cap 01 mudança
Luna
Acordo bem cedinho porque hoje seria um dia de mudança. Vamos sair do asfalto para a favela — uma mudança bem radical, mas sinceramente não estou nem animada nem triste. Sei que lá não é nada do que estou acostumada aqui, mas não posso fazer muita coisa: só aceitar mesmo.
Não me incomoda ir morar em um morro; a única coisa que me incomoda é que provavelmente seja bem mais difícil lá...
Bom, meus pais perderam o emprego e, como morávamos de aluguel e não tínhamos dinheiro para pagar, até tentei conseguir o dinheiro com muito esforço (não tenho trabalho físico; trabalho como "modelo" para algumas lojas). No final, tivemos que mudar para a antiga casa dos meus avós.
Termino de colocar a última caixa no caminhão e, então, ele vai embora — com um grande suspiro meu. Olho para a casa, me despedindo dela pela última vez, e deixo uma lágrima cair: vou sentir muita saudade daqui.
Diana: — Vamos, princesa — fala, e então entro no carro. Meu pai liga o motor, indo a caminho da nova casa. — Não precisa ficar assim, filha. Lá não é tão r**m assim...
Meus pais moravam lá a bastante tempo atrás. Eu vim para cá ainda novinha, acho que com três anos mais ou menos. Eles contam que aconteceram coisas que fizeram eles pensarem melhor e saírem de lá, para me proteger — nunca soube de mais nada.
Pedro: — Fala, menor! — fala com um garoto que estava na entrada. O menino se aproxima e abre um sorriso.
— Abre aí, é o foguete! — fala, abrindo passagem para o meu pai passar com o carro.
Franzo a testa, tentando entender: quem é "foguete"?
Subimos o morro e eu olhava tudo pelas janelas, bem atenta. Era tudo muito simples, mas muito bonito. As crianças brincando na rua eram o charme; a única coisa estranha eram alguns homens e até mulheres com armas ou vendendo — acho que drogas — em alguns lugares. Aliviei-me ao ver que não estavam perto das crianças fazendo isso.
Paramos em frente a uma casa cor nude com um portão branco. Minha mãe desceu e abriu o portão, então entramos na garagem. Dentro, ela era espaçosa, com paredes, porta e janelas cor verde-água e madeira escura — uma gracinha.
Saímos do carro e entramos em casa. Vejo que já tinha alguns móveis e senti uma sensação estranha, como se já estivesse lá antes, mas logo passou.
Diana: — Filha, tá tudo bem? — pergunta preocupada.
Luna: — Sim, mãe. — sorrio.
Pedro: — Eu vou sair para resolver as coisas sobre a entrada do caminhão. — fala, me dá um beijo na testa e outro na minha mãe, depois sai.
Estou achando o papai estranho... Mas deve ser o estresse da mudança.
Diana: — Vai lá olhar o seu quarto. Eu vim cedo e já coloquei algumas coisas; os móveis já estão lá. Se quiser trocar alguma coisa de lugar, fala. — me dá um beijo na bochecha. Eu subo murmurando um "tá".
Vejo uma porta branca com florzinhas rosas e lilás e sorrio, caminhando até ela. De repente, uma imagem surge na minha cabeça como um flashback daquela porta. Fecho os olhos com força, respiro fundo e entro. O quarto está todo branco, com uma parede de glitter rosa, minha cama, o guarda-roupas e uma penteadeira. Deito na cama e ligo o celular, vendo mensagens da Clarice.
Mensagem on
"Clarice: oi boa tarde miga!"
"Luna: boa tarde flor, como você está?"
"Clarice: bem e você?"
"Luna: cansada mas bem!"
"Clarice: não sei como você ficou tão tranquila com a ideia de morar nesse lugar!"
"Clarice: eu nunca moraria aí!"
"Luna: não entendi o que você tá querendo dizer com isso, eu gostei daqui."
"Luna: aqui é bonito e superou as minhas expectativas. E quer um conselho, amiga? Nunca fale 'nunca' para uma coisa como essa, ainda mais quando os seus pais estão na beira da falência!"
Mensagem off
Desliguei o celular e respirei fundo. Eu gosto muito da Clarice, mas às vezes ela é um pouco s*******o, juro.
Eu facilmente me estresso — até tento controlar, mas quando falam de algo que me toca, não consigo ficar calada e termino falando coisas que podem até machucar alguém.
Ouço uma notificação e ligo o celular: era da minha mãe perguntando se eu estava com fome. Eu respondi que sim, e ela disse para eu tomar banho e me trocar. Ela sempre manda mensagem pois, diz ela, quando grita ninguém escuta — então prefere mandar no celular para que eu e o meu pai vejamos.
Abro uma caixa que estava no chão e vejo algumas roupas nela. Escolho uma e pego alguns produtos de higiene pessoal. Vou ao banheiro e tomo um banho sem molhar o cabelo, já que o lavei ontem.