Olívia ficou alguns segundos parada, encarando a irmã como se estivesse tentando decidir entre explodir ou respirar fundo.
— Lua… nós temos que conversar. Agora.
A voz dela era firme, mas tinha preocupação por trás.
Lua já estava tirando o blazer, cansada, como se o peso do dia tivesse finalmente alcançado o corpo.
— Agora não, irmã — respondeu sem olhar direito. — Eu tô cansada, preciso tomar um banho, me trocar… e eu tenho muita coisa pra conversar com o meu marido, tá?
A palavra “marido” ainda soava estranha até para Olívia.
— Lua… amanhã — insistiu Olívia, mais baixa.
— Amanhã — Lua cortou, sem abrir espaço para discussão.
Ela pegou a mão de Eduardo com naturalidade, como se aquilo fosse a coisa mais óbvia do mundo.
E ele, ainda completamente perdido, deixou ser conduzido.
O corredor até o quarto era longo, iluminado, silencioso. Quanto mais avançavam, mais Eduardo parecia perceber que estava entrando em algo que não tinha volta.
Quando a porta abriu…
ele parou.
— Meu Deus… — escapou baixo.
O quarto não parecia um quarto.
Parecia um espaço projetado para impressionar até quem já tinha visto de tudo.
Grande. Muito grande.
Uma cama king size ocupando o centro como uma peça de destaque. Espelhos por vários lados, refletindo o ambiente de formas quase hipnóticas. Um ar-condicionado silencioso mantinha tudo fresco, perfeito.
Eduardo deu um passo devagar.
— Isso… isso é real mesmo?
Lua entrou atrás dele, já mais relaxada.
— Uhum.
Ela sorriu de leve.
— Eu tenho uma fixação por espelhos.
Ele olhou ao redor, meio sem jeito.
— Tô vendo…
A penteadeira dela estava organizada, cheia de produtos caros e bem dispostos. Nada fora do lugar. Tudo com uma ordem quase estética demais.
E então ele viu.
Um closet enorme.
Sapatos organizados por tipo. Uma parede inteira só de saltos. Outra só de bolsas. Roupas perfeitamente alinhadas, como se cada peça tivesse um lugar exato no mundo.
Eduardo ficou parado na porta do closet.
— Isso aqui… é tipo um outro planeta…
Lua riu baixo.
— Você ainda não viu tudo.
Ela apontou para um canto mais afastado.
— Ali eu mandei preparar uma parte masculina.
Ele franziu o cenho.
— Masculina?
— Sim — ela respondeu, simples. — Nunca usei. Não pensa besteira.
Ela deu um sorriso leve, quase tímido.
— Eu… tava preparando isso aos poucos. Pra um dia… se eu encontrasse alguém… já estar meio caminho andado.
Ela deu de ombros.
— Bom. Agora eu encontrei.
E tocou de leve o peito dele com a ponta dos dedos.
Eduardo travou.
— Senhora… eu…
— Lua — ela corrigiu, sem firmeza agressiva, mas com naturalidade.
Ele engoliu seco.
— Tá… Lua.
Ela pegou uma camisola e caminhou em direção ao banheiro como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo.
— Vou tomar um banho. Fica à vontade.
A porta fechou.
Silêncio.
Eduardo ficou sozinho no meio daquele quarto gigante, olhando para tudo ao redor como se o mundo tivesse perdido lógica.
— Isso não pode estar acontecendo comigo… — murmurou.
O tempo passou.
O som da água do banho preenchia o ambiente de forma suave, constante, íntima demais para ele ignorar.
Quando a porta do banheiro abriu…
Lua saiu.
Cabelos pretos lisos caindo pelos ombros. Pele ainda levemente úmida. O rosto limpo, natural. Ela não parecia apenas bonita — parecia inacessível e próxima ao mesmo tempo, o que era ainda mais confuso.
Ela olhou para ele.
E sorriu.
— Estamos em lua de mel, né?
Eduardo engoliu seco.
— Ah… sim… lua de mel…
Ela se aproximou devagar.
O espaço entre os dois diminuiu até quase não existir.
E então ela o beijou.
Calmo.
Carinhoso.
Sem pressa.
Mas antes que ele pudesse reagir completamente—
TOC TOC TOC.
Lua parou no meio do movimento e fechou os olhos por um segundo, claramente irritada.
— Sério isso… — murmurou.
Ela virou o rosto, ainda perto dele.
— Quem é?
A voz do outro lado veio:
— Sou eu, Olívia. Preciso falar com você.
Lua soltou um suspiro longo.
— Agora não.
— Lua, é sério.
Ela fechou os olhos de novo.
Respirou.
E respondeu:
— Por favor, irmãzinha.
Olívia insistiu.
— Tá bom… mas eu vou esperar.
Lua voltou o olhar para Eduardo.
— Desculpa isso.
Ela deu um leve sorriso, quase divertido.
— Eu já pedi pra preparar o jantar e trazer aqui. E um filme, se quiser.
Ela pegou o controle da televisão e colocou na mão dele.
— Descansa um pouco, tá?
E saiu.
A porta fechou.
Eduardo ficou sozinho novamente.
Com o controle na mão.
Num quarto gigantesco.
Dentro de um casamento que tinha começado no caos…
e ainda não fazia o menor sentido na cabeça dele.