O carro entrou pelos portões como se estivesse atravessando outro mundo.
Eduardo ainda estava em silêncio, olhando pela janela com a sensação de que tinha sido puxado para dentro de um sonho pesado demais para ser real. Um sonho caro. Grande. Assustador.
À medida que avançavam pela avenida interna, ele começou a ver.
Carros de luxo alinhados como se fossem comuns.
Mais de dez.
Seguranças nas laterais, postura rígida, atenção constante.
Jardins bem cuidados, fontes, iluminação discreta e elegante. Nada ali parecia “casa”. Parecia território.
O carro parou.
Uma governanta abriu a porta antes mesmo que alguém pedisse.
— Senhora — disse ela com respeito imediato. — Bem-vinda.
Eduardo desceu devagar, ainda tentando entender onde estava colocando os pés.
Quando olhou ao redor, sentiu o impacto total.
Aquilo não era uma casa.
Era uma propriedade.
E então ela apareceu.
— Olivia? — uma voz feminina ecoou.
Uma mulher mais jovem, elegante, postura forte, mas com um olhar curioso e protetor.
Ela desceu alguns degraus da entrada principal e parou ao ver Eduardo.
— Lua… — ela estreitou os olhos. — Você chegou… e quem é esse?
Lua nem hesitou.
— Oi, irmãzinha — disse com calma. — Conheça seu cunhado.
O silêncio caiu como pedra.
— O QUÊ? — Olivia travou. — Você ficou maluca, Lua?
Eduardo deu um passo para trás.
— Eu… eu não… acho que houve um engano…
Olivia já estava pronta para avançar na discussão quando Lua ergueu a mão.
— Baixa o tom — disse firme.
A frase não era grito.
Mas tinha peso suficiente para cortar qualquer interrupção.
Olivia respirou fundo, mas obedeceu parcialmente.
— Lua… isso não é brincadeira. Quem é ele?
Eduardo engoliu seco.
— Eu sou… ninguém importante. Só… um peão de obra. Eu… não tenho nada na conta. Nada.
O silêncio ficou estranho.
Esperado talvez.
Mas não no sentido que ele imaginava.
Lua virou o rosto lentamente para ele.
E pela primeira vez desde que tudo começou, a expressão dela não era só firmeza.
Era decisão.
— Eu não quero dinheiro, Eduardo.
Ele piscou.
— Eu só quero alguém que saiba me olhar — ela continuou. — Um gesto simples. Uma pessoa que não finja.
Ela deu um passo mais perto dele.
— Você fez isso quando pegou a banana que eu deixei cair. E quando perguntou se podia comer como alguém que respeita até o pouco.
Eduardo ficou imóvel.
— Minha família já tentou me casar várias vezes — ela disse, sem olhar para Olivia. — Homens ricos. Homens “perfeitos”. Homens que me viam como um acordo.
Ela soltou o ar devagar.
— Eu cansei disso.
Olivia ficou em silêncio agora, observando diferente.
Lua voltou o olhar para Eduardo.
— Eu quero alguém que fique comigo de verdade. Não pelo que eu tenho. Nem pelo que eu posso dar.
Eduardo riu de nervoso, quase sem som.
— Você não entende… eu não sou esse tipo de homem. Eu não tenho nada.
Lua inclinou a cabeça levemente.
— Você ainda acha que isso importa aqui?
Ele ficou em silêncio.
Ela continuou, agora mais baixa, mas mais intensa:
— Se quiser continuar trabalhando na obra, você continua. Se quiser mudar, você muda. Eu tenho hotéis, restaurantes, clubes, shopping… trabalho não falta.
Eduardo piscou, tentando processar.
— Eu posso te dar uma mesada de trinta mil por mês.
Silêncio absoluto.
Até o vento pareceu parar.
— O quê…? — ele perguntou, quase sem voz.
Lua não desviou o olhar.
— Trinta mil.
Ele soltou uma risada curta, incrédula, quase quebrada.
— Isso não é normal…
— Nada na minha vida é — ela respondeu simplesmente.
Olivia cruzou os braços, ainda desconfiada, mas menos agressiva.
— Lua… você trouxe ele aqui do nada…
— Eu trouxe meu marido — Lua corrigiu, firme.
A palavra caiu de novo.
Marido.
Eduardo passou a mão no rosto, como se tentasse acordar.
— Eu… eu não sei se eu sou capaz disso… dessa vida… disso tudo…
Lua se aproximou mais um passo.
Agora a voz dela perdeu um pouco da frieza.
Não suavidade.
Mas verdade.
— Você não precisa ser capaz de tudo hoje.
Ela segurou levemente a mão dele.
— Só precisa não fugir.
Eduardo olhou para a mão dela.
Depois para a casa.
Depois para ela.
E pela primeira vez desde o mercado…
ele não tinha uma resposta pronta.
Só um caminho à frente.