Capítulo 1 — Borboleta na Pele
A tatuagem de Julie como promessa de não amar.
A primeira luz do dia escorreu pela persiana como um sussurro que não ousa acordar memórias. Estiquei o pulso esquerdo até que o desenho respirasse comigo: asas delicadas, linhas finas, uma borboleta pousada sobre a pele; não como enfeite, mas como sobrevivência. Cada traço tem o peso de uma frase que nunca terminou. Cada cor guarda um pedaço do que precisei deixar para trás para continuar.
Eu me chamo Julie Avelar. E a borboleta em mim é a minha regra.
— Não amarás — murmuro para o espelho, com o mesmo humor seco de quem repete um mantra de guerra.
Não é juramento contra a vida. É só um jeito de existir sem me romper de novo.
Visto a blusa branca, abotoando de baixo para cima como aprendi no internato: controle se começa pelas bordas. O blazer grafite cai nos ombros como uma armadura discreta. O cabelo, preso. O batom, um tom de boca que finge naturalidade. E a bolsa preta que guarda a minha trincheira portátil: canetas, agendas, chaves, remédios para ansiedade que raramente tomo, mas gosto de saber que posso.
No caminho até o trabalho, as ruas de São Paulo fazem o barulho de sempre — motores, pressa, alguns olhares que não param em lugar nenhum. Eu paro, às vezes, onde ninguém vê: naquele ponto do passado onde minha mãe apertou as minhas mãos pequenas e ajustou as asas de tecido nas minhas costas.
— Minha borboleta — ela disse.
— Nunca mais sofreremos por homem nenhum.
É uma lembrança cortada nas bordas, costurada por silêncios que aprendi a respeitar. Eu agarro-me ao que ficou bom: o riso dela, a pressa em me esconder atrás do próprio corpo, a esperança como um presente embrulhado sem fita. O resto, a mente guardou em gavetas que não abro sozinha.
As portas de vidro da Guierrez Holding refletem uma versão de mim que dá certo. O piso é um espelho de mármore; o ar, controlado; as horas, medidas. Pessoas se ajeitam quando me veem, não por mim, mas porque sabem de quem eu cuido. Sou assistente pessoal de Romeu Guierrez há três anos. É tempo suficiente para compreender um homem que acredita que o mundo é um relógio que ele mesmo dá corda.
No elevador, marco mentalmente o roteiro da manhã.
07h45 — Checar e-mails prioritários; reordenar a pauta do comitê de fusão.
07h50 — Ligar para o jurídico: cláusula 11-C precisa de ajuste de linguagem.
07h55 — Café dele: preto, sem açúcar, sem espuma, sem conversa.
08h00 — Ajustar a sala de reunião: tela ligada, arquivo “G&F/Confidencial” em primeiro plano.
08h05 — Respirar.
A última parte é a mais difícil. Não por ele, mas pelo que eu me tornei ao lado dele: uma mulher que aprendeu a atravessar o fogo sem cheirar a fumaça.
— Bom dia, Julie — diz Davi, da recepção, com aquele sorriso honesto que não combina com um arranha-céu.
— Bom dia, Davi. Entregaram os relatórios da Ford?
— Às sete em ponto. Estão na sua mesa.
Aceno e sigo. Minha mesa é um território entre o mundo e Romeu. Organizá-la é como alinhar um exército: caneta, bloco, fone. Coloco o café dele sobre o descanso de couro. O relógio marca 07h54 quando o meu celular vibra com o nome que me conhece antes do meu nome.
Helena.
Asas antigas, chão firme. Minha amiga desde o internato. Quem me viu encolher para caber, quem me ensinou a ocupar de novo.
— Você está respirando, certo? — ela entra rindo, sem pedir licença.
— Contando até quatro. Inspira, expira. Regra dois: não derramar café diante do general.
— Não-chama-se general, chama-se bilionário rabugento com voz grave demais. E você finge muito bem que ele não te tira o ar.
— Ele não me tira nada, Hel.
— Claro. E eu não sou viciada em pão de queijo. Vai me negar, Avelar?
Sorrio, apesar de mim.
— Preciso ir. Hoje tem comitê de fusão, e o mundo vai acabar se a tela não estiver no arquivo certo.
— Promete que janta comigo? Tenho novidades do André. Novidades boas, Julie. Daquelas que te fazem acreditar que a vida pode ser leve.
— Leve é a palavra preferida de quem não carrega peso nas costas.
Ela suspira do outro lado.
— Você merece coisas leves também. Até mais, borboleta.
Desligo com a palavra suspensa no ar, como se pudesse pousar sem ser notada. Borboleta. Alguém já me chamou assim para me possuir. Na boca de Helena, a palavra é outra coisa: abrigo.
Às 07h59, o elevador principal apita. O painel indica o último andar, depois desce num corte reto até vinte e oito. O ar muda antes dele entrar. É engraçado como certos corpos têm gravidade própria. Romeu atravessa a antes sala com o casaco escuro apoiado no antebraço. A camisa de um cinza quase prata contrasta com a pele morena e o relógio de aço. Os olhos; esse território proibido onde tudo parece cálculo e, às vezes, parece tempestade.
— Bom dia, senhor Guierrez — digo, com a voz que treinei para não tremer.
— Bom dia, Julie.
Ele não sorri. Ele nunca sorri de graça. O que faz é pousar o olhar no café, depois em mim, como quem confirma que o universo está nos eixos. Passa por perto o suficiente para que eu sinta um rastro de vetiver e disciplina.
— O jurídico ajustou a onze-C? — a pergunta vem baixa, medida.
— Pedi revisão de linguagem. “Convergência” no lugar de “absorção” ameniza os ânimos, principalmente os de quem já entrou na sala disposto a brigar.
— Inteligente — murmura.
— E a agenda de hoje?
— O comitê de fusão às oito e quinze. Às dez, reunião com o conselho. Ao meio-dia, almoço com investidores. Às quinze, call com a Ásia. Às dezessete, entrevista para a Excellence.
— Cancele a Excellence. Ninguém precisa do meu rosto na capa hoje.
“Hoje” para ele é uma equação que só cabe no agora. “Amanhã” é um luxo que ele raramente se concede.
— Cancelado — responde, digitando.
Ele levanta a mão, e por um segundo eu penso que vai tocar o café. Não. É o meu pulso. Ou melhor, é o que ele vê do meu pulso: a borda de uma asa escapando da manga.
— Está doendo? — pergunta, e eu quase rio. Como se a pele falasse.
— Tatuagens não doem depois de curadas — sustento.
— Algumas doem — ele retruca, os olhos numa região entre meu pulso e a lembrança de alguma coisa que talvez só ele enxergue.
Afastou a manga com cuidado, deixando à mostra as asas inteiras. Eu raramente faço isso. Talvez seja o jeito que ele me olha: sem pena, sem curiosidade vulgar, como quem reconhece uma língua estrangeira porque também a fala.
— É bonita — diz, objetivo.
— É um lembrete.
— De quê?
— De que liberdade custa caro. E que promessas, quando quebram, cortam como vidro.
— Hm.
Esse “hm” dele cabe em diversos significados. Hoje, parece respeito. Ou alerta.
— Sala pronta? — ele volta ao eixo.
— Arquivo aberto, conferência testada, água gelada à esquerda, café quente à direita, duas canetas extras, três pastas de contingência.
— Você mantém o mundo em pé, Julie.
Ele diz e some porta adentro. Fico com as palavras em suspenso, entre orgulho e raiva. Eu não mantenho o mundo em pé. Eu mantenho o meu em pé, porque sei exatamente como é quando ele desaba.
08h15. A sala enche de gente que fala alto demais. O CFO da Ford tem uma voz que sempre parece uma reclamação. A diretora de marketing ajeita o batom na câmera enquanto diz que “marca é promessa”. Eu gostaria de dizer a ela o quanto promessas quebradas custam em terapia. Romeu comanda a mesa com o mínimo: olhos atentos, poucas frases, cortes precisos.
— Tópico três — ele indica com uma inclinação de cabeça. Eu troco o slide no instante exato em que ele termina a frase. Sincronia é ciência e treino.
— A narrativa pública precisa de suavidade — digo quando pedem minha opinião.
— “Fusão” já assusta. “Aliança estratégica” cria menos atrito. E começamos a carta aos colaboradores falando de pessoas, não de números. As pessoas respiram melhor antes de dormir.
Alguns se incomodam quando eu falo. Outros, não. Romeu nunca me calou por falar. Eu gosto disso mais do que deveria.
No intervalo, deixo outro café ao alcance dele. Ele não agradece. Ele não precisa. Às vezes, ele me olha e pronto. É uma comunicação que aprendi no internato: saber ler riscos antes da tempestade.
— Julie — ele chama, quando os outros saem.
— O investidor japonês insistiu naquele jantar de sexta?
— Sim. Neguei duas vezes. Ele disse que paga caro para ouvir o que pensa.
— Ele paga para ouvir o que precisa. Agende para a próxima semana, com tradução simultânea. E não quero a Patrícia em nada disso.
O nome corta o ar. Patrícia Ford. Ex-noiva, noiva de fachada devido a negócios e da fusão. Parte da empresa que tenta se somar à nossa. Parte de um passado que não me pertence, mas me escolheu como plateia. Eu não faço perguntas. Tive uma vida inteira fulminada por perguntas sem resposta. Aprendi a ouvir o que importa.
— Entendido.
Ele se recosta na cadeira, os dedos entrelaçados, o rosto num estudo rápido do meu. Eu não baixei os olhos. Não dessa vez.
— Você tem uma regra, não tem? — pergunta.
— Tenho algumas.
— A principal?
— Não amar.
Ele assente, como quem recebe um relatório lógico.
— Boa regra.
— Funciona.
— Até parar de funcionar.
— Comigo, não para.
— Hm.
O “hm” dele agora é outra coisa. Um sorriso não-sorriso acende num canto quase invisível da boca. Desvio o olhar para a janela. A cidade parece um tabuleiro em movimento.
O segundo bloco da manhã nos engole. Telefonemas, cláusulas, assinaturas, uma crise mínima no jurídico que apago antes que vire incêndio. Eu trabalho bem porque sei sofrer em silêncio. É um talento que não recomendo a ninguém, mas que me mantém inteira.
Quase meio-dia. Uma notificação discreta vibra no meu celular particular. Helena outra vez: “Janta hoje, sem desculpas. E leva seu não-amor para passear. P.S.: André perguntou de você.” Reviro os olhos e sorriu do mesmo jeito. Helena acredita que o mundo cabe numa mesa com guardanapos de papel e risada alta. Talvez caiba.
— A carta aos colaboradores — Romeu surge novamente na minha borda de visão.
— Quero o primeiro parágrafo até às quatorze.
— Escrevo como “aliança” e não “fusão”. E coloco pessoas antes de porcentagens.
— Exato.
— E sem heróis — arrisco.
— Não precisamos de pessoas, precisamos de coerência.
Ele me olha como se eu tivesse dito uma verdade que ele não costuma ouvir. Talvez porque heróis, na vida real, morram por escolhas que parecem pequenas. Eu sei. Ele, eu suspeito.
— Sem heróis — ele confirma, mais baixo.
Quando se vira para entrar de novo na sala, a manga da camisa sobe um centímetro. Não é muito. É o suficiente para que eu perceba a sombra de tinta no pulso dele. Um risco escuro, uma curva, nada definido. Um segredo que pede fôlego. Guardo a curiosidade onde guardo o medo: numa caixa com etiqueta não mexer.
Às quatorze, a carta está no e-mail dele. Às quinze, a Ásia se conecta. Às dezessete, a Excellence já foi cancelada. Às dezoito, eu deveria estar indo embora. Não vou. Minha lista de coisas a fazer tem mania de se multiplicar. E eu gosto de ir embora quando o edifício está mais silencioso. Menos olhos, menos barulhos, menos chances de tropeçar no passado.
— Julie.
A voz dele me encontra às 18h37. Ergo os olhos. Romeu está encostado na minha mesa como quem encosta num pensamento. O escritório inteiro tem um tom âmbar de fim de tarde.
— Sim?
— Por que borboleta?
Ele estava pensativo.
Ele não olha para a tatuagem. Olha para mim. É pior. É sempre pior quando alguém enxerga você antes da sua defesa.
— Porque um dia me disseram que eu podia voar — respondo.
— E no mesmo dia tentaram arrancar minhas asas. Precisei tatuá-las para lembrar que pertencem a mim, não a ninguém.
Ele demora a respirar.
— E funcionou?
— Ainda estou aqui.
— E a regra… — ele volta, quase curioso. — Continua?
— Continua.
— Ótimo — diz. Mas a palavra saiu num tom que não combinava com alívio. Combina com conflito.
A porta do elevador se abre com um ding educado. O som se espalha pela ante sala quase vazia. Romeu ajeita o casaco no antebraço e se inclina o suficiente para que apenas eu ouça:
— Amanhã, oito em ponto. E, Julie…
— Sim?
— Não esconda a sua tatuagem de mim.
Meu coração faz um gesto antigo, desses que a gente treina para não ver. Seguro a caneta com mais força do que deveria e respondo com a minha voz de trincheira:
— Eu não escondo. Só escolho onde pouso.
Ele assente uma vez. O elevador o engole. Fico com o silêncio, a cidade e a borboleta na pele dizendo que promessas também podem ser cumpridas quando pertencem apenas a quem as carrega.
Fechou o laptop, apagou a luz da mesa e cruzou a antessala. Lá fora, o vento faz um breve carinho nas mangas. A asa aparece um centímetro. Suficiente para eu me lembrar da minha regra. Insuficiente para me proteger do que não sei nomear.
O celular vibra. Número desconhecido.
Atendo sem pensar.
— Julie Avelar? — a voz é masculina, fria, como ferro molhado.
— Você sabe que borboletas não sobrevivem sem asas.
A ligação cai. E, pela primeira vez em muito tempo, a tatuagem dói. Como se tinta pudesse sangrar. Como se a minha regra soubesse que amanhã pede outra. E outro tipo de coragem.