Depois de brincarem de boneca no quarto de Amanda, Carolina e ela foram para o quintal. As duas se divertiram tanto que nem lancharam quando Teresa as chamou (Carolina nem se lembrava do suco que havia pedido).
Brincaram de pique-esconde, no playground enorme do gramado e fariam o jogo da c***a-cega com uma fita vermelha que prendia o vestido branco de Amanda quando Fernando apareceu no quintal e aproximou-se. Caminhava com os braços cruzados no alto da cabeça; no rosto, uma expressão de súplica. Carolina se sobressaltou ao vê-lo. O olhar do menino se desviou do dela e fitou o da irmã.
- O que você quer? – perguntou Amanda de má vontade
- Posso brincar?
- Não! – ela nem deu chance de Carolina abrir a boca para dizer sim – Você não me deixou brincar com seu minigame... então não brinca com a gente. Vem! – puxou a amiga para longe do irmão.
Fernando fez bico, mas se limitou a se sentar na grama e apenas observar a brincadeira das duas.
- Você vai ser a c***a, tá? – disse Amanda sem rodeios.
- Tá – concordou a moreninha
Amanda afastou as tranças de Carolina e amarrou a fita sobre seus olhos. Rodopiou a menina e, em seguida, afastou-se correndo e rindo.
- Você nunca vai me achar! – gritou enquanto Carol parava o giro
Assim que firmou o pé, Carolina começou a tatear o ar. A fita não a deixava totalmente no escuro já que era de dia, porém, não dava nem para enxergar os próprios pés. Andava cambaleante com cuidado para não tropeçar.
Durante um bom tempo, tentou encontrar Amanda; esta, de vez em quando, aproximava-se aos risos e tocava-a nas costas. Carol se virava para tentar pegá-la, mas sem sucesso. Estava quase desistindo frustrada quando sentiu suas mãos encostarem num corpo à sua frente, mais precisamente nos ombros.
- Te peguei! – disse triunfante num primeiro momento.
Como a pessoa a sua frente não gritou de susto, nem deu mostras de incômodo, ela subiu as mãos e apalpou o rosto de quem quer que fosse. Não era Amanda. Estremeceu. Subiu mais um pouquinho e o toque num cabelo cacheado revelaram o que supôs. Fernando.
Tirou a fita dos olhos apenas para contemplar o rosto sorridente e brincalhão do menino. E aqueles olhos azuis que lhe fitavam com um brilho especial. Mesmo envergonhada, não conseguia desviar seus olhinhos castanhos.
- Ei, o que você tá fazendo? – Amanda veio correndo de um esconderijo qualquer – Você tá atrapalhando a gente!
- Me deixa brincar, vai? – o menino pediu outra vez com um sorriso maroto, piscando um olho e espichando o corpo de lado com os braços no alto da cabeça.
- Deixa, vai – dessa vez, Carolina interveio timidamente à amiga antes que ela se negasse. Não olhou para o menino, mas com o canto dos olhos percebeu que ele a fitava com um sorriso de gratidão – Vai ser mais divertido.
Amanda fez um bico contrariado ao fechar a cara alternando seu olhar de um para o outro. Pensou por alguns segundos até que se decidiu:
- Tá bom, mas com uma condição.
- Qual? – disse Fernando mais animado.
- Vai me emprestar seu minigame toda vez que eu pedir.
- Tá, eu empresto... – torceu a boca
- Tem que jurar.
- Tá, eu juro – ele levantou a mão direita e revirou os olhos
- Beija os dedinhos.
Assim o menino fez cruzando os indicadores e juntando-os aos lábios.
- Posso agora? – perguntou impaciente
- Pode... mas você vai ser a c***a cega agora.
- Tá, pode ser. – deu de ombros – Vou pegar vocês mesmo.
- Vai nada. Me dá – Amanda estendeu a mão para Carolina que lhe entregou a fita – Agora fique parado que vou vendar seus olhos.
Amarrou firme a fita sobre os olhos do irmão, e com ajuda de Carolina o girou. As duas se afastaram aos risos.
Os três se divertiram a valer com aquela brincadeira: Fernando conseguiu pegar a irmã; esta agarrou Carolina, que, por sua vez, apanhou Fernando que voltou a ser a c***a (suspeitava que ele se deixou apanhar por ela, mas ficou contente mesmo assim). Infelizmente, a diversão acabou quando Carolina foi embora com a mãe que a chamou.
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Carolina e os gêmeos se tornaram amigos inseparáveis. As crianças brincavam juntas todos os dias, ora na casa dela, ora na casa dos irmãos.
Com o fim das férias escolares, Carolina saía do pré-primário e entrava na primeira série do fundamental na mesma escola que estudou desde o jardim. E, naturalmente, com a mudança de bairro e por estarem na mesma série que ela, Fernando e Amanda foram estudar na mesma escola e sala de aula. Além de fortalecer a amizade entre eles, era uma grande vantagem para a menina, afinal, os gêmeos eram uma sensação!
Consideradas as crianças mais bonitas da escola, não havia menino ou menino de sua idade que não quisessem sua atenção. E é claro, para isso, não deveriam contrariá-los. E para contrariá-los bastava mexer com Carolina para entrar na lista n***a dos excluídos dos gêmeos. Assim, os antigos colegas que antes insultavam a menina com apelidos como "Vareta de Quatro Olhos", "Salsicha" ou "Dentão", passaram a serem mais cuidadosos a esse respeito.
Por algum motivo (e sorte) que Carolina não saberia explicar, aqueles dois se importavam muito com ela e protegiam-na de todas as formas. Eram populares mesmo que não buscassem exatamente isso (Fernando em particular, não era tão sociável quanto sua irmã) e usavam de sua imagem, mesmo que de uma forma inconsciente, para se imporem e não permitirem que ninguém ousasse magoar sua amiga.
Apesar disso, Carolina se sentia retraída porque sentia os olhares de desdém dos outros sobre sua aparência (piorou com o uso inevitável do aparelho) mesmo que não ousassem dizê-lo em voz alta. Além de Fernando e Amanda, não conseguia se relacionar com mais ninguém. Tinha uma prima, Magda, até então sua única amiga antes dos gêmeos, porém, só se viam às vezes quando ia visita-la na casa da avó materna, do tio Horácio, pai da menina, ou esta ia a sua casa.
Carolina se considerava feliz apesar disso. Tinha seus dois amigos, seus pais, sua prima, seus avós e uma casa grande onde nada lhe faltava. Sua família não era milionária, porém, morava num bairro nobre. O salário que o pai ganhava como um militar de alto escalão da Aeronáutica junto com o salário da mãe como professora universitária eram o suficiente para lhes proporcionar um alto padrão de vida.
Além disso, ela adorava suas manias. Gostava de recortar fotos de paisagem, de pessoas ou qualquer imagem que lhe prendesse a atenção das revistas descartadas após um tempo pela mãe. E também gostava de brincar com uma velha máquina de fotos que o pai lhe deu. Era divertido para ela observar o mundo através daquela lente, enquadrar e apertar o botão. Apesar de ter bonecas (não tantas como Amanda), brinquedos e um playground, nenhum deles lhe importava tanto quanto aquela máquina que nem funcionava mais.
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Um dia, no quarto de Carolina, estavam somente Amanda e ela. A menina até estranhou, pois desde que se conheciam há uns seis meses, Fernando nunca deixava de ir junto com a irmã até sua casa. Até mesmo nas "brincadeiras de meninas" ele tomava parte, desde que elas também participassem de suas "brincadeiras de meninos".
Nessa rara ocasião, enquanto descansavam de uma brincadeira, Amanda puxou conversa:
- Er... Carol.
- Quê?
- Posso te fazer uma pergunta?
- Claro.
- Você gosta de alguém?
Carolina ficou muda. Não sabia o que dizer.
- Hein, Carol?– insistiu a menina com impaciência. – Responde.
Carolina passou a língua em volta dos lábios em sinal de nervosismo. O que diria? Ela não podia revelar à amiga que era do irmão dela de quem gostava. Não é que acreditasse que Amanda fosse lhe trair contando para o irmão. Era mais por vergonha mesmo.
Quem era ela, uma menina tão feia e sem graça para ser notada pelo menino mais bonito da escola, mesmo que ele fosse seu melhor amigo? E irmão de sua linda e maravilhosa melhor amiga? Não! Não mesmo que diria! Só sua prima era conhecedora desse segredo. Por isso, pensou no primeiro nome que lhe veio à cabeça e respondeu:
- Gosto... do Rodrigo.
- Do Rodrigo? – a menina fez cara de nojo – Aquele menino cheio de sardas? Eca!
- Ele... ele é legal. Não... fica... mexendo comigo como os outros meninos. E não me olha como se eu fosse um ET.
- É... isso lá é. E você não é nenhum ET.
- Não é que os outros acham. – deu de ombros.
- Os outros são bobos – ela revirou os olhos. Em seguida, calou-se, abaixou o rosto e fez um bico, parecia desapontada com algo.
- O que foi?
- Nada.
- E você? Gosta de alguém?
- Ah... não sei. Tem horas que eu acho que gosto do Léo, mas depois acho que gosto do Fred... ainda não me decidi.
- Poxa, que chato, hein?
- Pois é. Os dois são tão bonitinhos.
- E... seu irmão? – a menina procurou disfarçar bem a ansiedade.
- Que tem ele?
- Ele... gosta de alguém? – Amanda ficou em silêncio por um longo tempo. Olhou para os lados como se procurasse alguma coisa. Carolina estranhou – Ou você não sabe?
- É, não sei. Acho que... ele não gosta de ninguém. Ele fica reclamando das meninas que ficam rodeando ele.
- Ahm.
Carolina não sabia se ficava aliviada ou triste. Ah, tá. Como se ele fosse gostar de você. Ele é só seu amigo, pensou.
E aparentemente era como Amanda afirmava. Fernando não suportava nenhuma das meninas que se aproximavam dele, rodeando-o, querendo sua atenção a todo custo. Algumas até haviam solicitado que Carolina entregasse bilhetinhos de amor para ele (todas pareciam se esquecer de que a usaram como alvo de suas brincadeiras maldosas) e, mesmo não gostando, ela o fez para ter a satisfação de vê-lo rasgando os papéis sem nem mesmo lê-los. Outras mais assanhadas costumavam pegá-lo desprevenido ao passarem a mão nos seus cachos loiros e até tascarem beijos em sua bochecha. E ele se afastava aos xingos das que assim agiam.
Apenas ela o tratava de maneira diferente, sem agir com tal assanhamento e sem o sufocar. Evitava até de procura-lo em excesso. Era ele quem a buscava fosse junto com a irmã ou sozinho. E isso por diferenciá-la das outras, o que não deixava de causar satisfação em Carolina, mesmo que isso significasse que ele a tratava assim por considerá-la apenas uma amiga ou como outra irmã.
- Vamos brincar do quê agora? – perguntou-lhe Amanda tirando-a de suas divagações.
- Lá fora... de corda. Pode ser?
- Legal! – a menina se levantou, abriu a porta do quarto e disparou a correr para fora. – Quem chegar por último é a mulher do padre!
- Assim não vale! – Carolina foi atrás aos risos
Fernando saiu de seus pensamentos no mesmo instante.
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No dia seguinte, Carolina notou um fato estranho: Fernando permaneceu calado e distante dela. Conversava normalmente com a irmã, os outros colegas e até as meninas a quem evitava, mas a ignorou a maior parte do tempo na escola. Aquilo a deixou muito sentida. Questionou Amanda e esta deu de ombros.
Não suportou mais a situação e, na hora do recreio, aproximou-se dele que estava junto a um grupo de meninos e meninas. Também estranhou o fato, pois ele sempre evitava os outros colegas para ficar em sua companhia e na da irmã. Só quando não tinha jeito é que se deixava rodear pelos demais e, mesmo assim, nunca se afastando dela.
- Nando. – chamou-o pela forma carinhosa com que o tratava. Ignorou os olhares curiosos dos colegas, principalmente os das meninas
- Quê? – ele respondeu de forma ríspida, sem nem a olhar direito nos olhos, coisa que a surpreendeu tanto quanto os outros
- Posso falar com você?
- Agora não. Não tá vendo que tou ocupado?
O grupo em coro soltou um "Uh!" de gozação para a menina.
- Só um pouquinho. – a menina os ignorou e insistiu
- Já disse que não.
- Mas...
- Eu falei que não! – virou-se para ela e gritou com raiva – Deixa de ser chata!
Para Carolina, aquilo foi o fim do mundo. Nem as risadas dos colegas e nem alguns se aproveitarem novamente para lhe chamarem de "Vareta de Quatro Olhos", "Salsicha" e "Dentão" lhe feriram tanto quanto seu amigo.
Ela lhe deu as costas e saiu correndo do pátio cobrindo o rosto para esconder o choro. Não escutou Amanda que estava do outro lado lhe chamar. Carolina não via mais nada à sua frente, apenas queria se esconder.
Refugiou-se atrás do prédio que funcionava como biblioteca e brinquedoteca e ali se agachou e sentou-se segurando as perninhas. Escondeu a cabeça sobre os joelhos e ficou chorando.
Não voltaria para aula nem com o sinal do recreio. Só sairia dali no final da aula. Não queria voltar nunca mais para aquela escola! E nunca mais falaria com Fernando!
Depois de um bom tempo, sentiu mãozinhas alisarem seu cabelo. Pensou que fosse Amanda – agora sua única amiga pelo visto – mas quando levantou os olhos e viu o rosto de Fernando, empurrou suas mãos e sentou-se de costas para ele.
- Sai daqui!
- Carol... desculpa. – seu tom de voz era sentido
- Não!
- Me desculpa, vai!
- Tou de m*l de você pelo resto da vida!
- Não, não fica assim comigo – ele começou a alisar seu cabelo outra vez, mas ela balançava a cabeça para evitar o contato. Então ele se agachou ao lado dela e juntou as duas mãos numa súplica – Eu juro que nunca mais faço isso!
-Você me chamou de chata na frente de todo mundo!
- Eu sei... me desculpa. Foi sem querer.
A menina não respondeu. Ainda ostentava uma expressão aborrecida, mas estava mais disposta a ouvi-lo.
- Você não me acha chata? – perguntou insegura.
- Não, claro que não. Eu falei aquilo porque tava com raiva.
- Com raiva de mim? Por quê?
- N... não... não era com você. É... outra coisa.
- O quê?
- Nada, Carol, esquece. – ele deu de ombros e limpou uma lágrima que escorreu do rosto dela – Vamos ficar amigos de novo, sim?
Estendeu ansioso a mão para ela. A garota hesitou por alguns instantes, mas não resistiu por mais tempo. Fernando era muito importante para ela. Além de ser o menino que gostava, também era seu melhor amigo.
Deram as mãos e sorriram contentes um para o outro. Fernando se levantou primeiro e ajudou a amiga a se levantar sem largar sua mão.
- Vamos voltar? – perguntou ele
- Vamos
Mais calma, soltou a mão do amigo e abaixou o rosto sentindo-o pegar fogo pelo contato físico. Passou a manga da camisa do uniforme escolar na face para limpar os últimos vestígios de lágrimas.
Retornaram em silêncio ao pátio quase correndo. O sinal do recreio acabava de tocar ao chegarem. Seus colegas e os demais estudantes das outras turmas ainda estavam lá.
- Ei, Fernando, você trouxe a Vareta de Quatro olhos de volta? – zombou Fred, um menino de olhos verdes, um dos meninos que Amanda tinha dúvidas sobre gostar.
Para a surpresa dele, Fernando o empurrou com raiva. Ele quase caiu.
- Nunca mais mexa com ela! – gritou Fernando
- Vareta de Quatro Olhos – repetiu o menino
- Cala essa boca! – Fernando o empurrou de novo.
- Vem me fazer calar! – Fred o empurrou de volta
Fernando lhe deu um murro no meio da testa e o outro devolveu o golpe. Em pouco tempo, estavam os dois rolando pelo chão enquanto todos os estudantes se aglomeravam em torno deles e davam gritos de "Porrada!", "Porrada!"
- Fernando, não! – gritou Carolina desesperada sem saber o que fazer, mas os dois garotos continuavam a se atrancar.
- Fernando! Fred! – Amanda também se aproximou assustada com a briga de seu irmão e um dos "seus amores" – Parem com isso!
Nenhum dos dois parou. Rolavam um sobre o outro e agrediam-se com socos e mordidas, mas logo Fernando começou a levar vantagem e conseguiu mobilizar Fred e enchê-lo de murros sobre a cabeça. O menino se protegia com os braços, mas gritava de dor.
- Pede desculpas pra Carol! – gritava Fernando – Pede agora se não te quebro!
Suzana, a professora deles, foi chamada por um dos alunos. Outros professores também se aproximaram.
- Fernando! Fred! Parem agora! – ordenou a professora tentando separá-los. Fernando ainda insistia em bater em Fred. Um professor de educação física teve que puxá-lo. O menino esperneou. Suzana o fitou horrorizada enquanto levantava Fred – Pare, Fernando! O que está acontecendo?
- Foi ele, professora – acusou Fred à beira das lágrimas e gemendo. O rosto estava todo roxo e com sangue escorrendo pela boca – Ele quem começou me empurrando.
- Ele quem provocou! – berrou Fernando. Ele se debatia, apesar de também ter uns poucos machucados.
- Calma, garoto! Acabou! – o professor que o segurava gritou com ele. Foi só aí que o menino se acalmou
- Pode deixar, eu cuido dele. Obrigada – ela se dirigiu com um aceno de cabeça para o outro professor. Ele assentiu e se afastou, largando Fernando.
- Vamos, vamos, todo mundo! Acabou o recreio!
O professor bateu palmas para dispersar os estudantes enquanto se afastava para a quadra com um grupo. Os outros docentes fizeram o mesmo reunindo os respectivos alunos e fazendo-os entrarem para as salas
- Os dois vêm comigo agora pra diretoria! – Suzana agarrou os braços de Fernando e Fred, um de cada lado. Virou-se para seus alunos que ainda ficaram por lá – E o resto... já pra dentro!
Todos entraram, inclusive Amanda, embora mais devagar que os outros; ainda olhava com uma cara nada amigável tanto para o irmão quanto para sua paquera. Carolina ainda permaneceu no pátio.
- Anda, Carolina! Você também. – ordenou a professora antes de caminhar puxando os meninos.
- Mas, professora...
- Agora!
A menina se calou, não se atrevia a desobedecer a sua professora; a mãe lhe ensinou a ter respeito. Mas ela queria muito ir junto e defender seu amigo. Não podia fazer nada; tudo o que fez foi caminhar devagar de volta para a sala e acompanhando com o olhar seu amigo ser arrastado. Fernando lhe dirigiu um ótimo olhar antes de dobrarem a esquina de um corredor que dava para a diretoria.
- 0 –
Fernando ganhou uma semana de suspensão na escola assim como Fred. Além disso, ficou de castigo esse período, sem poder sair para brincar na casa de Carolina ou em qualquer outro lugar. Só não ficou confinado em seu quarto porque sua mãe soube que o motivo da briga era por ele defender a amiga. E por esse motivo que também Amanda não deixou de conversar com ele, apesar de ter batido em um de "seus amores."
- A culpa foi toda minha – declarou Carolina para o amigo.
Os dois estavam no quarto de Fernando. Ela foi brincar com os gêmeos e, como ele tinha permissão para circular livre pela casa, não houve proibição em estar com ela. Amanda foi ao banheiro e eles aproveitaram para conversar enquanto se divertiam com o jogo de montar do menino (o preferido dele).
O quarto de Fernando era todo azul com alguns móveis de branco, como a cômoda que comportava vários bonecos em miniatura de heróis e uma televisão pequena com um vídeo cassete. Havia um pôster gigantesco do grupo musical Mamonas Assassinas numa parede e um pôster com os Cavaleiros do Zodíaco em outra. Carolina adorava o quarto dele, embora fosse de menino, e quando o comentou certa vez, deixou-o muito animado.
- Culpa de quê? – ele arqueou a sobrancelha
- De você ter brigado na escola, te castigarem lá e aqui.
- Não seja, boba, Carol. Você não teve culpa. A culpa foi daquele b***a do Fred. E não tô nem aí, eu batia de novo... ele mereceu.
- Não quero que você brigue por minha causa, Nando. Promete?
- Não. Se alguém te encher o saco, eu vou bater e pronto.
A menina fez um bico, mas resolveu não insistir. Em seguida, ficaram em silêncio. Carol lambeu os lábios.
- O que foi? – perguntou Fernando
- O quê? – ela estranhou
- Você tá nervosa com alguma coisa, não tá?
- N... não.
- Tá, sim, Carol, não mente. Sei quando você tá nervosa. Me diz o que foi.
Ela suspirou.
- É que... eu queria te perguntar uma coisa, mas tô com vergonha.
- Pode perguntar, a gente é amigo. Não tem que ter vergonha.
- Você... você... – ela lambeu os lábios outra vez e fechou os olhos, mordendo-os
- Eu o quê? Fala!
- Você gosta de alguém?
Fernando ficou calado, fitou-a surpreso.
- Ah, esquece – virou o rosto arrependida pelo silêncio do amigo.
- Er... gosto... gosto da Martinha.
- Ah. – a menina abriu a boca e desviou o olhar.
Martinha era o apelido de uma menina de cabelos cor de mel e olhos verdes, uma das mais bonitas da escola. A mais bonita, depois de Amanda, na sua opinião. E a mais chata e metida da sala.
O desapontamento da menina foi grande, não só por saber que "seu amor" gostava de outra menina, como também de uma insuportável. Mas também estava surpresa porque Martinha também era uma das que costumavam tascar um beijo na bochecha de Fernando sem a permissão dele, coisa que o menino detestava.
- E você vai pedir ela em namoro? Ela... parece também gostar de você – não o encarou, fingindo se entreter com um bloco
- Eu? Nem morto. Eu... não quero ser zoado. Prefiro ficar assim.
-Ah – ela se sentiu menos triste – Eu...também gosto de alguém.
- É? – ele não demonstrou nenhum interesse.
- É o Rodrigo.
- Ah, tá. Legal – deu de ombros.
Carolina fez um bico por ele não se importar.
- Vamos prometer uma coisa um para o outro? – ele a fitou após uns segundos e largou um bloco que segurava
- O quê?
- Não importa de quem a gente gostar, a gente nunca vai deixar que nenhum menino ou menina se meta entre a gente. Combinado? – ele ergueu o dedo mindinho da mão direita no ar.
- Combinado – ela enlaçou o seu no dele
- Juntos para sempre, não importa o quê.
- Para sempre.