A noite estava abafada. O vento quente carregava o cheiro de gasolina, cigarro e chuva que prometia cair. Laura estava parada no ponto há mais de uma hora. O salto apertava os pés, o batom já começava a borrar, e a mente vagava para longe dali. Pensava em Beatriz dormindo, em Lucas estudando, em tudo o que ainda precisava pagar. E, principalmente, pensava em quando tudo aquilo terminaria. As luzes dos carros passavam devagar, cortando a escuridão como facas de luz. Alguns paravam. Outros buzinavam. Ela já sabia quem iria negociar e quem só queria zombar. Aprendera a identificar o tipo de homem pelo modo como olhava. Mas naquela noite, algo parecia diferente. Talvez o silêncio que vinha de dentro dela, talvez o cansaço. Ou talvez fosse apenas o destino se aproximando sem aviso.

