O silêncio depois do bilhete deixado na porta ainda pesava como chumbo no ar. O papel repousava sobre a mesa da sala, as palavras ameaçadoras ainda vivas, como se tivessem sido escritas com sangue: “Sem asas, cai. Com asas, eu corto.”
Julie respirava fundo, tentando engolir o pânico. A borboleta tatuada em seu pulso ardia sob a pele como se fosse um presságio. Romeu caminhava de um lado para o outro, cada passo dele um terremoto contido.
— Arrume uma mala. Agora. — A voz dele foi baixa, firme, uma sentença.
Julie ergueu os olhos, incrédula.
— O quê?
— Você vai para a mansão comigo. — Ele parou diante dela, os ombros tensos, os olhos escuros como tempestade.
— Aqui não é seguro.
Julie cruzou os braços, a respiração acelerada, o corpo em estado de alerta.
— Não vou. Esta é a minha casa, Romeu. O meu espaço.
Ele deu um passo à frente, invadindo o ar. O calor da presença dele a sufocava, mas também acendia algo que ela não queria admitir.
— Ou você arruma essa mala e vem comigo... — disse, cada palavra mastigada como uma ordem militar.
— ...ou ficamos os dois aqui nesse apartamento. E, acredite, não é o que quero.
Julie soltou uma risada curta, carregada de nervosismo e desafio.
— Você está me dando ordens agora?
— Isso não é um pedido, Julie. É uma ordem. — A voz grave dele vibrou no peito dela, queimando em lugares perigosos.
Ela ergueu o queixo, insolente.
— E quem me protege de você?
O silêncio que caiu depois foi mais quente do que qualquer briga. Os olhos de Romeu incendiaram-se com a resposta, como se ela tivesse arrancado um segredo de dentro dele sem permissão. Ele ficou imóvel, só respirando fundo, o maxilar travado, os punhos fechados como se estivesse segurando uma verdade maior do que qualquer ameaça externa.
— Eu só quero te proteger… — ele repetiu, mas a voz já não era de ferro. Era carne, ferida.
Julie sentiu o coração bater forte. Uma parte dela queria acreditar. Outra parte temia que estar ao lado dele fosse um perigo maior do que qualquer homem lá fora.
A tensão foi cortada de forma abrupta. A porta se abriu e Freud entrou, o olhar duro, a postura de guerra.
— Senhor… — disse, respirando pesado. — A vizinha… Paula, a modelo… está morta.
O ar da sala congelou.
Julie cambaleou um passo para trás, as mãos instintivamente tocando a mesa. Os olhos dela se arregalaram, e pela primeira vez a insolência deu lugar ao medo nu.
— Morta?
Freud assentiu.
— Encontraram o corpo agora. O prédio inteiro está em alerta.
Romeu virou o rosto para Julie, os olhos faiscando. Não havia mais espaço para discussão, apenas uma certeza.
— Você entende agora? Não é paranoia. É perigo. Você está na mira.
Julie sentiu o estômago se revirar, a borboleta tatuada queimando como fogo real. A lembrança do padrasto, das promessas quebradas, da perseguição que parecia nunca terminar voltou como um golpe.
Ela o olhou, a respiração descompassada, a boca entreaberta.
— Então… para onde você me levar vai realmente me salvar?
Romeu não piscou.
— Minha mansão tem segredos, Julie. Mas são paredes que protegem. E agora você não tem escolha.
Ele estendeu a mão. Um convite. Uma ordem. Um aviso.
Julie sabia que, ao cruzar aquelas paredes, estaria entrando em um labirinto de proteção, desejo e fantasmas que poderiam consumi-la. Mas a morte na porta ao lado lhe mostrava uma verdade inegociável: a borboleta estava sendo caçada.
E Romeu era o único capaz de voar ao lado dela.
As portas do elevador abriram para levá-los. Julie hesitou, olhando a mão dele, o olhar dele. Proteção ou prisão? O próximo passo é decidir o rumo de suas asas.
A noite de São Paulo engolia o carro como se a cidade tivesse engolido também o ar. A limusine avançava lenta pelas avenidas iluminadas, motor grave, vidros escuros, e dentro dela o silêncio era uma guerra invisível.
Julie estava de um lado e Romeu do outro. Dois corpos próximos, dois mundos afastados. O couro preto dos bancos refletia as luzes de fora, mas dentro parecia não haver claridade suficiente.
Ela mantinha o olhar fixo no vidro, assistindo ao reflexo dos prédios correndo em velocidade contrária. O coração ainda batia rápido pelo que ouvira; a vizinha morta, o recado, a ameaça. Mas havia outra coisa vibrando dentro dela: o confronto com Romeu. “E quem me protege de você?” Essa pergunta ainda queimava como brasa recém-acesa.
Do outro lado, Romeu segurava um copo de uísque sem beber. O gelo derretia devagar, tal qual sua paciência. Ele não a encarava, mas cada fibra de seu corpo estava consciente dela. Do perfume discreto, do jeito como os dedos dela roçavam nervosos sobre o joelho, da tatuagem escondida pela manga. Julie Avelar podia tentar parecer distante, mas Romeu sentia; ela estava em combustão, assim como ele.
Freud ocupava o banco dianteiro, postura rígida, comunicando-se pelo rádio com frases curtas:
— Alfa-um em movimento. Rota limpa.
Mas ali dentro, nada estava limpo. O ar estava saturado.
Julie respirou fundo, quebrou o silêncio com a voz firme, mesmo que a garganta doesse.
— Você acha que pode resolver tudo me trancando atrás de muros?
Romeu não desviou o olhar do copo.
— Eu acho que posso impedir que toquem em você. Isso basta.
— Basta pra você. Pra mim, não. — A voz dela foi baixa, mas cortante.
O gelo no copo estalou. Ele finalmente ergueu os olhos. A intensidade fez Julie prender a respiração. Não havia ódio ali, mas um fogo cru, sem filtro.
— Você me vê como perigo — disse ele, devagar.
— Mas se não fosse eu, você já estaria morta.
Ela mordeu o lábio, sustentando o olhar.
— Talvez. Mas, Romeu, cada vez que você me obriga, eu sinto que perco asas também.
Por um instante, foi como se algo tivesse rachado entre eles. Um silêncio diferente, não mais tenso, mas pesado de confissão. Como se ambos tivessem revelado segredos sem querer.
Freud anunciou:
— Senhor, entrando na via privada. Três minutos para a propriedade.
Julie voltou os olhos para a janela, engolindo as palavras que não disse. Romeu girou o copo nas mãos, sem beber, como se buscasse ali o controle que estava perdendo.
Quando a limusine cruzou os portões de ferro da mansão, o som dos portões se fechando atrás deles soou como um veredito: dali em diante, nenhum dos dois poderia fingir que aquele confronto não havia deixado marcas.
As portas da mansão se abriram, luzes acesas esperando. Mas as paredes guardam segredos, segredos que poderiam unir ou destruir os dois.
A limusine subiu pela alameda ladeada de árvores altas, cujas sombras se alongava como guardiãs. A cada metro vencido, Julie sentia o coração bater mais forte. Quando os portões de ferro se fecharam atrás deles com um estalo seco, parecia que não só a cidade havia ficado do lado de fora, mas também parte da liberdade dela.
A mansão se erguia diante de seus olhos como um palácio moderno, linhas de vidro e aço misturadas ao mármore antigo. O contraste entre luxo e cicatrizes estava em cada detalhe: esculturas imponentes no jardim, mas com marcas de tempo; vidraças impecáveis, mas algumas janelas mantinham cortinas pesadas que escondiam mais do que o necessário.
Julie respirou fundo ao entrar. O ar tinha cheiro de madeira encerada, flores frescas e algo mais profundo: memórias. As paredes guardavam fotografias emolduradas, livros alinhados por cores, mas o silêncio ecoava como se cada pedra tivesse testemunhado segredos que nunca saíram dali.
Romeu caminhava à frente, passos seguros no chão de mármore branco. Freud os acompanhava até a porta principal, onde dois seguranças já os esperavam. Ordens rápidas foram dadas, sem margem para discussão. Depois, Freud se afastou, deixando-os sozinhos.
— Vem — disse Romeu, e subiu a escadaria larga.
Julie o seguiu, os dedos roçando no corrimão frio. Cada passo soava como uma escolha irreversível. Quando chegaram ao corredor do andar superior, ele abriu a porta de um quarto ao lado do dele.
Era amplo, com cama king size, cortinas longas em tom de vinho, uma escrivaninha elegante e um tapete espesso. Mas o que chamou a atenção dela foi a porta divisória, discreta, que ligava o quarto ao de Romeu.
Julie arqueou as sobrancelhas, cruzando os braços.
— Uma porta de ligação? — questionou, com ironia.
— Por quê? Tem medo de que eu fuja durante a noite?
Romeu encostou no batente, braços cruzados, o olhar queimando.
— Porque está tão preocupada com a porta? — perguntou, a voz baixa, carregada de um duplo sentido perigoso.
— Ela só vai abrir se você quiser atravessar.
Ele deu um passo lento, aproximando-se, e completou com aquela confiança arrogante que a desestabilizava:
— E, se atravessar, Julie… eu com certeza estarei te esperando.
Julie sentiu o rosto corar, pela primeira vez constrangida diante dele. O coração acelerou, mas ela desviou o olhar, fingindo indiferença. Romeu percebeu, e o meio-sorriso que ele deixou escapar foi mais provocador que qualquer palavra.
— É pra sua segurança. — Ele suavizou o tom, aproximando-se o bastante para que ela sentisse o calor da respiração.
— Não hesite em me chamar.
Ele parou por um segundo, como se quisesse gravar na pele dela a certeza de que não estava brincando.
— A polícia já está investigando. — A voz dele foi mais firme, quase uma promessa.
Julie engoliu em seco, tentando se recompor. A mansão podia ter luxos e guardas, mas naquele instante ela não sabia se o maior perigo estava do lado de fora… ou do outro lado daquela porta divisória.
Romeu pousou a mão na maçaneta, preparando-se para sair.
— Agora, descanse.
As palavras soaram como ordem e cuidado ao mesmo tempo. E quando ele fechou a porta atrás de si, Julie ficou no silêncio do quarto, ouvindo o eco da própria respiração. A tatuagem em seu pulso ardia como fogo.
Ela sabia que aquelas paredes tinham segredos. E que aquela porta, cedo ou tarde, se abriria.
O vento noturno bateu nas cortinas. E Julie teve a sensação de que a mansão não guardava apenas segredos antigos, mas também olhos invisíveis observando cada movimento dela.