capítulo 2

2258 Words
Helena O toque do celular interrompe meu café da manhã antes mesmo que eu consiga terminar a primeira fatia de pão. Olho para a tela e vejo um número desconhecido. Por alguns segundos, penso em deixar tocar até cair na caixa postal. Quase nunca atendo chamadas de números que não conheço. Na maioria das vezes são cobranças, propagandas ou ligações automáticas. Ainda assim, alguma coisa me faz deslizar o dedo sobre a tela. — Alô? — Bom dia. Estou falando com a senhorita Helena Duarte? A voz feminina é calma, educada e transmite uma segurança difícil de ignorar. — Sim. Sou eu. — Que bom. Aqui é a Beatriz, da EuroDream Recruitment. Nós nos encontramos ontem na cafeteria onde você trabalha. Não sei se lembra de mim. Sinto um arrepio percorrer meus braços. Automaticamente endireito a postura na cadeira e lanço um olhar para minha mãe, que continua costurando na sala. — Claro que lembro. Ela ri discretamente do outro lado da linha. — Fico feliz. Na verdade, estou ligando porque reconheci seu nome entre as inscrições que chegaram pelo site esta madrugada. Quando vi sua fotografia, lembrei imediatamente de você. Meu coração acelera de um jeito impossível de controlar. — Eu... fiz a inscrição ontem à noite. — Eu percebi. Mas preciso confessar uma curiosidade. Por que você decidiu preencher todo o formulário no site em vez de simplesmente ligar para o número que entreguei no cartão? Teria sido muito mais rápido. Eu mesma poderia iniciar seu processo de seleção sem que você precisasse enfrentar toda aquela burocracia. Olho para o cartão que continua sobre a mesa da cozinha e sinto meu rosto esquentar. — Achei que seria mais profissional fazer tudo pelo site. Também quis pesquisar a empresa antes de tomar qualquer decisão. — E fez muito bem. A resposta vem imediata, sem qualquer sinal de irritação. Pelo contrário. A voz dela transmite aprovação. — É exatamente esse tipo de postura que esperamos dos nossos candidatos. Pessoas responsáveis não aceitam propostas sem verificar se a empresa é séria. Se todos fossem tão cuidadosos quanto você, existiriam muito menos vítimas de golpes. Sorrio involuntariamente. A preocupação da minha mãe ainda ecoa na minha cabeça desde a noite anterior, e ouvir aquilo me traz um alívio inesperado. Pela primeira vez desde que recebo o cartão, sinto que talvez eu realmente esteja lidando com profissionais. — Então... minha inscrição chegou certinha? — Chegou, sim. Inclusive, seu currículo chamou bastante atenção. Seu inglês está acima da média para a vaga de recepcionista e seu histórico profissional demonstra estabilidade. Isso conta muitos pontos durante a análise. Levo a mão até o peito, tentando controlar a ansiedade. Nunca imaginei que alguém pudesse elogiar um currículo tão simples quanto o meu. — Sério? — Muito sério. Na verdade, estou adiantando essa ligação justamente porque acredito que você tenha um perfil interessante. Ainda faltam algumas etapas, é claro, mas gostaria de convidá-la para uma entrevista presencial no nosso escritório temporário aqui no Rio de Janeiro. Assim conseguimos explicar melhor como funciona o programa de trabalho, esclarecer suas dúvidas e conhecer você pessoalmente. Olho novamente para minha mãe. Ela continua concentrada na máquina de costura, completamente alheia à conversa, e por um instante sinto vontade de colocar a ligação no viva-voz para que ela também escute aquela mulher falando com tanta educação. — Quando seria essa entrevista? Ouço o som de algumas teclas sendo pressionadas. — Amanhã, às dez horas da manhã. O endereço será enviado por mensagem assim que encerrarmos a ligação. Não precisa levar nada além dos documentos pessoais e de uma cópia do currículo. O restante da documentação será solicitado apenas aos candidatos aprovados. Concordo imediatamente. Minha voz sai mais firme do que eu esperava, embora minhas mãos continuem trêmulas de nervosismo. — Eu estarei lá. — Ótimo, Helena. Tenho um bom pressentimento em relação a você. Aproveite o restante do seu dia e, se surgir qualquer dúvida, desta vez não hesite em me ligar diretamente. Meu número é justamente o que está no cartão. Prometo que respondo o mais rápido possível. Dou uma risada baixa, um pouco envergonhada. — Pode deixar. Acho que agora aprendi. Ela se despede com gentileza e encerra a chamada. Permaneço alguns segundos olhando para a tela apagada do celular antes de respirar profundamente. Uma sensação boa aquece meu peito. Não é apenas a possibilidade de trabalhar na Europa. É a impressão de que alguém finalmente enxerga potencial em mim. Pela primeira vez, uma porta parece realmente se abrir, e tudo o que preciso fazer é atravessá-la. Ainda seguro o celular por alguns instantes antes de me levantar da cadeira. Um sorriso insiste em permanecer no meu rosto enquanto relembro cada palavra da ligação. Minha mãe percebe a mudança no meu semblante e arqueia uma sobrancelha, curiosa, mas não pergunta nada. Ela me conhece o suficiente para saber que, quando estou feliz, acabo contando tudo antes mesmo que alguém precise perguntar. Depois de explicar como a conversa aconteceu e mostrar a mensagem com o endereço da entrevista, ela apenas balança a cabeça, desejando boa sorte, mas reforçando, pela terceira vez desde a noite anterior, que eu mantenha os olhos abertos e não entregue nenhum documento sem ler tudo com atenção. Prometo que vou tomar cuidado, embora ache que ela esteja exagerando um pouco. Como é minha folga, aproveito para fazer as compras da semana. Pego a ecobag pendurada atrás da porta, confiro o dinheiro separado dentro da carteira e saio de casa pouco antes do meio-dia. O calor parece mais forte do que nos últimos dias. As ruas do bairro estão cheias de crianças brincando, vendedores ambulantes empurrando carrinhos de picolé e vizinhas conversando nas calçadas como se o tempo passasse mais devagar por ali. Conheço praticamente todo mundo naquela comunidade. Cresci correndo por aquelas vielas, brincando de pique-esconde entre os becos e voltando para casa apenas quando minha mãe aparecia no portão gritando meu nome. Mesmo depois de adulta, continuo cumprimentando cada rosto conhecido pelo caminho. Dona Marta pergunta da minha mãe, seu Joaquim reclama do preço do gás e as crianças continuam correndo atrás de uma bola já quase sem couro, exatamente como eu fazia alguns anos atrás. Estou quase chegando ao mercadinho quando escuto uma buzina curta atrás de mim. — Ô, Helena! Viro o rosto imediatamente. Um sorriso escapa dos meus lábios ao reconhecer meu primo sentado sobre uma motocicleta preta. Corrente prateada no pescoço, boné virado para trás, bermuda larga e um rádio preso ao peito. Faz anos que ele deixou de ser apenas o Vinícius da família. Dentro da comunidade, quase ninguém o chama pelo nome. — Olha quem resolveu aparecer... — digo, cruzando os braços. Ele sorri daquele jeito convencido de sempre. — Respeita o VK, prima. Reviro os olhos e caminho até ele. — Pra mim você continua sendo o Vinícius que morria de medo de barata. Ele leva a mão ao peito, fingindo indignação. — Aí tu quebra minha moral. Dou risada e o abraço rapidamente. Apesar do rumo que escolheu para a vida, continuo enxergando o mesmo menino que dividia comigo o último pedaço de bolo nos aniversários da vó e que apanhava das tias sempre que voltava sujo de lama depois de jogar bola na chuva. — Sumido... Nem lembra mais que tem família? — Trabalho, né. — Trabalho? — repito, arqueando uma sobrancelha. Ele apenas dá de ombros. Os dois sabemos que tipo de “trabalho” é aquele. Ficamos alguns segundos conversando sobre assuntos aleatórios até que resolvo provocá-lo, como faço desde que ele entrou para o movimento. — E aí... quando é que tu vai sair dessa vida? O sorriso desaparece do rosto dele por um instante. Vinícius olha para o movimento da rua antes de voltar os olhos para mim. — Queria te responder que semana que vem... ou mês que vem... Mas a verdade é que não é tão simples assim. Permaneço em silêncio. Ele suspira e apoia os cotovelos sobre o guidão da moto. — Tu sabe como é. Quem cresce aqui não escolhe entre o certo e o errado. Escolhe entre as poucas portas que aparecem. Uns conseguem estudar. Outros arrumam emprego. Tem gente que dá sorte. Eu... não tive muitas opções. As palavras dele pesam mais do que eu gostaria. Conheço aquela história desde criança. Conheço as dificuldades da família dele, as noites em que faltava comida e as vezes em que precisou abandonar a escola para ajudar em casa. Ainda assim, meu coração aperta ao imaginar que aquele caminho possa terminar da pior forma possível. — Mesmo assim... eu queria ver você fazendo outra coisa. Ele sorri novamente, mas agora existe um cansaço escondido atrás daquele sorriso. — Eu sei. Estende a mão e bagunça meu cabelo, exatamente como fazia quando éramos pequenos. — Mas chega de falar de mim. E tu? Ouvi dizer que tá querendo abandonar nós tudo e virar gringa. Solto uma risada sem humor, fingindo indignação. — A notícia corre rápido por aqui, hein? — Aqui, até pensamento vira fofoca. Acabo rindo mais alto, e por alguns minutos esqueço completamente qualquer preocupação. — Então é verdade mesmo? — pergunta, apoiando os antebraços sobre o guidão da motocicleta. — Tu vai pra Europa? Um sorriso espontâneo desponta em meus lábios enquanto confirmo com um discreto movimento de cabeça. — Ainda não. Amanhã tenho uma entrevista. Se tudo correr bem, consigo a vaga. — Fazer o quê? — Recepcionista de hotel. Os lábios dele se arqueiam em um sorriso divertido. — Chique, hein? Lanço-lhe um olhar enviesado. — Nem começa. Uma breve gargalhada escapa dele. — Dessa vez eu tô falando sério. Daqui a pouco tu tá falando inglês, francês... essas coisas de gente importante. Inclino a cabeça, divertindo-me com a provocação. — Francês eu nem sei por onde começar. Inglês eu sei um pouco. O riso dele acompanha o meu sorriso, e, por alguns instantes, tudo volta a ser como antes. Não existe movimento, preocupação ou futuro incerto. Somos apenas dois primos conversando no meio da rua, como fazíamos quando passávamos as tardes na casa da nossa avó, disputando o último pedaço de pudim e inventando brincadeiras para espantar o tédio das férias. — E a tia? — pergunta. — Trabalhando demais, como sempre. Se eu conseguir essa vaga, a primeira coisa que faço é convencer aquela mulher a descansar um pouco. Ela passou a vida inteira cuidando de mim. Está na hora de cuidar dela. A expressão descontraída dele perde força por um breve instante. — Ela merece. Assinto lentamente. — Merece muito. O silêncio se acomoda entre nós sem causar qualquer desconforto. Há momentos em que as palavras simplesmente deixam de ser necessárias. — Tu merece também, Helena. Meu cenho se estreita de leve. — Mereço o quê? Ele sustenta meu olhar por alguns segundos antes de responder. — Uma vida melhor. A resposta me desarma. Um sorriso discreto nasce em meus lábios. — Você também merece. Uma baixa gargalhada abandona seus lábios, mas ela dura pouco. — A diferença é que tu ainda acredita nessas coisas. Inclino a cabeça, intrigada. — Nessas coisas? — Em sonho. As palavras permanecem suspensas entre nós. Instintivamente, volto minha atenção para a rua ao redor. As casas simples, os fios elétricos cruzando o céu, o mercadinho da esquina, as crianças continuam correndo atrás de uma bola quase sem ar... Crescemos exatamente ali. Dividimos as mesmas calçadas, os mesmos almoços de domingo e as mesmas dificuldades. Em algum momento, porém, nossos caminhos seguiram direções completamente diferentes. — Eu acredito porque preciso acreditar — respondo, quase num sussurro. — Se eu deixar de sonhar, acordo todos os dias para viver exatamente a mesma vida. E eu amo a nossa casa... amo a minha mãe... mas também quero conhecer o mundo. Quero descobrir até onde consigo chegar. Ele me observa em silêncio. Seu semblante parece procurar alguma resposta escondida em meu rosto. Pouco depois, um sorriso discreto reaparece. — Continua sendo a mesma Helena. — Isso é um elogio ou uma crítica? — Um elogio. Ele gira a chave na ignição da motocicleta, mas permanece parado. — Só toma cuidado com esse pessoal oferecendo facilidade demais. O mundo não costuma ser generoso sem querer alguma coisa em troca. Uma expressão divertida suaviza meu rosto. — Até você falando isso? — Principalmente eu. Há algo diferente em sua voz. Não é medo. É experiência. Meu sorriso perde um pouco da leveza. — Eu vou tomar cuidado. Ele continua me encarando como se avaliasse a sinceridade da minha resposta. — Promete? Faço um discreto gesto afirmativo. — Prometo. Só então ele parece satisfeito. — Qualquer coisa... qualquer coisa mesmo... me liga. Aponta discretamente para o próprio bolso. — Tu ainda tem meu número? — Tenho. — Então usa. Meu sorriso retorna. — Pode deixar. Ele ergue a mão em despedida e acelera devagar. Permaneço observando a motocicleta desaparecer no fim da rua até que o ronco do motor se mistura aos sons da comunidade. Somente então retomo o caminho até o mercadinho. Enquanto empurro o carrinho entre as prateleiras, comparo preços, escolho as frutas com mais cuidado e faço pequenas contas de cabeça para não ultrapassar o dinheiro separado pela minha mãe. É uma rotina que conheço de cor, mas hoje tudo parece diferente. Pela primeira vez, permito-me imaginar que aquele talvez seja um dos últimos meses vivendo exatamente daquela maneira. A simples possibilidade faz meu coração bater um pouco mais forte. Deposito um pacote de café no carrinho e um sorriso sereno aquece meu rosto. A entrevista acontece amanhã.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD