SUPERGÊMEOS

2063 Words
Vinte anos antes A pequena Carolina acompanhava sua mãe com passos rápidos à casa à direita da sua. Uma família nova havia se mudado há uma semana e, Adelaide conheceu por acaso Sofia, a senhora da moradia, ao sair na rua e esta lhe pedir informações a respeito de alguma igreja pelas redondezas. Adelaide não só a informou como também a acompanhou até paróquia e prontificou-se a lhe mostrar a vizinhança. As duas mulheres se entenderam tão bem que combinaram uma visita no domingo na casa da nova vizinha. - Lá tem criança? - indagou a pequena na expectativa enquanto sua mãe a arrumava. - Sim, duas. São irmãos gêmeos, um menino e uma menina. - Puxa, que legal! Mas... são bebês? - Não - Adelaide riu - Acho que eles têm a sua idade. - E eles são legais? - Hum... não sei, ainda não os vi, a senhora que vamos visitar é quem me falou deles... são filhos dela. Mas nós vamos lá para conhecê-los. Agora, fique quietinha que vou pentear seu cabelo. A menina não fez mais perguntas, mas ficou ansiosa... e temorosa pelo encontro. Nunca havia conversado com gêmeos e havia visto apenas os que eram recém-nascidos. Seriam legais? E se fossem como as outras crianças e lhe maltratassem? Estudava em certa escola desde os cinco anos, (havia acabado o pré-primário) e sempre era alvo de gozações e maus tratos. Tudo por ser magricela, usar óculos, ter os dentes tortos (os pais já falavam em leva-la ao ortodontista e colocar aparelho, isso só pioraria as coisas) e usar o cabelo preso em tranças (sua mãe insistia em soltá-lo, mas ela não gostava). E não estava nem um pouco ansiosa para começar a primeira série dali a uma semana em que acabariam as férias. Ainda assim, seu coração palpitava em conhecer seus vizinhos. Embora fosse apenas uma criança, alguma espécie de intuição lhe dizia que tudo daria certo naquele primeiro contato com os gêmeos. Era fim de tarde quando sua mãe e ela foram à casa vizinha. Paulo, seu pai, não as acompanhou porque desde manhã estava num clube com alguns amigos e com o marido de Sofia, Roberto. Ele conheceu o novo vizinho numa de suas reuniões noturnas com esses mesmos amigos na sexta-feira, num bar exclusivo a poucas quadras dali e convidou-o a se juntar ao grupo. Tocaram a campainha da residência. Possuía dois andares com a fachada cor-de-rosa num tom discreto, gramado na frente, arbustos de flores que rodeavam a casa. Logo, foram atendidas por uma senhora gorda, baixa, branca, as faces rosadas e o cabelo preto preso num coque. - Olá! - esboçava um sorriso enquanto se aproximava - A senhora deve ser a dona Adelaide. - Isso mesmo. E esta é minha filha Carolina. - Oi, menina linda! Tudo bem? Carolina corou. Não estava acostumada a ser chamada de linda. Apenas sorriu tímida e balançou a cabeça em sinal positivo. - Entrem. Dona Sofia as espera. Destrancou o portão e esperou que as duas entrassem. Caminhava ao lado delas. - E qual o seu nome? - Me chamo Teresa - respondeu - Estou com eles desde o nascimento dos gêmeos. Ah, esses dois são um encanto! Mas também aprontam cada uma! Riu. Adelaide sorriu sem dizer nada. Carolina ficou mais animada com o comentário. E olhava com o r**o-de-olho para Teresa. Então tinham uma empregada? Não pode deixar de sentir uma ponta de inveja. Não que ela e sua família não tivessem condições de ter uma - pelo contrário, sua casa era tão grande quanto aos dos novos vizinhos (talvez um pouco menor). Mas Adelaide gostava de ela mesma cuidar da maior parte dos afazeres. De vez em quando, pedia os serviços de alguma diarista. Teresa abriu a porta da frente. A decoração interior revelava o bom gosto da dona: as paredes também eram do mesmo tom rosado, vários quadros espalhados, um lustre de cristal, um tapete largo e vermelho, as poltronas forradas num tom igual o da casa, uma estante de mogno com livros e pratos decorativos, além de uma televisão LSD e outros apetrechos. - Como vai, Adelaide? - uma mulher loira sentada numa das poltronas se levantou e cumprimentou a outra com três beijos. - Seja bem-vinda! - Obrigada, Sofia. Espero não estar te incomodando. - Incômodo algum....se fui eu quem te convidei - esboçou um largo e sincero sorriso. Voltou sua atenção para a garota agarrada à cintura de Adelaide que a observava com olhos arregalados - É essa a sua princesa? - Sim. A minha princesa, minha única filha. - Sua mãe me contou que você se chama Carolina. - ela se abaixou até ficar com o rosto à altura do da menina - Verdade? Carolina apenas assentiu. Estava assombrada com a beleza daquela mulher. Achava sua mãe bonita, mas aquela... parecia uma estrela da TV brasileira, tipo a Xuxa ou a Angélica. Os cabelos loiros e longos, os olhos de um azul profundo, o nariz fino e os dentes brancos e bem enfileirados. - A senhora... é bonita! - a menina não conteve o comentário. Sofia riu assim como Adelaide. - Nossa, muito obrigada! Que menina educada e doce! - Carol enrubesceu - Você também é bonita. - Como se diz? - Adelaide a olhou, lembrando-a das boas maneiras. - Obrigada. - De nada, meu anjo - deu-lhe um beijo no rosto, deixando a garota mais enrubescida. Sofia se levantou - Sentem-se.  – esperou que as duas se acomodaram nas poltronas. – Querem água, café...? - Não se incomode - respondeu Adelaide - Imagina... Que tal lhes parece um suco de maracujá? - Hum... está bem. Por mim pode ser. Quer suco, filha? Carolina assentiu. - Teresa, por favor, nos prepare um suco. - Com prazer, dona Sofia - respondeu a senhora e dirigiu-se às convidadas com um aceno - Com licença. - Toda. - respondeu Adelaide. - Mamãe! Mamãe! - uma menininha num vestido branco irrompeu pela sala. A expressão era de raiva - O Fernando não quer me emprestar o mini game dele! - Amanda, não corra e nem grite assim pela sala. - repreendeu-a Sofia sem elevar o tom - Nós temos visitas. Foi aí que a pequena se deu conta da presença de Adelaide e Carolina. Carolina arregalou os olhos ao vislumbrar a beleza daquela menina, era quase uma cópia em miniatura de Sofia, só que o cabelo era mais escuro e os fios anelados nas pontas. Envergonhou-se mais uma vez por seus óculos de tartaruga, a magreza extrema, as tranças e os dentes tortos. Queria se esconder atrás da mãe, ainda mais pela maneira nada discreta como a menina lhe mirava de cima a baixo. Porém, ao invés de um olhar de deboche, detectou um sorriso amistoso e um olhar caloroso da outra. - Oi! - disse a pequena com entusiasmo e se aproximou das duas sem vergonha alguma. O cumprimento foi dirigido tanto para mãe como para filha, mas sua atenção era voltada mais para Carolina - Me chamo Amanda. - Muito prazer, Amanda! - respondeu Adelaide. Estendeu a mão para a menina que a apertou e balançou várias vezes antes de soltá-la, fazendo a mulher rir - Me chamo Adelaide. - E ela? - a pequena apontou Carolina que permanecia calada, admirando sua beleza. - Filha, é feio apontar - advertiu-a Sofia com ternura na voz - Ah, desculpa! - abaixou o braço e tratou de se dirigir diretamente a Carolina - Mas como você se chama? - Carolina - balbuciou tão baixo que a outra não ouviu. - Ahm? - Carolina. - a menina elevou um pouco mais o tom, mas abaixou o rosto - Gostei do seu nome - Carol ergueu o olhar para a outra com evidente surpresa. E mais surpreendida ficou quando Amanda lhe pegou a mão e puxou-a do assento para que fosse com ela - Vem, vamos brincar. - Amanda, que isso? - Sofia interceptou o caminho das duas. Adelaide riu - Deixe de ser mandona! Não é assim que a gente trata as pessoas, puxando elas como se fossem coisas. - Ah, mãe, mas eu quero brincar com ela. - Você tem que saber se ela quer brincar também. Você quer, Carolina? A pequena assentiu com timidez, mas com um brilho no olhar. - Tá vendo? - tornou Amanda com ar de vitória - A gente pode ir? - Espera um momento, mocinha. Antes me diga o que você queria àquela hora quando entrou correndo e gritando daquele jeito. Você falou algo sobre seu irmão... - É que ele não quis me deixar brincar com o mini game dele. - Querida, deixa ele. Outra hora, seu irmão te empresta. - Também não quero mais. Vou brincar com minha amiga. E puxou a mão de Carolina. Esta se admirou pela loirinha já lhe considerar amiga com apenas dois minutos de conhecimento. Ouviu as risadas de Adelaide e de Sofia às suas costas enquanto se deixava levar por Amanda. Subiram uma escadaria e viraram à esquerda. Havia um longo corredor onde se localizava o quarto da apimentada garota. Tal como Carolina imaginava, a casa vizinha era das mesmas proporções que a sua, só não saberia dizer se era maior ou não. As casas do bairro eram tão iguais... - Vamos brincar com as minhas bonecas e depois a gente brinca lá fora de pique-esconde, tá? - disse Amanda quase como uma ordem, na frente e sem largar a mão da nova companheira. Carolina apenas assentiu. Embora não demonstrasse, estava radiante. Se a outra lhe convidasse apenas para cochilarem teria adorado a ideia da mesma forma. O último quarto pertencia a Amanda. Antes de entrarem, ela se deteve por um momento diante de uma porta à esquerda da sua... e naturalmente, Carolina, que se deixava conduzir. - Espera só um pouquinho. - virou-se para Carol e sem esperar resposta, largou sua mão, girou a maçaneta e entreabriu a porta, o suficiente para entrar. - Sai daqui - uma voz de menino se dirigiu a Amanda após alguns instantes. - Eu só vim te dizer que contei pra mãe que você não quis me emprestar seu mini game. - Fodas - foi a resposta indiferente e sem temor. Nesse momento, sem conter a curiosidade por querer vislumbrar com quem a menina falava, Carolina se aproximou da porta e ficou um pouco atrás de Amanda. Vislumbrou um garoto, recostado na cabeceira da cama, com os tênis em cima do colchão, a cabeça baixa e os olhos fitos no mini game que manuseava com os dedos. Soube na hora que aquele era o outro gêmeo. E se antes se espantou com a beleza de Amanda, agora se espantava com a de Fernando. Ele era tão bonito quanto ela, e com certeza, o garoto mais bonito que via. Sua cabeça emoldurada por cachos loiros e a pele branca num tom meio rosado a fascinavam, como se ele fosse de porcelana, tal como a irmã. Fernando não se apercebeu num primeiro momento de sua contemplação; seu olhar vagueava para o jogo, falava com a irmã sem lhe erguer a vista. - Pode engolir ele! - replicou a menina contrariada pela indiferença do irmão - Vou brincar com a minha amiga e não vou deixar você brincar com a gente. O menino levantou o olhar sem muito interesse, apenas para mandar a irmã sair de seu quarto e talvez manda-la tomar naquele lugar. Foi quando seus olhos encontraram os de Carolina atrás de Amanda. Era como se visse algo bastante inusitado a ponto de interromper seu jogo, arregalar os olhos e abrir a boca. A menina ficou constrangida pela reação do garoto. Será que era tão feia assim para ele olhá-la daquele jeito? - Que foi? - Amanda também olhou para trás, tentando adivinhar o que atraía o olhar de Fernando. Viu apenas sua nova amiga. Tornou a fitar o irmão - Nada. - o menino fechou a boca e voltou os olhos e dedos para seu mini game, procurando ignorar as duas. Carol não sabia se ficava aliviada ou desapontada. - Ah, vamos deixar esse bobo aí - Amanda tornou a pegar sua mão - Vou te mostrar meu quarto. A linda moreninha se deixou conduzir e deu as costas para o outro gêmeo. Mas seu pensamento permaneceu com a imagem dele por alguns instantes antes de adentrar o quarto da nova amiga.  
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