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735 Words
O carro entrou pelos portões como se estivesse atravessando outro mundo. Eduardo ainda estava em silêncio, olhando pela janela com a sensação de que tinha sido puxado para dentro de um sonho pesado demais para ser real. Um sonho caro. Grande. Assustador. À medida que avançavam pela avenida interna, ele começou a ver. Carros de luxo alinhados como se fossem comuns. Mais de dez. Seguranças nas laterais, postura rígida, atenção constante. Jardins bem cuidados, fontes, iluminação discreta e elegante. Nada ali parecia “casa”. Parecia território. O carro parou. Uma governanta abriu a porta antes mesmo que alguém pedisse. — Senhora — disse ela com respeito imediato. — Bem-vinda. Eduardo desceu devagar, ainda tentando entender onde estava colocando os pés. Quando olhou ao redor, sentiu o impacto total. Aquilo não era uma casa. Era uma propriedade. E então ela apareceu. — Olivia? — uma voz feminina ecoou. Uma mulher mais jovem, elegante, postura forte, mas com um olhar curioso e protetor. Ela desceu alguns degraus da entrada principal e parou ao ver Eduardo. — Lua… — ela estreitou os olhos. — Você chegou… e quem é esse? Lua nem hesitou. — Oi, irmãzinha — disse com calma. — Conheça seu cunhado. O silêncio caiu como pedra. — O QUÊ? — Olivia travou. — Você ficou maluca, Lua? Eduardo deu um passo para trás. — Eu… eu não… acho que houve um engano… Olivia já estava pronta para avançar na discussão quando Lua ergueu a mão. — Baixa o tom — disse firme. A frase não era grito. Mas tinha peso suficiente para cortar qualquer interrupção. Olivia respirou fundo, mas obedeceu parcialmente. — Lua… isso não é brincadeira. Quem é ele? Eduardo engoliu seco. — Eu sou… ninguém importante. Só… um peão de obra. Eu… não tenho nada na conta. Nada. O silêncio ficou estranho. Esperado talvez. Mas não no sentido que ele imaginava. Lua virou o rosto lentamente para ele. E pela primeira vez desde que tudo começou, a expressão dela não era só firmeza. Era decisão. — Eu não quero dinheiro, Eduardo. Ele piscou. — Eu só quero alguém que saiba me olhar — ela continuou. — Um gesto simples. Uma pessoa que não finja. Ela deu um passo mais perto dele. — Você fez isso quando pegou a banana que eu deixei cair. E quando perguntou se podia comer como alguém que respeita até o pouco. Eduardo ficou imóvel. — Minha família já tentou me casar várias vezes — ela disse, sem olhar para Olivia. — Homens ricos. Homens “perfeitos”. Homens que me viam como um acordo. Ela soltou o ar devagar. — Eu cansei disso. Olivia ficou em silêncio agora, observando diferente. Lua voltou o olhar para Eduardo. — Eu quero alguém que fique comigo de verdade. Não pelo que eu tenho. Nem pelo que eu posso dar. Eduardo riu de nervoso, quase sem som. — Você não entende… eu não sou esse tipo de homem. Eu não tenho nada. Lua inclinou a cabeça levemente. — Você ainda acha que isso importa aqui? Ele ficou em silêncio. Ela continuou, agora mais baixa, mas mais intensa: — Se quiser continuar trabalhando na obra, você continua. Se quiser mudar, você muda. Eu tenho hotéis, restaurantes, clubes, shopping… trabalho não falta. Eduardo piscou, tentando processar. — Eu posso te dar uma mesada de trinta mil por mês. Silêncio absoluto. Até o vento pareceu parar. — O quê…? — ele perguntou, quase sem voz. Lua não desviou o olhar. — Trinta mil. Ele soltou uma risada curta, incrédula, quase quebrada. — Isso não é normal… — Nada na minha vida é — ela respondeu simplesmente. Olivia cruzou os braços, ainda desconfiada, mas menos agressiva. — Lua… você trouxe ele aqui do nada… — Eu trouxe meu marido — Lua corrigiu, firme. A palavra caiu de novo. Marido. Eduardo passou a mão no rosto, como se tentasse acordar. — Eu… eu não sei se eu sou capaz disso… dessa vida… disso tudo… Lua se aproximou mais um passo. Agora a voz dela perdeu um pouco da frieza. Não suavidade. Mas verdade. — Você não precisa ser capaz de tudo hoje. Ela segurou levemente a mão dele. — Só precisa não fugir. Eduardo olhou para a mão dela. Depois para a casa. Depois para ela. E pela primeira vez desde o mercado… ele não tinha uma resposta pronta. Só um caminho à frente.
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