CAPÍTULO 03 — ARIEL

2934 Words
Todos aqui nesse lugar vivem me crucificando simplesmente por que não sou igual a elas, isso não faz sentido. Nós não somos iguais, não fomos feitos para sermos iguais como robôs. Somos humanos, ou seja, feitos de formas distintas, tanto por dentro como por fora. Somos feitos para aprendermos a lidar com as diferenças. É uma pena que as freiras não pensaram assim, poderíamos ter sido boas amigas e eu poderia quem sabe ter sido um pouco feliz. Mas ao que parece, feliz não é uma palavra que eu tenha o luxo de entender. Eu penso o tempo todo em como seria se eu tivesse uma família normal, com meus pais. Ou até se alguém tivesse me adotado. Infelizmente a minha realidade foi outra. Não preguei os olhos a noite inteira, tentei de todo o jeito arrumar uma solução, mas como todas as outras vezes eu não consegui pensar em nada, nada útil. Além disso, minha cabeça sempre vagueava até o Daniel e a experiência terrível na delegacia. Eu terminei de arrumar minhas roupas em uma mala que as irmãs me deram. Eu gostaria que fosse tudo diferente, mas não é. Estou prestes a ir embora quando ouço barulho de pedras contra a minha janela. Eu corro até ela e olho, vendo o Daniel. Quando apareço, ele para de jogar as pedras e me lança um sorriso. Procuro alguma irmã ao redor, olho algumas vezes para a porta, mas não vejo sinal algum. Ele faz um gesto com a cabeça para que eu desça para falar com ele e eu até contesto, negando, mas acabo cedendo. Vencida, eu desço do meu quarto até o Daniel e ele observa atentamente os meus passos para escalar usando a janela, as grades e os tijolos. Eu ainda não sei o que fazer com nosso relacionamento, não tenho uma resposta pronta para dar a ele. Penso nele naquela delegacia e sei que ele não é como eu pensava, eu tenho medo dele agora. — Obrigado por vir. — Fala assim que chego ao chão. — O que você quer? — Não ouso pestanejar, me mantendo firme. — Você, eu quero você. — Vá embora daqui, Daniel. Ainda não é a hora certa para essa conversa. — Ordeno, tentando me virar, mas sendo impedida por sua mão que envolve meu braço com força. Eu o olho feio, o que é o bastante para ele afastar sua mão de mim. — Ariel, por favor, eu não quero que você me deixe. Eu sinto muito, está bem? Olha, eu sei que eu fiz merda e eu sei também que você me alertou contra a bebida várias vezes mas… — Sim, eu o avisei. Repetidamente. O pior não é você ter se tornado alcoólatra Daniel, é não admitir, é não procurar um tratamento, é se descontrolar, é não ouvir uma palavra que sai da minha boca. — O interrompo mantendo-me seria.. — É motivo suficiente para eu não querer olhar na sua cara? — Me deixa terminar, por favor. — Pede e eu aceito, cruzando os braços e esperando — Eu sei que avisou e eu fui burro em não ouvir. Eu não quero perder você por essa burrice, por esse erro. Eu te juro que aprendi minha lição dessa vez, é o suficiente. Eu faço qualquer coisa para você não desistir de mim. Fique comigo, Ari. Apenas mais uma chance. — Ele termina e eu o olho atentamente sem expressar minhas emoções, busco sinceridade em suas palavras. — Qualquer coisa? — O questiono. — Sim. Não há nada que eu não faria por você. — Você vai parar de beber. Está na hora de reconhecer tem um problema e buscar ajudar médica para te ajudar. Você não tem controle. Então tem que me prometer que acabou toda essa merda. Eu não quero passar por essa droga de novo, entendeu? Não importa o que faça, a partir de agora, você vai cuidar da sua saúde física e mental. — Peço. — Sim, eu aceito. Tem minha palavra que vou ficar longe da bebida. Isso não vai se repetir. — Aceita. — Ótimo. Se eu souber que você não está cumprindo essa promessa, o que não vai se repetir é essa conversa. Eu não o verei mais, Daniel, nem haverá chances. Eu estou sempre aqui, para te ajudar no que você precisar. Mas tem que parar de me deixar de fora para fazer o que quer, vai acabar se matando ou matando alguém. Não desperdice essa chance. Fui clara? — Sim, claríssima. — Ótimo. Então cale essa boca e me beije. — Peço, mas apesar disso, ele hesita. — Aqui? As irmãs podem ver. — Tudo bem, eu já entendi. Nós podemos ir por alguns minutos. — Falo e é o suficiente para ele agarrar minha mão e nós corremos até nosso cantinho, sorrindo pela rua como dois idiotas. Eu não vou dizer que sou louca pelo Daniel, mas ele me faz bem e eu gosto muito de estar com ele. Não sei se alguém pode fazer eu sentir algo a mais que isso. Eu não sei se sou capaz de amar de verdade. Eu não sei o que é amor, eu nunca recebi, não sou capaz de expressar algo que nem sei o que é. — Venha aqui! Eu senti sua falta. – m*l estamos dentro das paredes velhas e ele já me puxa para seus braços. Ele cola nossos corpos e eu reajo com um riso. Seu beijo é calmo e devagar e eu apenas acompanho seu ritmo. Minhas mãos estão enfiadas em seus cabelos e até os puxando de leve. As mãos dele grudam minha cintura em seu corpo, mas não dura muito, logo ele desce suas mãos até minha b***a e aperta por cima do meu short jeans. Com o comprimento, consigo sentir seus dedos em minha pele. Nós intensificamos os beijos, as línguas se mexendo com euforia e com a animação, Daniel põe as mãos dentro na minha blusa apertando meus s***s contra meu sutiã. Eu não acho o sexo r**m, mas também não é a coisa mais empolgante do mundo. Além disso, não vou usar essa casa sem portas para nós transarmos por dois minutos. Esse é o tempo que eu teria, já que preciso pegar minhas coisas para ir embora do orfanato, eu não tenho mais como adiar isso. — Calma, devagar. — Eu o interrompo, afastando os lábios dos dele e usando minhas mãos para empurra-lo. — O que foi dessa vez, Ariel? — Pergunta chateado. — Eu já avisei antes que não ia fazer nada aqui, muito menos agora. Eu tenho coisas a fazer, Daniel, tenho que ir embora do orfanato. — Explico. — E para onde você vai? — Eu não sei, por aí. — Falo sem muito sucesso em esconder minha tristeza e ele me olha com um olhar que eu detesto. — Não faça isso, não fique com pena, sabe que eu não suporto. — Eu queria muito poder fazer algo, mas também não tenho um emprego. Sabe que se eu pudesse te levaria para a minha casa, não sabe? — Lamenta. — Eu sei, Dan. De qualquer forma, eu e sua mãe juntas nunca daria certo. — Quem sabe se você fosse mais maleável, não ficasse tanto na defensiva e se esforçasse tanto para ser do contra, vocês não teriam brigado e você tivesse um teto agora. — Se eu fosse mais maleável? Sua mãe disse que não te queria namorando uma órfã que “não tem onde cair morta”. — Friso as palavras dela fazendo aspas com os dedos. Não há arrependimento em seu olhar, é claro o lado que tem seu apoio. — Eu nunca fiz nada contra ela e mesmo assim eu sou a errada? O que eu deveria fazer, pedir desculpas por ter sido abandonada por meus pais? — Me desculpe, não foi isso que eu quis dizer. — Sim, foi. — Retruco. — Sustente suas palavras, Daniel. Seja homem, não um moleque. Isso se você for capaz, já que é tão louco pela sua mãe que não se importa com as merdas que ela faz ou com as pessoas que machuca. Mesmo quando essa pessoa, sou eu. — Eu sou louco por você Ariel. Minha mãe tem um temperamento difícil, eu sei, mas é minha mãe. Vocês são as duas mulheres da minha vida, eu não sei como lidar com isso. — Por favor, Daniel, não finja mais. Eu sempre soube, mas esses dois dias só serviram para me mostrar mais que devemos parar de fingir que somos um casal apaixonado. — Solto, me sentindo o ser humano mais frio do mundo. — Você não está apaixonada? — Seu olhar é coberto por surpresa. Por Deus… Ele acha que isso que temos é paixão, amor? Nunca estive apaixonada, nunca tive amor, eu não o conheço. Mas eu sei de uma coisa, não é possível que seja assim. — Eu nem sei o que é estar apaixonada, não sei se algum dia meu coração vai estar pronto para amar alguém. — Explico. — Não quero magoar você, mas há um buraco em mim que… não me deixa amar ninguém. Eu sou quebrada, Daniel. Crescer da maneira que eu cresci faz estragos irreversíveis na mente de qualquer um. — Claro que vai. Você tem um coração enorme, Ari, mesmo que não veja isso. Não posso imaginar o que acontece dentro de você, mas eu sei que vai ficar tudo bem. – Daniel me me puxa para si e me abraça. De novo, a frase: “Vai fica tudo bem”. Essa frase arrancou a confiança de mim e nem mesmo em Daniel, que conheço desde pouco tempo após chegar no orfanato, nem mesmo a pessoa que eu deveria confiar, eu consigo. Como eu posso amar alguém se não acredito em suas palavras? — Eu espero que esteja certo, realmente. Mas eu preciso mesmo ir agora, passou da hora. Se eu demorar mais tempo nem mesmo minhas roupas eu terei como tirar de lá. — Falo e suspiro forte, puxando o ar, sentindo meu coração doer como se tivesse sendo espremido em meu peito. — Fique bem. — Vou ficar. — Minto. Eu dou um selinho nele e volto ao orfanato o mais rápido que consigo. Eu não pertenço mais a esse lugar, então posso entrar tranquilamente pela porta da frente, as freiras não tem mais autoridade. Assim que passo pela porta, noto uma movimentação estranha. As irmãs estão mais falantes, estão felizes e alvoroçadas. Há algo acontecendo aqui. Talvez já estejam começando a comemorar minha partida. — Finalmente teremos uma melhoria nesse lugar! – Exclama uma delas e eu decido me divertir um pouco. Eu já estou na merda, posso me melar. — Tudo isso por mim? — Coloco um sorriso provocativo no rosto, ganhando delas um olhar com desdém. — Não ache que é tão importante, insolente. — Elas retribuem a ousadia. — E o que então? — Admito que a curiosidade bateu. Nunca vi tamanha euforia nesse lugar. — Não que seja da sua conta, mas vou falar só para que entenda como as coisas já estão começando a melhorar e olhe que você ainda nem saiu. É só a ideia de você estar longe que o universo conspira a nosso favor. Henry LeBlanc está vindo até nós. — Fico perplexa quando Darlene fala. Quando ouvi o nome que saiu de sua boca, as ofensas inicias desapareceram de minha cabeça. É possível que eu tenha ouvido errado, ou Henry LeBlanc que estou pensando virá até o orfanato? — Henry? O CEO da Space LeBlanc? O que em nome de Deus esse homem viria fazer aqui nesse fim de mundo? — Ele vem conhecer nossas instalações. O Sr. LeBlanc será o nosso benfeitor e irá doar dinheiro para nós. — Explica e eu ainda estou meio que congelada. As vezes eu duvido que Henry LeBlanc exista, ele parece que é apenas uma imaginação demais. O mundo é feio demais para alguém como ele, a própria perfeição humada. — Faça o favor de sair antes dele chegar, já passou da sua hora e eu não quero que você estrague isso. — Não se preocupe, não faço questão alguma de encontrar com esse homem. — E é verdade. Eu pediria desculpas a ele por respirar o mesmo ar que ele. Mas para minha desgraça, assim que termino a frase um carro grande, sofisticado e todo em preto para frente a porta do orfanato. Só o esportivo preto, com vidros totalmente escuro e brilhantes, é suficiente para transbordar poder. Só pode ser ele. Meu coração nunca mais palpitou dessa maneira, me fazendo sentir como se fosse desmaiar e as minhas pernas terem dificuldade em se mover. Na verdade, não me lembro de me sentir tão eufórica assim, nunca, em todos os meus pobres dezoito anos de vida. “Você é dez anos mais nova que ele. O homem é repleto de grandes experiências. Ele é um CEO famoso e você uma pobre que nem tem onde morar. Ele é incrivelmente delicioso, charmoso, grande. Nunca olharia na direção de uma pessoa como você.” Brigo comigo mesma, relembrando a meu coração que não procure mais uma dor para si mesmo. — Jesus Cristo, o homem chegou mais cedo! Por Deus... — Exclama Sara, agora não tão eufórica quanto antes, trazendo sua atenção até mim. — Saia daqui imediatamente, Ariel. Vá para o seu quarto, agora você só sai quando ele tiver ido embora. — E se eu não quiser? — Provoco. — Talvez eu tenha mudado de ideia e resolvido dar boas vindas ao Sr. Gostoso. — Por Deus! — As duas se benzem, me fazendo prender o riso do desespero dela. — Prefere ficar trancada no porão? O que acha? — Tudo bem. — Acabo aceitando. Qual diferença faria de qualquer forma? Olho para o carro estacionado, a porta prestes a se abrir, sentindo uma decepção estranha em meu coração. É, não será hoje que dividiremos o mesmo ar, Sr. Gostoso. Nem nunca. Subo rápido ao meu quarto antes que ele entre e fico na cama, abraçada aos meus joelhos. Será que ele é tão magnífico ao vivo quanto por fotos? Começo involuntariamente a repassar os detalhes dele em minha cabeça. O maxilar quadrado, marcado, com o queixo tão bem desenhado que acredito que ele seja o único que possui tão privilégio. Os olhos azuis tão celestiais que nem precisariam dos cílios tão longos para os desenharem. A boca… Por Deus. Engulo seco, sentindo algo estranho acontecer com meu corpo. Eu sou completamente fascinada por seu corpo forte, definido e grande. É como uma montanha, enorme, poderoso e imponente. Você não pode mover uma montanha de lugar e é isso que Henry exala, que ninguém pode nem mesmo toca-lo. Seu corpo é um pecado esculpido pelos demônios, para nós torturar. Já seu rosto, foi bem projetado por anjos para nos encantar e presentear com o paraíso. Eu nem considero imaginar palavras para definir Henry Leblanc, acho que ainda inventaram um dicionário suficiente para descreve-lo. O pior é saber que ele está bem aqui, alguns andares abaixo e eu trancada. Isso está causando algo a mim e meu corpo, uma quentura desconhecida que seca minha garganta. Será que ele me deixaria tocar suas covinhas, ou acariciar seus cabelos que parecem tão macios, ou ao menos tocar um de seus braços? Estou perdida em meus pensamentos quando vocês me fazem erguer o tronco com olhos arregalados. Não há homens aqui, então a voz que escuto quando corro para a porta do meu quarto na tentativa de ouvir de perto, é dele. É ele, sim, quase frente a mim. Minhas mãos tremem e meu coração traiçoeiro me implora para que eu libere nosso campo de visão, abrindo a porta. Ele tem uma voz grossa e quente, sua frases saem quase como um rosnado com o tom rouco que escapa de suas cordas vocais. Sinto o meu gangue borbulhando em minhas veias, respiro com dificuldade e engulo seco novamente, passando a língua nos lábios para lubrifica-los. — O que tem atrás daquela porta? — Ele pergunta. Levo uma mão a minha boca, quase desmaiando com o choque. — Não é nada. — A irmã Sara desconversa. — Nada? Então porque está fechada? — Ele não desiste. — É só uma garota perdida, não vale a pena. Ela fez dezoito anos ontem, está apenas juntando as coisas para ir embora, nunca conseguiu ser adotada. Você não encontrará com ela e ela não tem mais ligação com o Hallelujah, então não é nada com o que deva se preocupar. — Explica ela. Como me adotariam se sempre que alguém vinha buscar uma criança, eu era escondida, trancada em algum lugar? — Uma garota perdida? Porque a considera como perdida? — Ele é curioso. — Ela vive mostrando o corpo de forma inapropriada, usando roupas… Vulgares. Foge de nós, sem aceitar nossas regras. Ainda tem namorado. — Eu acho que eu também fugiria se morasse aqui. Isso é um orfanato ou o exército? — Ele responde e eu aperto em a mão em minha boca para conter o berro que tenho vontade de dar. — Eu quero conhece-la. Paro de rir ao ouvir suas palavras. Agora a brincadeira acabou. Eu encaro a porta com olhos arregalados. Dou uns passos para trás, meio trêmula. Meu coração salta mais que canguru fugindo da presa. A voz dele, a forma que fala, sua beleza. Deus… Puxo o ar com força levando uma mão até meu peito tentando controlar meus batimentos. Sara irá mesmo deixá-lo me conhecer?
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