Episódio 1:Prólogo
Antonela Ribas
O sonho era doce.
Ricardo sorria para mim na varanda de casa, o sol batendo em seus cabelos castanhos enquanto Lucas, ainda pequeno, corria pelo quintal com a bola. Eu ria, abraçada ao meu marido, acreditando que a vida perfeita jamais teria fim.
Mas o sonho sempre acaba do mesmo jeito: o riso se apaga, meu peito aperta, e o vazio volta para me engolir.
Acordei assustada, lágrimas queimando meus olhos. O lençol amarrotado grudava em minha pele úmida de suor, e o travesseiro estava encharcado. O silêncio do quarto me sufocava.
Levantei devagar, caminhei até a janela e abri as cortinas. As luzes da cidade brilhavam, indiferentes à minha dor.
— Por que me deixou, Ricardo? — sussurrei, apoiando a testa no vidro frio. — Você não devia ter me abandonado...
Chorei até minhas pernas perderem a força, até não ter mais fôlego. Voltei para a cama, mas o sono não veio. O relógio parecia zombar de mim a cada minuto.
Quando o despertador tocou, levantei como um robô. Preparei o café, chamei Lucas, ajudei-o a se arrumar. Beijei sua testa, tentando sorrir mesmo com o coração em pedaços.
No trabalho, a rotina seguia implacável. Funcionários entrando e saindo, o cheiro de café e perfume caro. E, claro, a presença dele.
Heitor Veiga. O homem que fazia todas suspirarem. O CEO poderoso, imponente, com aquela voz grave que dominava qualquer sala. Ele entrou, lançou um olhar rápido em minha direção e me cumprimentou antes de seguir para a própria sala.
Engoli seco. Ele não fazia ideia do quanto minha vida estava desmoronando.
À tarde, o telefone tocou. O som cortou o ar como uma lâmina. Atendi.
— Dona Antonela? É da escola. Seu filho não está bem, precisamos que venha imediatamente.
Meu coração disparou. Corri até a sala do chefe.
— Senhor Veiga... — minha voz saiu mais como um sussurro — Preciso sair por um momento. É... é algo urgente.
Heitor ergueu o olhar do computador, sério.
— Vá.
Saí às pressas, a garganta travada. Na escola, encontrei meu filho pálido, quase sem forças. Levei-o direto para o hospital, a mente um turbilhão.
Horas depois, o médico foi direto, a sentença caiu sobre mim:
— Seu filho precisa de uma cirurgia urgente. O valor é de duzentos mil reais.
Duzentos mil.
O chão sumiu. m*l conseguia respirar.
— Eu... eu não tenho esse dinheiro... — minha voz saiu como um sussurro, quebrada.
Liguei para Josy, minha amiga, pedindo que viesse ficar com Lucas. Assim que ela chegou, corri até a casa dos meus sogros. Contei tudo, implorei por ajuda.
Mas recebi apenas veneno.
— A culpa pela morte do nosso filho foi sua, Antonela. Agora quer usar nosso neto para arrancar dinheiro de nós? — minha sogra cuspiu, fria. — Saia da nossa casa.
Humilhada, saí em lágrimas. Tentei no banco. Mais portas fechadas, mais negativas.
Quando voltei ao hospital, meu peito estava em frangalhos.
Olhei para Lucas dormindo na maca, tão frágil, tão inocente, e chorei de novo.
Naquele instante, percebi que só restava uma última opção.
Uma que poderia destruir tudo o que eu era.