CAPÍTULO 05 — ARIEL

2986 Words
Me aproveito dos travesseiros que me rodeiam, me espreguiçando sobre eles e a cama mais confortável que já vi. Pensando bem, talvez eu me acostume rápido com isso. Uma noite e eu já me sinto em casa, como se não quisesse deixar isso nunca na vida. Ontem depois do Henry me mostrar um ótimo cantinho secreto - nem tão secreto - ele me mostrou qual seria o meu quarto, depois o dele caso eu precisasse de algo. É uma boa eu saber onde ele está em meio a tantos, vai que eu erro de quarto e encontro o Justin Bieber dormindo. Seu quarto é bem perto do meu, para meu azar, porque minha mente me relembra que Henry LeBlanc está dormindo a apenas alguns metros de mim. Eu amei tudo, a casa, o quarto, a piscina. Até me dou ao luxo de pensar que finalmente a vida vai melhorar para mim. Eu vivi me acostumando a não criar expectativas mas é impossível não esperar nada agora. — Ariel? — Ouço a voz inconfundível de Henry, junto com algumas batidas na porta. — Pode entrar! — Aceito, já com um sorriso travesso nos lábios. Quando ele entra, toma um susto digno de pegadinha de programa de Tv. Henry se vira rapidamente ao me ver jogada apenas de calcinha e sutiã na cama. É um conjuntinho preto, não muito pequeno, a calcinha parece um shortinho e o sutiã não é de renda. De qualquer forma, meu corpo está bem exposto. — Você disse que eu podia entrar… — Rosna, ainda de costas para mim. — Sim, você pode. Qual o problema? — Debocho. — Você está praticamente nua na frente de um desconhecido. É uma besteira para você? — Ele parece nervoso, consigo ver seus músculos aumentando de tamanho. — E você nunca viu uma mulher de roupa íntima? Vai dizer que é virgem? — Brinco para completar o nervoso dele, sua pele pálida começa a se tornar vermelha de ódio. — Cubra-se, Ariel. — Ordena. — Mesmo com esse calor? — Apesar de insistir, eu fico de pé e cubro meu torço com uma camiseta de alcinha da mesma cor que meu conjuntinho. — Você já vestiu alguma coisa? — Nota minha movimentação. — Já sim, seu bobo. — Ele finalmente se vira, dessa vez, sem se assustar ao ver que ainda permaneço de calcinha. Seus olhos se esfriam, me encarando de uma forma até animalesca. Seu olhar desce inevitavelmente para minha calcinha e pernas nuas, eu claramente não consigo conter o riso satisfeito ao notar que mesmo que um pouco, Henry está atraído por mim. É bom para o ego de uma pessoa. — Bom dia pra você também. Eu gostaria de tomar café agora, se você permitir. — Rompo o silêncio. Ele sobe o olhar, me encarando de cenho franzido. — Você vai ficar andando pela casa assim, de calcinha? Sem roupa? — Porque não? Eu não estou sem roupa. — Para dar poder a minhas palavras, aproveito sua distração e passo por ele. Vou caminhando até a cozinha que me foi apresentada ontem, ele vem me seguindo logo atrás de mim como um cão de guarda. Não sei onde seus olhos estão, mas tento não pensar muito sobre isso para manter a pose e não acabar fraquejando. — Porque eu sou homem. — Se explica. — E daí? — Você é uma garota bonita, Ariel. — Deixa escapar quando chegamos em nosso destino. Viro para ele, sentindo o clima ao nosso redor tomar um lado estranho. Ele engole seco, aperta os punhos e me encara com força, como um predador enjaulado. — Você já viu, qual diferença faria se eu vestisse algo maior agora? Você… Esqueceria o que viu? — Provoco, fazendo cerrar o maxilar. Ele com certeza queria me punir agora. Sorrio, decidindo que já cutuquei demais a fera com vara curta.— Eu posso? — Me aproximo de seu armário e questiono se tenho permissão para abri-lo. — Claro! — Ele novamente começa a evitar olhar para mim. O que está acontecendo com esse homem, por Deus? Isso é praticamente um short! Se fosse um fio dental eu entendia até tanta força para evitar me olhar. Eu pego um pouco de um doce de amendoim que encontro guardado. Eu conheço o que é, mas posso me aproveitar da situação para enlouquece-lo um pouquinho mais. O homem disse que eu seria como uma filha, mas ele não olharia para uma filha assim. — Isso é doce ou salgado? — Minha pergunta força ele a me olhar, então baixo meu tronco, deixando minha b***a coberta apenas pela calcinha short disponível para olhares. Ele hesita, mas olha tentando ao máximo manter os olhos apenas no doce que aponto no armário. Mas é em vão, ele não consegue. Henry solta uma maldição quando seu olhar cai em direção a meu quadril. Ele engole seco. — Doce. — Finalmente acha a voz. — Agora você é quem está falando pouco. Qual o problema, papai? — O queijo dele cai. Sua boca se abre para me dar alguma resposta, mas ele volta atrás e se cala, dá um sorrisinho sádico e torna as feições sérias. É uma sensação de poder. — Eu não tenho o que falar. — E o que você foi falar quando foi me procurar no quarto? — Eu… é... queria te avisar que preciso sair. Tenho uma reunião agora. – Ele se distrai agora encarando a parte exposta de minha barriga quando uso o tecido da blusa para abrir a tampa do doce e acaba gaguejando. Vejo suas mãos grandes e firmes se contraindo e não evito pensar que isso é… desejo. Desejo por mim. — Você vai ficar bem aqui sozinha? — Sim, não se preocupe. — Eu estive sozinha a minha vida inteira. — Até mais então. Cuide-se, menina travessa. — Ele se despede e parece aliviado de finalmente sair de perto de mim. — Boa reunião. — Ele me olha levemente e sorri levemente, eu retribuo. Henry sai e eu fico livre para cair na gargalhada. Até fiquei com um pouco pena do desespero dele, se virando, se esforçando em não olhar para mim e lutando para manter seu controle. Eu devia me preocupar por estar provocando-o tanto assim? É como ele disse, ele é um homem e não um homem qualquer. Ele é grande, o dobro ou triplo de mim, forte como um touro, bonito como um Deus grego, tão impressionante como jamais pude ter o prazer de ver, ele não é normal. Eu deveria arriscar que ele perdesse o controle? Eu poderia aguentar tanto? Ele poderia me partir em duas com aquelas mãos, com aquele corpo. Eu não sei se meu corpo é capaz de suportar o dele. Se perguntassem “gostosuras ou travessuras?” Ele teria os dois. Depois de um café da manhã com fruta e suco além do doce, eu não tenho muito o que fazer. A casa é grande demais e fica vazia sem o Henry. Ele acaba de sair e eu não vejo a hora dele voltar pra casa. De poder olhar seus olhos azuis, seus cabelos negros que parecem mais macios que a própria seda, de ver aquele sorrisinho sarcástico e ao mesmo tempo fofo dele. Vou até a sala e decido procurar um filme para passar o tempo, ele tem canal fechado na sua perfeita “TV/cinema”, eu posso chamar assim pelo tamanho. Eu deito no sofá e passo pelos canais a procura de algo interessante, até encontrar o filme “Um dia.” Eu já assisti algumas vezes em meu celular, tenho uma certa paixão pela melancolia nele. É meio trágico, eu acho, mas ensina algumas lições importantes como por exemplo a fragilidade da vida. Podemos estar aqui agora, daqui a uma hora não, isso é tão louco. Mostra que não vale a pena insistir em algo que não queremos de verdade, temos que aproveitar o tempo para insistir no que realmente queremos antes que seja tarde. Temos que viver no pleno sentido da palavra, por pior que seja a vida. Ela é muito melhor que a morte. Temos que correr atrás do que nos faz bem, do que nos diverte, do que nos desperta, não do que nos acomoda. O filme é bem longo, parece uma eternidade que estou aqui, mas é bom me sentir em outro universo, um que não seja o meu. Depois de um tempo o filme acaba e eu subo para o meu quarto, é melhor eu tomar um banho antes que o Sr. Gostoso volte para casa. Eu tomo um banho quentinho numa banheira maravilhosa que tem no banheiro da minha suíte, chega a ser estranho dizer isso, “minha suíte”. Eu demoro até ficar parecendo um repolho enrugado mas não resisto, é um pecado não demorar aqui. Quando saio visto uma mini saia e uma camiseta leve como roupa, meus cabelos eu não penteio muito, gosto deles selvagens e não lambidos. Como são muito lisos, se eu passar o pente, ele fica escorrido. Então eu apenas desembaraço com os dedos e os deixo secar naturalmente. Logo desço e vou procurar algo para comer, acho no congelador umas pizzas para micro-ondas e minha barriga agradece. Eu tiro a pizza e ponho no pequeno forno e aperto para ligar, pelo menos eu achava que esse era o botão certo, mas não acontece nada. Aperto de novo, nada. Aperto outro, nada. Aperto a droga de todos os botões e nada acontece. Eu mexo em tudo, tentando fazer o micro-ondas funcionar mas sem sucesso. — Que diabos! — Grito quase batendo no forno, mas não o faço com medo de quebrar esse troço e ter que pagar. Nem com a minha vida eu conseguiria. É quando ouço uma tosse falsa. Fecho os olhos, amaldiçoando esse momento. Viro assustada já sabendo de quem se trata e confirmo dando de cara com Henry, que me analisava. Ele sorri para mim, só esticando os seus magníficos lábios num sorriso encantador como jamais alguém havia dado a mim. Seus olhos parecem soltar lasers e me queimar. — Está apreciando o show? — Eu recupero meu juízo normal. — Com certeza. Você e o micro-ondas são quase uma família. — Aí está a ironia de sempre. Cada vez que ele se aproxima de mim é como se meu coração tivesse sendo espremido, como se sugasse todo meu fôlego. Que sensação é essa? Ele aperta um botão e automaticamente o forno funciona. Oh, minha nossa. — Esse aí eu não tinha tentado. — Eu admito, colocando um sorriso amarelo no rosto. — Eu percebi isso muito bem. — Solta, me fazendo revirar os olhos. — Você me dá metade da sua pizza? Eu gostaria de acompanhá-la. — Você come essas coisas? — Me surpreendo. — O que você acha que eu como, Ariel? — Engulo o seco, sem conseguir manter a pose ao ouvir sua frase com sentido ambíguo. Aperto minhas pernas uma na outra com os olhos maiores que meu rosto. — Bom... Eu não sei. — Ele sorri com minha resposta, adorando minhas reações a ele. Com certeza isso é vingança por hoje de manhã. — Você ficou bem aqui? — Ele desconversa, como se não tivesse acabado de adormecer minhas pernas. — Sua casa é ótima. — Não foi isso que eu perguntei. — Me senti meio sozinha nesse lugar enorme. Quer dizer… Sem você. Ou melhor, eu sempre estive sozinha, mas… — Me enrolo. — Você não estuda ou trabalha? — Eu terminei o segundo grau, mas ainda não consegui um emprego apenas com esse nível escolar. Está difícil conseguir trabalho. — Abaixo minha cabeça. É meio desconcertante falar disso com ele, que dirige um império. — O que você gosta? — Subo minha cabeça, encarando-o de uma forma surpresa. Ninguém nunca esteve interessado no que eu gosto esteve antes. Nem mesmo o Daniel, que conheço desde criança e hoje é meu companheiro. — Eu não sei. — Desconverso, não quero ter que abrir para ele qual é meu sonho. As vezes é tão patético. — Não minta para mim. — É firme, me olhando como se já tivesse encontrado a resposta em meus olhos. — Bom… Há um tempo atrás eu tive o desejo de ser modelo fotográfica, bem ilusório, mas tive. — Confesso. — E porque não foi? — Para minha felizmente, o micro-ondas apita e me sinto libertada de precisar responder. A pizza está pronta. — Finalmente. Vamos comer. — Eu tento desconversar, colocando um sorriso amarelo no rosto. Vou até o forno e tiro a pizza de lá. — Não mude de assunto. Porque você não foi modelo? — Eu não sei, nunca deu certo. — Tento disfarçar o abatimento enquanto pego dois pratos e coloco a pizza para nós. Muito mais pra ele é claro, antes de entrega-lo e sentar a mesa junto com ele. — Ou talvez você não tentou da maneira certa. — Eu tentei das únicas maneiras que eu tinha. — Nós podemos comer agora? Estou mesmo com fome. — Felizmente, ele fica em silêncio e aceita. Nós devoramos a pizza, junto com refrigerantes que ele tira da geladeira. Eu não sabia que o Henry comia comida de gente normal, coisas simples como pizza e refrigerante. Para mim ele só ingeria caviar, camarão, vinho e coisas saudáveis. — Melhor agora? — Pergunta despreocupado. — Muito. Você tem algo alcoólico? Eu realmente estou precisando. — Peço. — Você quer beber? — Sim. — Você ainda é uma criança, Ariel. Não vou dar álcool para uma pirralha. — Ele acaba de me chamar de pirralha? O mesmo homem que há algumas horas atrás estava comendo minha b***a com os olhos? — Pirralha? Você não tem ideia de quem eu sou, do que eu passei. — Dezoito anos e está se achando adulta? Você ainda nem saiu das fraudas. — Ele solta como se caçoar de mim o divertisse. As vezes parece que tem duas personalidades dentro desse homem. Há o Henry que se preocupa, que brinca comigo, que come besteiras e sorri. Mas também o que age como um escroto, me chamando e tratando como criança, ou frisando a ideia de que nosso relacionamento é de pai e filha. — Eu tenho idade suficiente para beber. — Respondo brava. — Você pode até ter idade para beber, mas eu não vou te dar álcool pra você se embriagar. — Eu sou dona do meu nariz e eu não preciso da sua permissão para beber ou fazer o que quer que seja. Se você quer realmente ser pai, vá procurar as coroas que são quem você quer f***r e faça um filho. Ou então, compre uma boneca. — Não espero resposta, apenas me viro e corro em direção ao quarto que me foi emprestado. Claro que ele me segue, mas consigo ser mais rápida e tranco a porta. Henry começa a bater feito louco, tentando me fazer abrir, mas eu me mantenho firme. — Ariel? — Não respondo seu chamado. — Se você não é pirralha, está agindo como uma. Abra logo essa porta. Eu sei que ele poderia arrombar a porta se quisesse mas eu duvido que ele o faça. Por que destruir essa porta cara? Depois de um tempo batendo e gritando meu nome, ele finalmente desiste. Por um momento, hoje eu achei que ele me desejasse, mas não, eu estava enganada. Não é bem uma novidade, o estranho seria se ele realmente tivesse se atraído por mim. O que esse homem está fazendo a minha cabeça, meu Deus? Meu telefone toca e então eu me recomponho, enxugando as poucas lágrimas que escaparam. É o Daniel! Só agora vejo as várias ligações perdidas. Nem peguei no celular hoje. Ligação on~ — Até que fim, não é? Te ligo faz horas. — Daniel usa seu tom mais enraivado para me receber. — Me desculpe, eu estava no banho. — Minto. — A tarde inteira? — A banheira é ótima. — Retruco. — Quando ia me falar que está morando com um homem? — Só então eu noto que eu realmente não o avisei. Não avisei ao meu namorado que a questão com a moradia foi resolvida. — Foi de última hora. — Explico. — E você não me pediu? Que espécie de namoro é esse que a mulher se muda para a casa de um homem solteiro, sem nem pedir ao seu namorado? — Desde quando eu preciso de sua permissão pra algo? Nós não somos assim, eu não sou assim. Além nisso, o que você preferia, que eu estivesse na rua? Achei que era uma decisão óbvia, dormir em um lugar qualquer na rua para morrer de fome, ou aceitar a proposta. Deus enviou um salvador para minha vida, Daniel, não seria apropriado recusar. — Retruco. — Você está achando que as coisas estão boas pra você, Ariel? Não me venha com manipulação. — Estou pouco me lixando para as coisas para mim, Daniel. Pela primeira vez alguém me estendeu a mão. — Precisamos conversar. Quero falar com você pessoalmente sobre essa situação toda, porque ainda não entendi bem essa história. — Pede. Eu até penso em negar, mas resolvo ir. Não tenho mesmo o que fazer aqui, estou muito p**a com o Henry. — Tudo bem, amanhã eu apareço na casa. — Ótimo, até amanhã. — Até. Ligação off ~ Eu preciso de permissão de homem para resolver a minha vida? Claro que não. Se ele soubesse meu estado de nervos, não teria me ligado, muito menos para me testar a pouca paciência que me restou. Não sei porque é tão importante pra mim o que o Henry pensa, mas sei que ele acaba de mostrar o que realmente acha de mim, “uma pirralha”. Eu estou deixando isso se tornar pessoal demais? Um dia e o homem já me desestruturou de todas as formas possíveis.
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