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Capítulo 1 — Cecília narrando
Eu já sabia de cor a ordem das manhãs porque, no fundo, elas não eram exatamente minhas: pertenciam ao relógio do forno, ao estouro lento do timer, ao cheiro que subia e tomava a cozinha pela manhã como se fosse oração. Levanto antes do sol, porque o mundo das massas exige disciplina e porque, quando as coisas apertam, é no silêncio das primeiras horas que se costura o que pode salvar alguém. Saco a massa, limpo a mesa com a lâmina do espátula, conto as colheres de açúcar e volto a pensar na receita da vovó como se ela fosse um mapa. Pondero sal, manteiga, aquela pitada de baunilha que sempre achava que fazia os clientes sorrirem de volta.
O avental pesa tanto quanto as dívidas não declaradas: tecido cinzento, o bolso gasto onde guardo a foto do Teo. Ele cabe certinho ali, dobrada em duas, a imagem do meu irmão com o pijama listrado que insiste em usar até quando vê desenho na televisão. Puxo a foto como quem verifica um bilhete de sorte. Teo, olhos grandes demais para a idade, boca levemente torta num sorriso que ilumina a sala do hospital quando me reconhece. Ele é a razão de eu decorar cifras e promessas que não me pertencem. Ele é o motivo por que aprendi a medir coragem em xícaras e a dividir um pouco de orgulho com uma fatia de pagamento.
Marco já está lá, como sempre, mexendo a calda com a calma de quem faz aquilo há décadas. Quando o vejo meu corpo desvia um pouco — ele é a âncora técnica do meu ofício. Velho suficiente para rir da minha pressa e paciente o bastante para me ensinar que o ponto da ganache não se apressa. “Cê tá que nem vela acesa, Cecília. Vai fritar, não derreter”, ele diz, e eu retribuo com um sorriso que é metade cansaço e metade vontade de acreditar que, daquela vez, vai dar certo.
Lucia aparece com o avental amarrado diferente, as mãos já com cheiro de café e abraço. Ela é dona da confeitaria e, de certa forma, da minha família quando a minha família precisa estar onde o dinheiro falta. Tem a voz firme que corrige com carinho. “Faz direito, menina. Teu irmão precisa disso.” Há um tom em suas palavras que não permite discussão, porque a gente aqui dentro sabe quais palavras curam e quais deixam cicatriz.
Rafaela não demora a aparecer. É quase um ritual: uma mensagem com um emoji de fogo, uma gargalhada pela rua, a promessa de que vai me buscar se eu desmaiar de tanto trabalho. “Hoje é dia de casamento grande, né? Vai arrasar, rainha da cobertura!” — ela escreve, e eu respondo com um emoji de coração porque quem tem amiga não teme a zoeira. Rafa é meu alívio em forma de pessoa; ela transforma as coisas graves em piadas e me dá, quando preciso, força suficiente para seguir. Entre uma vedação de massa e outra, ela manda áudios dizendo que vai escolher o vestido de emergência se eu não conseguir encontrar um que preste.
A encomenda especial me ocupa a cabeça o dia inteiro — um bolo de três andares, marfim, com rosas de açúcar tão finas que pareciam rendas. Senti o peso dele quando o embrulhei, percebi que, com aquele bolo fora, havia um pedaço de mim circulando por uma casa onde nunca fui. A cidade inteira conhece a Marchetti em sussurros: o entregador já me falou uma vez, quase de passagem, que “é para os Marchetti”. É um nome que chega carregado de história e de portas que se abrem e fecham com força.
No intervalo entre assar e decorar, abro o caderno onde escrevo as contas — papel amassado, letras tortas. O número me corta a respiração: o hospital ligou ontem e marcou nova sessão para a semana que vem. Aquele valor não é um número que se negocia com sorriso. Eu sei, por experiência, que lá não aceitam desculpas coloridas. Teo precisa dos remédios, das transfusões e das consultas. Teo precisa de tudo isso para continuar sendo Teo: com as piadas que inventa na cama do hospital, com o jeitinho que segura minha mão quando eu volto da padaria e sempre pergunta se trouxe bolo.
Enquanto coloco as últimas pétalas no bolo, sinto o telefone vibrar no balcão. Atendo com a b***a de quem está com as mãos na massa e fala com o cliente. Do outro lado, a voz do hospital: confirmando horário, lembrando o prazo de pagamento. Não dá para prolongar. Desligo e fico olhando as letras, como se o papel pudesse se encolher e fazer as cifras sumirem.
No fim da tarde, quando a porta se abre e entra o motorista oficial com o terno do serviço, eu ouço o nome que me empurra para fora da minha zona de conforto: Marchetti. A caixa branca que eu embalei com fita prateada está nas minhas mãos como se fosse uma criança — delicada, pesada e com o poder de mudar gente. Marco dá um último tapa no acabamento, me dá um sorriso de incentivo e Lucia me entrega um copo de café. “Vai com cuidado. Lembra: fala baixo, anda de cabeça erguida”, ela diz, como se eu fosse atravessar fronteiras e não apenas uma garagem com portão alto.
A viagem é curta e longa ao mesmo tempo. Os prédios ficam maiores, as ruas mais limpas, o ar mais raro. Na minha cabeça, a mansão tem todo tipo de adjetivo: luminosa, escura, severa. Chego à cozinha de serviço e sinto o ar frio e o silêncio diferente — tudo ali funciona com um ruído próprio, como se falassem em código. Um cozinheiro me direciona com a cortesia profissional, e eu finjo calma. Entrego a caixa: “Bolo para o casamento — Marchetti.” Ele aceita sem sorriso, mas com respeito medido. Sempre existe um respeito mais íntimo por quem trabalha com arte feita de açúcar. Vejo, ao longe, a silhueta de um homem que não vira o corpo ao me olhar, mas cujo perfil se destaca: a linha do queixo, um terno bem cortado, um ar de comando que eu sinto até na ponta dos dedos das minhas mãos.
Volto à rua com o coração batendo num ritmo que mistura orgulho pelo trabalho pronto e vergonha por sentir que minha vida — a vida do meu irmão — pode depender do que eu sou capaz de fazer com chocolate. No caminho de volta, a cidade parece igual, mas eu trouxe comigo a impressão de algo que não me pertence. No balcão, ajoelho meu corpo na cadeira e coloco a foto do Teo no meio da pilha de talões. Fico olhando por longos minutos, como se ela fosse um oráculo.
No fim do expediente, quando desligo a luz e me preparo para arrumar meu avental, o telefone toca de novo. É o hospital, confirmando outro procedimento: uma nova pequena cirurgia de rotina, um material que precisa ser comprado. O som do meu peito acelera enquanto eu tento calcular, mentalmente, onde arranjar a quantia. Fecho os olhos, imagino Teo risonho, imaginar é um modo de respirar fundo.
Antes que eu desligue, há um toque diferente — o número aparece como privado e uma mensagem curta: “Agradecemos a entrega. Aguardo seu contato — administração.” O recado não tem assinatura, e isso provoca mais perguntas do que respostas. Coloco a mensagem no bolso do avental, junto à foto do Teo, e penso no que seria sentar numa mesa com pessoas de gravata. A ideia me dá vertigem. Me dá medo. E também um prazo, mesmo que nenhum tenha sido dito.
Saio da loja sob o céu já róseo de fim de tarde. O calor do forno ficou na minha pele e eu sinto, por um momento, que preciso provar uma fatia do próprio bolo para ter certeza de que aquilo era real. Rafa me liga com um áudio alto e carregado de energia: “Conta tudo! Convidada de honra? Vai arrasar no salto ou vai de sapatilha?” — ela ri. Respondo com a verdade dobrada em voz baixa: “Entreguei. Eles mandaram um recado. Não sei o que é.” O som do riso dela me acalma.
No caminho de volta para a casa que dividimos, penso em como as coisas acontecem em círculos: eu bato as panelas, arrumo as formas, e o mundo continua pedindo muito mais. Chego em casa e, antes de mais nada, vou ao quarto de Teo. Ele dorme com um ursinho ao lado, respiração calma. Me inclino e beijo a testa quente — tenho a sensação de que, por tudo aquilo, estou pagando uma dívida de amor. Eu prometo, em silêncio, que vou encontrar um jeito.
Sento à mesa, abro o caderno, recontabilizo as contas e, pela primeira vez naquele dia, deixo o olhar vaguear para a imagem da mansão que eu vi da porta. O nome Marchetti reverbera como um aviso antigo. Fecho o caderno, levanto-me, e, por um instante, deixo a cozinha escura me abraçar. Amanhã, penso, será outro dia de massa. Talvez eu precise de massa para mais do que bolos — para moldar a coragem que ainda não sei se tenho.
O recado anônimo volta a ecoar na minha cabeça. Penso na caixa branca com fita, no silêncio da cozinha da mansão e no homem que ficou de perfil. Sei que há mundos onde as pessoas não se importam com a massa que você fez, e mundos onde essa mesma massa tem poder. É estranho, e é real. Ainda assim, não sei se estou pronta. Ainda.
Mas tem outra coisa que não me deixa dormir direito: a sensação de que algo — uma conversa? um convite? — poderá virar o dia ao avesso e me forçar a escolher entre o que sinto e o que devo. E quando a necessidade bate à porta, ela costuma entrar sem pedir licença.