Todo mundo gosta de brincar, pelo menos quando somos crianças. Nessa fase da vida, o importante é curtir o jogo apenas.
Não importa quem ganha ou perde e todos riem igualmente. Aí a gente cresce e eles nos ensinam que você tem que vencer.
É aí que a diversão termina. Só a vitória importa e esquecemos o prazer do jogo. Jogar para jogar. Aproveite para curtir.
Achei que não gostava de jogar. Eu odiava a incerteza de não ser capaz de discernir o resultado ou ser incapaz de manter na minha mente todas as regras que poderiam me levar à derrota. Se fosse algo mais complexo que o ludo, eu dispensava.
Nunca joguei porque não confiava na sorte.
Na minha sorte. Não sou uma mulher de sorte nem no jogo nem no amor.
Isso ficou claro para mim quando Jonas me deixou após oito anos de relacionamento. Estávamos até morando juntos!
Da noite para o dia, ele não queria mais nada comigo.
Oito anos. Droga.
E lá me vi, sem amigos, sem namorado e com uma casa enorme só para mim. Ele saiu e não sei se com outro ou o quê.
Ele não me deu explicações e eu não as pedi. Eu só conseguia chorar. Até tirei férias do trabalho para poder passar três semanas em casa. A única coisa boa é que recuperei a minha amizade com Sofía, minha amiga do colégio.
Eu nem sabia que ela estava me seguindo online, mas devo ter sido tão clara, insinuando que estava sozinha, que ela me escreveu dois dias depois.
Eu a afastei algumas vezes, mas ela me conhecia bem. Acho que ela é a única pessoa que realmente me conhece em toda a minha vida. No final, um pequeno telefonema que durou quase quatro horas e no dia seguinte ela estava morando comigo e pagando metade da hipoteca como se fosse aluguel. E me consolando, é claro. E aguentando os meus ataques de histerismo.
E chorando. E todo o resto.
Quando as férias acabaram, eu já me sentia forte o suficiente para ir sentar na minha cadeira, colocar os meus fones de ouvido e voltar a ser a garota do lindo sorriso atendendo clientes irritados com a internet falhando. Tudo graças a Sofia. Minha Sofia.
Aos poucos, fui me adaptando à nova rotina. Me levantando na mesma hora, me vestindo, coloque um r**o de cavalo alto e pegando o mesmo metrô.
Cada manhã. Sem correr. Eu tinha tudo cronometrado para não me dar tempo para pensar. Ou estar errada.
Como todos os dias, eu parava de atender ligações às 17h50 para ter tempo de preencher o relatório diário, deixando ele na mesa do gerente. Para estar na plataforma esperando o metrô das 18h14. Como todo dia. Senti uma espécie de satisfação em poder fazer isso repetidas vezes sem nunca falhar.
Como todos os dias também, eu estava no vagão central. No portão central. Não ten um m*aldito assento livre, é claro.
Como todo dia.
Me encostei na porta do lado oposto e verifiquei as minhas redes sociais enquanto o metrô se enchia de gente. Como todo dia. Tudo era o mesmo.
Então eu senti algo diferente. Um cheiro. Cheirava a grama recém-cortada.
Se você já esteve no metrô, sabe que não é o que geralmente cheira.
Afastei-me do telefone e olhei para cima para ver um homem vestido como um executivo com uma maleta na mão. O homem era assustador, honestamente.
Ele se aproximou de mim para abrir espaço para os novos viajantes. O cheiro vinha dele. Bem, eu acreditava que vinha dele.
Estava a meio metro do meu rosto e as minhas narinas estremeceram quando inalei. Eu disse a mim mesma que eu não fazia se*xo há muito tempo, e isso estava me deixando louca. Porque eu ficava apertando as coxas quando sentia o cheiro dele.
E ao olhar para ele. Oh, Deus! Era como queijo. Eu sei que é estranho, mais queijo parece muito bom para mim.
Quanto mais pessoas entravam, mais perto ele ficava. Até que ele estava um palmo apenas de mim. Eu olhei para cima e os seus olhos estavam fixos em mim. Eu congelei por alguns segundos sentindo a minha boca como se estivesse cheia de água quente.
Então eu corei e voltei a olhar de volta para o meu telefone. Uma nova parada e mais gente.
Gente que empurrou e quase jogou ele contra mim. Felizmente, ele conseguiu colocar a mão livre na porta para não me esmagar, mas nossos corpos estavam grudados. Atrás, a porta do metrô. À frente, ele e o seu cheiro. O meu nariz estava na altura do pescoço dele, e o cheiro era claro e forte. Sem suor, sem tabaco. Apenas cheiro de grama.
Eu não poderia ter me movido se quisesse, mas não queria. Com os balanços, o seu corpo roçava no meu e, quando voltei a olhar para cima, vi que ela ainda me observava atentamente. Com ansiedade. Com fome.
Senti a sua ereção na minha barriga e, ao invés de ficar com raiva, fiquei excitada.
Em vez de deixar escapar alguma grosseria, suspirei. Ele suspirou também, mas de uma forma muito mais rouca, e eu senti a umidade se acumular de repente entre as minhas pernas. Muito tempo sem s*exo. Tinha que ser isso.
Enterrei o meu rosto no seu peito para sentir mais de perto seu cheiro e o seu calor. Eu estava fora de mim e não queria voltar para dentro.
O número de viajantes deve ter diminuído, porque não estava mais tão lotado. Eu, no entanto, apertei com os olhos fechados. Ele também estava animado. Eu sabia disso de boa autoridade porque a sua virilha inchou muito contra a minha barriga. Eu balancei de um lado para o outro suavemente e aquilo foi ficando ainda maior. Então, bem nessa hora, o nome da minha parada soou no alto-falante. Não vou mentir para vocês.
Até passou pela minha cabeça ignorá-la e descer na mesma estação que ele, mas um vislumbre de sanidade voltou para mim e murmurei “com licença” antes de contorná-lo para ficar mais perto da porta. Eu estava prestes a apertar o botão quando senti alguém me agarrar pelo braço.
Eu me virei e o vi me agarrando com uma cara triste. Ele me entregou um cartão e eu peguei sem hesitar para sair do metrô antes que as portas fechassem e eu morresse de vergonha.
Eu não olhei para ela até que eu estava na plataforma.