O dia amanheceu cinza, pesado, como se o próprio céu tivesse pena de olhar para aquela casa.
Laura acordou com o barulho da chuva batendo nas telhas de zinco e o estômago roncando. Virou-se para o lado e viu Lucas e Beatriz dormindo juntos, os corpos pequenos cobertos até o queixo.
Era a terceira manhã sem pão.
A panela no fogão estava vazia.
Abriu o armário: nada. Apenas um restinho de arroz cru no fundo de um pote rachado.
Suspirou.
Sentiu o gosto amargo da impotência subir pela garganta.
Pegou um copo de água e bebeu devagar, tentando enganar a fome.
“É só mais um dia”, pensou. “Só mais um.”
As lembranças dos tempos em que a mãe ainda estava ali voltaram como fantasmas.
Lembrou do cheiro do café, do riso dela, das canções desafinadas enquanto cozinhava.
E lembrou do primeiro dia em que percebeu que aquilo tudo tinha acabado.
Foi numa manhã igual àquela.
Ela tinha ido até a padaria pedir fiado, mas o padeiro balançou a cabeça.
— Não dá mais, Laurinha. Tua mãe já deve demais.
— Mas é só um pão, moço… meus irmãos tão com fome.
— Sinto muito, menina.
Saiu de lá com os olhos ardendo. E quando chegou em casa, viu os dois esperando à mesa, os pratos vazios, os olhares famintos.
Aquilo partiu algo dentro dela — algo que nunca mais voltou ao lugar.
Naquela manhã, quatro anos depois, a cena se repetia.
A mesa continuava simples, o silêncio o mesmo.
Beatriz acordou e veio correndo abraçar a irmã.
— Mana, tem café hoje?
Laura respirou fundo antes de responder.
— Ainda não, pequena. Mas vou dar um jeito.
— Posso ir contigo?
— Não. Você fica com o Lucas, tá?
Beatriz assentiu devagar, tentando esconder a tristeza.
Laura beijou a testa dela e pegou o guarda-chuva quebrado que usava desde sempre.
As ruas estavam cheias de poças. O cheiro de barro misturado à fumaça dos carros fazia os olhos arderem.
Laura andava sem destino, procurando algo que não sabia o que era — talvez uma oportunidade, talvez um milagre.
Bateu em várias portas pedindo serviço: lavar roupa, passar, limpar.
As respostas eram sempre as mesmas.
— Já tenho gente.
— Volta outro dia.
— Você é muito nova.
Nova demais pra trabalhar, velha demais pra pedir ajuda.
Era assim que o mundo a via.
Parou num pequeno armazém e ofereceu ajuda para descarregar as caixas.
O dono, um homem gordo e suado, a olhou de cima a baixo.
— Quer ganhar um troco, é?
— Sim, senhor.
— Então vem aqui nos fundos, que eu te explico como é.
O tom da voz dele fez o estômago dela se revirar.
Deu dois passos pra trás.
— Melhor não. Obrigada.
— Você que perde, menina — disse ele, rindo.
Laura saiu dali com o coração acelerado.
O medo, o mesmo de sempre, grudava na pele como chuva fria.
Quando voltou pra casa, Lucas estava sentado no batente da porta, olhando pro nada.
— Conseguiu? — perguntou, sem esperança.
Ela apenas balançou a cabeça.
— Amanhã talvez.
— Amanhã sempre.
A voz dele era dura, diferente.
A infância estava indo embora rápido demais.
Beatriz veio correndo, com um papel nas mãos.
— Olha, mana! Fiz um desenho da gente!
Laura sorriu e pegou o papel.
Eram três bonecos de mãos dadas, com um sol enorme em cima.
— Tá lindo, meu amor.
— Tô com fome.
— Eu sei. — respondeu, engolindo o choro. — Eu sei.
À tarde, Laura foi até a feira. O cheiro de frutas e temperos misturava-se ao barulho das vozes.
Esperou o movimento diminuir e começou a catar as sobras que caíam das bancas.
Bananas amassadas, tomates quase podres, pão velho.
Alguns feirantes fingiam não ver. Outros olhavam com desprezo.
Um deles, mais velho, disse:
— Menina, leva isso aqui. — e entregou uma sacola de batatas pequenas.
Ela sorriu com os olhos marejados.
— Obrigada, moço.
— Só promete que vai cozinhar tudo. Não deixa estragar.
— Eu prometo.
E naquele instante, um gesto simples devolveu a ela um pouco de fé na humanidade.
De volta em casa, acendeu o fogão com um fósforo emprestado e fez um ensopado ralo.
O cheiro invadiu a casa.
Beatriz bateu palmas de alegria.
Lucas fingiu desinteresse, mas o olhar denunciava a fome.
Três pratos foram postos à mesa.
Três colheres batendo no fundo da panela.
O ensopado não era muito, mas era o suficiente para calar os estômagos por uma noite.
Enquanto comiam, Laura observava os dois em silêncio.
Pensou em como a vida podia ser c***l com quem só queria viver em paz.
Mas também pensou em como ainda havia beleza naquelas pequenas vitórias — um prato cheio, um sorriso infantil, um pouco de calor.
Depois do jantar, lavou a louça e sentou-se à janela, olhando a chuva.
Pegou o diário e escreveu:
“Hoje, o jantar foi feito de sobras, mas teve gosto de vitória.
Não sei até quando vou aguentar.
Mas sei que não posso parar.
Porque eles têm fome, e eu tenho medo.
E entre a fome e o medo, eu sempre escolho continuar.”
Fechou o caderno e encostou a cabeça na parede.
O vento frio entrava, mas ela já não sentia tanto.
O corpo acostuma à dor. O coração, nem sempre.
Na manhã seguinte, bateu à porta da igreja do bairro.
O padre era um homem simples, com olhos bondosos.
— O que deseja, filha?
— Qualquer trabalho. Qualquer coisa.
Ele a olhou com atenção.
— Quantos anos você tem?
— Dezessete.
— E mora sozinha?
— Com meus irmãos.
O padre pensou por um instante.
— Preciso de alguém pra limpar o salão. Pago pouco, mas pago certo.
Os olhos de Laura se iluminaram.
— Eu aceito!
Trabalhou o dia todo esfregando o chão, lavando bancos, varrendo folhas.
Quando recebeu o dinheiro, correu direto à mercearia e comprou arroz, feijão e sabão.
Foi a primeira vez, em muito tempo, que sentiu orgulho de si.
Mas a alegria durou pouco.
No final da semana, o padre foi transferido e o novo responsável dispensou todos os ajudantes.
— Não precisamos de ninguém agora, moça.
De volta ao ponto zero.
De novo, três pratos vazios.
De novo, o medo voltando a sussurrar.
Foi nessa época que conheceu Mônica — uma mulher que parecia mais velha do que era, sempre maquiada e com um olhar que misturava tristeza e força.
Laura a via passando pela rua em roupas bonitas, sempre com dinheiro na bolsa.
Um dia, tomou coragem e perguntou:
— Você trabalha onde?
Mônica olhou pra ela por um tempo antes de responder:
— Onde ninguém quer estar, mas muita gente paga pra ir.
Laura não entendeu de imediato.
Mas Mônica estendeu a mão.
— Se um dia não tiver escolha, me procura. Eu te ensino a sobreviver.
Aquelas palavras ficaram martelando na cabeça dela por dias.
Até que a fome, a febre de Beatriz e o desespero gritaram mais alto.
E Laura entendeu o que Mônica quis dizer.
Mas antes de cruzar aquela linha, ainda houve uma última tentativa de esperança.
Ela foi à prefeitura, pedir ajuda.
Esperou na fila por horas.
Quando finalmente entrou, um funcionário a atendeu com impaciência.
— Nome?
— Laura Moretti.
— Idade?
— Dezessete.
— Trabalha?
— Faço b***s.
— Filhos?
— Não, mas tenho dois irmãos pequenos.
O homem folheou alguns papéis.
— Sem endereço fixo, sem registro, sem CPF… não tem como colocar no programa.
— Mas eu só quero comida!
— Desculpe, moça. Próximo!
Ela ficou parada, sem acreditar.
Saiu da sala e desabou no corredor, o choro vindo de dentro da alma.
Naquele dia, entendeu que o Estado também vira o rosto diante dos invisíveis.
À noite, voltou pra casa arrasada.
Lucas dormia. Beatriz tossia.
Ela sentou-se no chão, as mãos cobrindo o rosto.
A cabeça latejava.
O corpo tremia.
Pegou o caderno e escreveu:
“Hoje aprendi que ninguém vai vir me salvar.
Se eu quiser viver, vou ter que me perder um pouco primeiro.”
E então, com o coração quebrado, entendeu o que Mônica quis dizer.
O desespero não grita — ele sussurra.
E naquele sussurro, a primeira noite do inferno começou a se desenhar.
De madrugada, o barulho da chuva voltou.
Laura se levantou e olhou os irmãos dormindo.
Beatriz abraçava um travesseiro como se fosse a mãe.
Lucas murmurava o nome dela entre os sonhos.
Laura sentou-se ao lado deles, acariciou seus cabelos e sussurrou:
— Eu prometo… nunca vão passar fome de novo.
Lá fora, o trovão respondeu como um presságio.
O mundo parecia estar prestes a engoli-la.
Mas, no fundo, uma parte dela já sabia:
para manter três pratos cheios, ela teria que esvaziar o próprio coração.
E assim, entre o amor e a miséria, nasceu a mulher que o tempo chamaria de prostituta — e que o destino um dia chamaria de sobrevivente.