando-o cheiroso e limpinho. Depois enrolei ele na toalha e o levei pro quarto para trocar de roupa. Ele escolheu uma camiseta de super-herói, um calção e a sandália que Camila tinha dado. Quando ele ficou pronto, foi minha vez. Tomei um banho rápido, coloquei um vestidinho simples com um casaquinho por cima e prendi o cabelo num coque improvisado. Ainda cansada, mas pelo menos apresentável. Quando descemos, o cheiro de café já tomava a cozinha. Camila estava sentada à mesa, mexendo no celular enquanto tomava um gole de café preto. Camila: Bom dia, dorminhoca — disse sem levantar os olhos do celular. Luana: Bom dia. Ele que me acordou hoje — falei, indicando Lucas. Camila soltou uma risadinha, como quem já esperava. Camila: Ele é uma figurinha mesmo. Olhou para Lucas com carinho, enquanto ele atacava um pedaço de bolo de fubá. Peguei uma xícara de café e aproveitei um pouco da leveza daquela manhã. Até que Camila largou o celular e me observou por alguns segundos. Camila: E aí? Dormiu bem depois de ontem? Minha expressão endureceu. Lembrei do olhar de gelo dele, do peso daquela presença que parecia grande demais pra aquela casa — e pra aquele morro. Luana: Não sei. É como se eu tivesse feito algo errado só por estar aqui. Camila apoiou a mão na minha. Camila: Você não fez nada. Ele é assim mesmo. Só não bate de frente, tá? Vai por mim. É melhor pra você. Assenti, mesmo com o orgulho latejando dentro de mim. Eu não gostava de ser tratada como problema só por existir. Lucas me cutucou pedindo mais bolo. Sorri e peguei outro pedaço pra ele. Enquanto servia, a pergunta voltou a me atravessar: Será que todo dia daqui pra frente vai ser assim? Vivendo sob o olhar de alguém que já decidiu me odiar? Porque uma coisa eu sabia: eu não ia baixar a cabeça pra ele tão fácil. E assim, naquela manhã, em meio ao cheiro de café e uma conversa leve, um novo desafio se desenhava na minha mente. Ele podia ser o dono do morro. Mas da minha vida, quem mandava era eu.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD