A maratona começou às oito da manhã. Como não tinha ninguém para substituí-la, ela mesma teve que fazer a live. Marisa realizou a transmissão sem conseguir enxergar nada na rolagem, foram as administradoras que a ajudaram a distribuir os presentes para as pessoas. Ela enviava os presentes sem conseguir enxergar ninguém, mas no final, deu tudo certo.
Sempre na rolagem, as pessoas falavam: "Marisa, quando terminar a live, vá descansar." E foi isso que ela fez. Assim que a transmissão terminou, ela desligou a câmera e, exausta, apagou. Não conseguiu comer nada naquele dia. Fumou um cigarro e dormiu novamente.
À noite, ela sentiu uma vontade enorme de comer pastel, mas estava sem dinheiro, e não tinha trocado as moedas ainda . Pediu dois pastéis grandes fiado na pizzaria onde o filho trabalhava. Só conseguiu comer um pedaço de um dele. Aquele poderia ser o seu último pastel.
No dia seguinte, um domingo, ela acordou com uma dor terrível, tão forte que não deu tempo nem de tomar um copo d’água. Ela se levantou, mas logo sentiu uma pressão forte no tórax, que ia até o pulmão, no lado esquerdo, debaixo do peito, de trás para frente. Uma dor esmagadora.
Marisa sempre dormia com o celular por perto por causa de sua mãe, que tem asma crônica. Atenta a esses detalhes para qualquer emergência, ela pegou o celular e ligou para o SAMU. Por ser ela quem estava na situação, e não a mãe, o socorro demorou.
Percebendo que ia apagar, ela pediu para a filha, que era menor de idade, chamar uma vizinha. Sentia-se tonta, como se um sono profundo a estivesse vencendo. Não aguentou e encostou-se de lado, buscando uma posição que anestesiasse a dor, até o SAMU chegar.
Ela acendeu um cigarro, o que poderia ter sido seu último. Naquele momento, viu que o socorro teria dificuldade para levantá-la da cama. Foi a mãe quem apagou o cigarro, impedindo que acontecesse um incêndio. Marisa tentava se anestesiar da dor de qualquer maneira.
A vizinha chegou, mas também sofria com problemas nos nervos. Marisa teve que se acalmar para acalmar a mãe e a vizinha. "Mãe, eu estou bem, só vou ter que ir para o hospital", disse a todo momento para tranquilizá-las.
Com um esforço enorme, ela se arrastou para o sofá. Sabia que as pessoas teriam dificuldade para tirá-la da cama, então continuou buscando uma posição de lado para amenizar a dor. Não sabia onde o cigarro tinha parado, mas foi a mãe quem o pegou de sua mão.
Quando o SAMU finalmente chegou, ela ouviu a voz de um senhor. Na tentativa de colocá-la na maca, a dor foi tão intensa que ela apagou novamente. "Não, não, não", ela sussurrou, e então, perdeu a consciência. Sua saturação estava muito baixa, foi o que ela ouviu eles dizerem.
Ela acordava e apagava como flashes. Em um desses momentos, ela viu os pés das pessoas do SAMU, sem conseguir enxergar mais nada. Uma das pessoas usava uma calça azul, e a outra, uma laranja, a mesma cor que o irmão dela usava para trabalhar na BR.
Marisa só ouviu o estalo da maca, e logo em seguida, disseram que ela gritou. Depois disso, ela apagou de novo.
Quando acordou, foi com outro flash. Olhou para um canto e viu que estava no hospital. Viu o oxigênio dela, na bolinha do 15, no topo, indicando que já estava nas últimas. E então, apagou novamente.
Enquanto estava inconsciente, ela ouviu vozes da equipe de enfermagem, um homem e uma mulher, dizendo: "Não pode faltar oxigênio dela! Tem que trocar, porque o dela já está acabando." Eles estavam lutando para reanimá-la.