Olhares e provocações que queimam em silêncio.
O prédio respirava alerta. Portas magnéticas travadas, homens de terno escuro no corredor, o bip dos cartões ecoando como metronome de guerra. A luz fria das lâmpadas fazia o mármore parecer gelo. Eu avancei com a pasta contra o peito, a borboleta no meu pulso quentinha dentro da manga, como se tinta pudesse pressentir perigo.
Davi me viu e engoliu em seco.
— A segurança foi reforçada, Julie.
— Percebi — respondi, sem diminuir o passo.
Romeu emergiu do elevador privativo como uma sentença. Terno preto, camisa branca, os olhos em aço. Ele não precisava falar para o ambiente obedecer, mas falou mesmo assim e a ordem veio baixa, limpa, irrecusável:
— A partir de hoje, você não vai pra casa sozinha.
Parei. Um segundo silêncio, e meu sangue fez barulho.
— E quem vai me levar? — ergui o queixo.
— Eu — ele disse.
— E você vai acompanhada do meu segurança. Freud.
O homem apareceu às nossas costas, como se já estivesse na cena antes de ser chamado pelo nome. Alto, ombros largos, barba por fazer, uma cicatriz discreta na sobrancelha. Olhar calmo de quem aprendeu a identificar ameaça pela respiração. Ex-militar. Corpo de muro. Voz que não precisa de volume para ser comando.
— À disposição — disse, simples.
Olhei de Romeu para Freud, de Freud para Romeu. A insolência subiu à boca como reflexo.
— Você não manda em mim.
Ele deu um passo, tão perto que senti o perfume dele: vetiver, intenso e algo escuro; invadir meu espaço. O olhar, direto. A voz, morna e perigosa.
— Eu não mando. Eu protejo.
— Proteção não é algema — retruquei.
— Só vira algema quando você tenta fugir — ele devolveu, sem piscar.
— E hoje eu quero que você aprenda a ficar.
Freud acompanhou a troca como um médico observa febre: atento, sem se meter. Romeu inclinou o rosto um centímetro. A pele do meu braço ardia sob a manga. A sala, por fora, seguiu funcionando; por dentro, dois corpos e uma regra velha testam a elasticidade do ar.
— Elevador — Romeu disse por fim, cedendo espaço com o braço.
— Agora.
Entrei. Ele entrou. Freud encostou os dedos no painel para travar o acesso externo. As portas se fecharam como pálpebras pesadas. O mundo virou um retângulo de aço, espelho por todos os lados. Eu me vi: cabelo preso, boca firme, olhos que fingem não tremer. Vi também o reflexo dele: grande, contido e em fogo baixo. O elevador desceu e, com ele, a minha desculpa favorita: “é só trabalho”.
— Você gosta desse silêncio? — perguntei, sem olhar.
— Gosto do que cabe dentro dele — Romeu respondeu.
O silêncio nos coube inteiro. E coube mais: meus pelos do braço acordados, a vontade boba de morder o próprio lábio, o rastro de calor onde o perfume dele passava. A borboleta fez cócegas sob a manga. Química não pede licença. Acende, e pronto.
A garagem nos recebeu com seu cheiro metálico de gasolina e chuva antiga. Dois SUVs pretos nos esperavam, discretos como panteras encostadas na sombra. Freud abriu a porta traseira. Eu parei. Romeu já estava a meio caminho do banco quando se virou, como se lembrasse de um protocolo particular.
— Cinto — ele disse.
— Sei usar — respondi, seca.
Ele se aproximou. O toque não veio. Veio a distância exata de um toque prestes a acontecer. O cinto deslizou pelo meu peito até o encaixe, e aquele clique pequeno me atravessou como um beijo que não aconteceu. Fiquei imóvel, consciente de cada centímetro de pele. O rosto dele, perto o suficiente para que eu contasse os cílios. O ar, morno, dividido entre nós.
— Assim — murmurou.
Freud tomou o banco da frente, o rádio preso no ombro.
— Alfa-um em movimento — informou, sem drama.
A cidade subiu à superfície, cobrindo-se de néon e pressa. O carro avançou com o cuidado de quem escolta algo que não pode quebrar. Romeu ao meu lado, o corpo inteiro dizendo que proteção também é uma forma de posse. Eu virei o rosto pela janela. São Paulo brilhava como faca.
— Você acha que pode controlar tudo, Romeu? — quebrei o vidro do silêncio com a minha voz.
— Não — ele disse, honesto.
— Só o que me importa.
— E eu?
— Você me importa.
A frase caiu entre nós como um copo que não se quebra, mas deixa a marca d’água na mesa. Eu respirei. Ele não. Ou soube fingir melhor.
— Eu sei fugir — tentei de novo.
— Eu sei buscar — devolveu, sem elevar o tom. — E, quando for preciso, sei ficar do seu lado até o sol nascer.
Freud falou baixo ao rádio, olhos no retrovisor.
— Rota limpa. Sem cauda.
— Está ouvindo? — Romeu virou o rosto em minha direção.
— Eu cuido.
— Cuidado demais sufoca — sussurrei.
— Então me diga onde dói — ele pediu, e o pedido tomou corpo na minha nuca.
— E eu aprendo o peso certo.
A cidade correu mais um quarteirão e abriu em frente ao meu prédio. Luzes da portaria, gente entrando com sacolas, um cachorro ansioso na guia. Normalidade performada. Ainda assim, Freud foi o primeiro a sair. Postou-se entre o carro e a calçada. O rádio criou de novo.
— Senhorita Avelar,...— o porteiro disse quando me viu.
—... deixaram isso aqui há pouco. Um envelope pardo. Não quis subir sem avisar.
Meu estômago recolheu as asas. Romeu pegou o envelope antes de mim. Mãos firmes. Olhos frios. O selo era simples, sem remetente. No canto, um recorte de papel em forma de asa. Freud posicionou o corpo de maneira a me deixar atrás dele e de Romeu, como uma sombra que sabe ler direções de bala.
— Abra — eu disse, porque coragem não faz barulho.
Romeu quebrou o lacre com o polegar. De dentro, escorregou uma fotografia gasta: eu, criança, vestida de borboleta. Asas de tecido, sorriso de quem acredita. Atrás da foto, uma frase escrita em letras retas, masculinas: “Sem asas, cai. Com asas, eu corto.”
O mundo encolheu ao tamanho de uma palavra. Freud já falava com alguém no rádio, código rápido, endereços, placas. Romeu virou a foto para mim com cuidado de quem entrega uma prova e uma promessa.
— Isso acaba hoje — disse. Não foi ameaça. Foi voto.
Eu olhei para ele. Não para a fotografia. Para ele. A química, que um minuto antes era calor de pele, virou outra coisa: chama reta, dirigível. Me deu vontade de dizer sim a tudo o que fosse proteção. Me deu vontade de dizer não a tudo o que fosse algema. A borboleta no pulso ardeu; não de medo, de decisão.
— Subimos — Romeu determinou.
— Freud, perímetro.
— Copiado.
Entramos na portaria. O elevador engoliu a gente com seu brilho impessoal. Romeu apertou o meu andar. Eu apertei a respiração. As portas fecharam. Dentro daquele retângulo de aço, a cidade ficou do lado de fora, e restamos nós dois e o objeto antigo entre nós: vontade.
Ele me olhou, e o olhar tinha a temperatura exata de um incêndio que se comportava.
— Diga que confia em mim.
A coragem me empurrou um passo para perto. Senti o calor do corpo dele como um campo elétrico.
— Eu confio — respondi.
— Mas não me possua com isso.
— Eu nunca te possuiria com medo — ele disse. — Só com escolha.
O ding do elevador cortou a cena ao meio. A porta abriu. O corredor estava quieto, tapete grosso, luz amarela. Freud saiu antes, o corpo à frente, a mão aberta pedindo paciência. Seguimos. Cada passo parecia escrito por alguém que gosta de suspense.
Meu apartamento esperava no final, a chave já na minha mão quando vi. Primeiro, um brilho discreto sobre o capacho. Depois, o desenho: pó preto de grafite desenhando uma borboleta no chão, asas perfeitas, corpo fino, antenas em flecha.
Freud ergueu o braço, barrando meu impulso.
— Não toque.
Romeu deu um passo. O olhar dele, de aço. A voz, uma sombra:
— Traga a luz do celular, Freud.
A lanterna clareou a linha do desenho. Havia algo no centro. Um corte pequeno na madeira da porta, fino como lâmina. Um risco que não estava lá de manhã. Um recado com cheiro de respiração perto demais.
A borboleta no meu pulso queimou.
— Ele esteve aqui — sussurrei.
Romeu me olhou e no olhar dele couberam juramento, raiva e um desejo tão intenso que quase fez barulho.
— E agora estamos nós — disse, e tirou do bolso um chaveiro novo.
— Três fechaduras novas. Hoje.
Freud virou o rosto, ouvindo algo no rádio.
— Senhor, há uma câmera no corredor vizinho. Movimento registrado há vinte minutos.
Romeu tomou minha chave, encostou a mão na minha: quente, inteira e a frase que não cabia mais na minha boca explodiu em mim como fogo contido:
A coragem dele me excita. O olhar dele me incendeia.
Ele girou a primeira fechadura.
— Entre comigo, Julie.
Eu entrei. E, do lado de dentro, antes que a porta batesse, uma sombra passou sob a fresta, rápida como um sussurro. Um papel fino escorregou para dentro.
Freud já avançava. Romeu já estendia a mão.
Eu já sabia!