Três Pratos Vazios

1491 Words
O dia amanheceu cinza, pesado, como se o próprio céu tivesse pena de olhar para aquela casa. Laura acordou com o barulho da chuva batendo nas telhas de zinco e o estômago roncando. Virou-se para o lado e viu Lucas e Beatriz dormindo juntos, os corpos pequenos cobertos até o queixo. Era a terceira manhã sem pão. A panela no fogão estava vazia. Abriu o armário: nada. Apenas um restinho de arroz cru no fundo de um pote rachado. Suspirou. Sentiu o gosto amargo da impotência subir pela garganta. Pegou um copo de água e bebeu devagar, tentando enganar a fome. “É só mais um dia”, pensou. “Só mais um.” As lembranças dos tempos em que a mãe ainda estava ali voltaram como fantasmas. Lembrou do cheiro do café, do riso dela, das canções desafinadas enquanto cozinhava. E lembrou do primeiro dia em que percebeu que aquilo tudo tinha acabado. Foi numa manhã igual àquela. Ela tinha ido até a padaria pedir fiado, mas o padeiro balançou a cabeça. — Não dá mais, Laurinha. Tua mãe já deve demais. — Mas é só um pão, moço… meus irmãos tão com fome. — Sinto muito, menina. Saiu de lá com os olhos ardendo. E quando chegou em casa, viu os dois esperando à mesa, os pratos vazios, os olhares famintos. Aquilo partiu algo dentro dela — algo que nunca mais voltou ao lugar. Naquela manhã, quatro anos depois, a cena se repetia. A mesa continuava simples, o silêncio o mesmo. Beatriz acordou e veio correndo abraçar a irmã. — Mana, tem café hoje? Laura respirou fundo antes de responder. — Ainda não, pequena. Mas vou dar um jeito. — Posso ir contigo? — Não. Você fica com o Lucas, tá? Beatriz assentiu devagar, tentando esconder a tristeza. Laura beijou a testa dela e pegou o guarda-chuva quebrado que usava desde sempre. As ruas estavam cheias de poças. O cheiro de barro misturado à fumaça dos carros fazia os olhos arderem. Laura andava sem destino, procurando algo que não sabia o que era — talvez uma oportunidade, talvez um milagre. Bateu em várias portas pedindo serviço: lavar roupa, passar, limpar. As respostas eram sempre as mesmas. — Já tenho gente. — Volta outro dia. — Você é muito nova. Nova demais pra trabalhar, velha demais pra pedir ajuda. Era assim que o mundo a via. Parou num pequeno armazém e ofereceu ajuda para descarregar as caixas. O dono, um homem gordo e suado, a olhou de cima a baixo. — Quer ganhar um troco, é? — Sim, senhor. — Então vem aqui nos fundos, que eu te explico como é. O tom da voz dele fez o estômago dela se revirar. Deu dois passos pra trás. — Melhor não. Obrigada. — Você que perde, menina — disse ele, rindo. Laura saiu dali com o coração acelerado. O medo, o mesmo de sempre, grudava na pele como chuva fria. Quando voltou pra casa, Lucas estava sentado no batente da porta, olhando pro nada. — Conseguiu? — perguntou, sem esperança. Ela apenas balançou a cabeça. — Amanhã talvez. — Amanhã sempre. A voz dele era dura, diferente. A infância estava indo embora rápido demais. Beatriz veio correndo, com um papel nas mãos. — Olha, mana! Fiz um desenho da gente! Laura sorriu e pegou o papel. Eram três bonecos de mãos dadas, com um sol enorme em cima. — Tá lindo, meu amor. — Tô com fome. — Eu sei. — respondeu, engolindo o choro. — Eu sei. À tarde, Laura foi até a feira. O cheiro de frutas e temperos misturava-se ao barulho das vozes. Esperou o movimento diminuir e começou a catar as sobras que caíam das bancas. Bananas amassadas, tomates quase podres, pão velho. Alguns feirantes fingiam não ver. Outros olhavam com desprezo. Um deles, mais velho, disse: — Menina, leva isso aqui. — e entregou uma sacola de batatas pequenas. Ela sorriu com os olhos marejados. — Obrigada, moço. — Só promete que vai cozinhar tudo. Não deixa estragar. — Eu prometo. E naquele instante, um gesto simples devolveu a ela um pouco de fé na humanidade. De volta em casa, acendeu o fogão com um fósforo emprestado e fez um ensopado ralo. O cheiro invadiu a casa. Beatriz bateu palmas de alegria. Lucas fingiu desinteresse, mas o olhar denunciava a fome. Três pratos foram postos à mesa. Três colheres batendo no fundo da panela. O ensopado não era muito, mas era o suficiente para calar os estômagos por uma noite. Enquanto comiam, Laura observava os dois em silêncio. Pensou em como a vida podia ser c***l com quem só queria viver em paz. Mas também pensou em como ainda havia beleza naquelas pequenas vitórias — um prato cheio, um sorriso infantil, um pouco de calor. Depois do jantar, lavou a louça e sentou-se à janela, olhando a chuva. Pegou o diário e escreveu: “Hoje, o jantar foi feito de sobras, mas teve gosto de vitória. Não sei até quando vou aguentar. Mas sei que não posso parar. Porque eles têm fome, e eu tenho medo. E entre a fome e o medo, eu sempre escolho continuar.” Fechou o caderno e encostou a cabeça na parede. O vento frio entrava, mas ela já não sentia tanto. O corpo acostuma à dor. O coração, nem sempre. Na manhã seguinte, bateu à porta da igreja do bairro. O padre era um homem simples, com olhos bondosos. — O que deseja, filha? — Qualquer trabalho. Qualquer coisa. Ele a olhou com atenção. — Quantos anos você tem? — Dezessete. — E mora sozinha? — Com meus irmãos. O padre pensou por um instante. — Preciso de alguém pra limpar o salão. Pago pouco, mas pago certo. Os olhos de Laura se iluminaram. — Eu aceito! Trabalhou o dia todo esfregando o chão, lavando bancos, varrendo folhas. Quando recebeu o dinheiro, correu direto à mercearia e comprou arroz, feijão e sabão. Foi a primeira vez, em muito tempo, que sentiu orgulho de si. Mas a alegria durou pouco. No final da semana, o padre foi transferido e o novo responsável dispensou todos os ajudantes. — Não precisamos de ninguém agora, moça. De volta ao ponto zero. De novo, três pratos vazios. De novo, o medo voltando a sussurrar. Foi nessa época que conheceu Mônica — uma mulher que parecia mais velha do que era, sempre maquiada e com um olhar que misturava tristeza e força. Laura a via passando pela rua em roupas bonitas, sempre com dinheiro na bolsa. Um dia, tomou coragem e perguntou: — Você trabalha onde? Mônica olhou pra ela por um tempo antes de responder: — Onde ninguém quer estar, mas muita gente paga pra ir. Laura não entendeu de imediato. Mas Mônica estendeu a mão. — Se um dia não tiver escolha, me procura. Eu te ensino a sobreviver. Aquelas palavras ficaram martelando na cabeça dela por dias. Até que a fome, a febre de Beatriz e o desespero gritaram mais alto. E Laura entendeu o que Mônica quis dizer. Mas antes de cruzar aquela linha, ainda houve uma última tentativa de esperança. Ela foi à prefeitura, pedir ajuda. Esperou na fila por horas. Quando finalmente entrou, um funcionário a atendeu com impaciência. — Nome? — Laura Moretti. — Idade? — Dezessete. — Trabalha? — Faço b***s. — Filhos? — Não, mas tenho dois irmãos pequenos. O homem folheou alguns papéis. — Sem endereço fixo, sem registro, sem CPF… não tem como colocar no programa. — Mas eu só quero comida! — Desculpe, moça. Próximo! Ela ficou parada, sem acreditar. Saiu da sala e desabou no corredor, o choro vindo de dentro da alma. Naquele dia, entendeu que o Estado também vira o rosto diante dos invisíveis. À noite, voltou pra casa arrasada. Lucas dormia. Beatriz tossia. Ela sentou-se no chão, as mãos cobrindo o rosto. A cabeça latejava. O corpo tremia. Pegou o caderno e escreveu: “Hoje aprendi que ninguém vai vir me salvar. Se eu quiser viver, vou ter que me perder um pouco primeiro.” E então, com o coração quebrado, entendeu o que Mônica quis dizer. O desespero não grita — ele sussurra. E naquele sussurro, a primeira noite do inferno começou a se desenhar. De madrugada, o barulho da chuva voltou. Laura se levantou e olhou os irmãos dormindo. Beatriz abraçava um travesseiro como se fosse a mãe. Lucas murmurava o nome dela entre os sonhos. Laura sentou-se ao lado deles, acariciou seus cabelos e sussurrou: — Eu prometo… nunca vão passar fome de novo. Lá fora, o trovão respondeu como um presságio. O mundo parecia estar prestes a engoli-la. Mas, no fundo, uma parte dela já sabia: para manter três pratos cheios, ela teria que esvaziar o próprio coração. E assim, entre o amor e a miséria, nasceu a mulher que o tempo chamaria de prostituta — e que o destino um dia chamaria de sobrevivente.
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