O carro parou em frente ao hotel.
Simples.
Discreto.
Nada parecido com o mundo dele.
Alonso desceu primeiro.
Na cadeira de rodas.
Como sempre. observador.
Camila saiu logo depois.
O cansaço pesava em cada passo.
Eles entraram.
Subiram.
E, em poucos minutos…
Estavam diante do quarto dela.
Ela abriu a porta.
Devagar.
E ele entrou logo atrás.
O quarto era pequeno.
Simples.Mas organizado.
Aconchegante do jeito que dava.
Ela soltou a mochila no canto.
E sentou na cama.
Exausta.
Ele ficou ali.
Próximo.
Observando.
— Desculpa… ela disse baixo. Não é um lugar muito bom…
Ele negou com a cabeça.
— É suficiente.
Pausa.
— E é seu.
Ela deu um leve sorriso.
Pequeno.
Mas verdadeiro.
Eles começaram a conversar.
Coisas leves.
Simples.
Tentando fugir da dor.
Ele perguntava pouco.
Mas ouvia tudo.Com atenção.
Ela falava devagar…
Até que as palavras começaram a falhar.
O corpo relaxou.Os olhos pesaram.
E, sem perceber…Ela dormiu.
Ali.
Sentada na cama.
Alonso ficou em silêncio.
Observando.
Levantou devagar.
Aproximou-se.
E ajeitou ela com cuidado na cama.
Sem acordar.
Cobriu.
Com delicadeza.
Ficou ali por alguns segundos.
Olhando.
Como se estivesse guardando cada detalhe.
Até que…
O celular dela começou a tocar.
O nome na tela acendeu:
Victor.
O olhar de Alonso mudou na hora.
Escuro.
Frio.
Perigoso.
Ele pegou o celular.
Atendeu.
— Amor… a voz veio desesperada do outro lado . por favor, me perdoa… me perdoa, tá?
Alonso permaneceu em silêncio
— Eu vou consertar… eu prometo… eu amo você…
Foi então que Alonso falou.
Baixo.
Mas mortal.
— Fica longe dela.
Silêncio do outro lado.
Pesado.
— Quem é você? — Victor perguntou, nervoso.
Alonso não hesitou.
— Eu sou alguém que você nunca mais vai querer cruzar o caminho.
Pausa.
A voz ficou ainda mais fria.
— Se você se aproximar dela mais uma vez…
Silêncio.
— Eu te enterro vivo.
E desligou.
O quarto voltou ao silêncio.
Como se nada tivesse acontecido.
Alonso olhou mais uma vez para Camila.
Dormindo.Inocente.Em paz…
Pela primeira vez naquele dia.
Ele respirou fundo.
Controlando tudo o que sentia.
Sentou novamente na cadeira.
E foi até a porta.
Antes de sair…Olhou para trás.
E, em silêncio…Tomou uma decisão.
Ele abriu a porta.
Saiu.
Fechou.
E foi embora.
Mas agora…
Não havia mais volta.
Porque a partir daquele momento…
Ela não estava mais sozinha.
Na manhã seguinte…
Camila acordou devagar.
O corpo ainda dolorido.
Mas… diferente.
Como se, pela primeira vez em muito tempo, tivesse conseguido descansar de verdade.
O celular tocou.
Ela estranhou.
Atendeu.
— Oi?
— Camila? Sou eu… Alonso
Ela franziu levemente a testa.
— Ah… Alonso…
— Obrigado por ontem ele disse, com a voz calma. Eu fiquei preocupado… você tá bem mesmo?
Ela respirou fundo.
— Tô sim…
— Você gostaria de almoçar comigo?
Ela hesitou.
— Almoçar?
— Nada demais… só pra distrair um pouco.
Ela pensou por alguns segundos.
Talvez fosse bom…
— Tá bom.
— Eu te busco em uma hora.
— Tá.
Ela desligou.
Olhou ao redor.
E se levantou.
Foi até o banheiro.
Tomou um banho demorado.
Como se estivesse lavando tudo o que aconteceu.
Depois, escolheu um vestido rosinha.
Simples.
Mas bonito.
Prendeu parte do cabelo em um coque leve, deixando algumas mechas loiras caírem suavemente ao redor do rosto.
Uma maquiagem delicada.
Olhos levemente marcados.
Natural.
Linda
Minutos depois, recebeu a mensagem:
“Tô aqui embaixo.”
Ela desceu.
E lá estava ele.
Na cadeira de rodas.
Elegante.
Impecável.
Um dos seguranças abriu a porta do carro.
Ela entrou, um pouco tímida.
— Você tá maravilhosa — ele disse.
Ela sorriu, sem graça.
— Obrigada… você também tá muito bem.
Eles seguiram até o restaurante.
Era um lugar bonito.
Elegante.
Mas não exagerado.
Perfeito.
Ela olhava tudo ao redor, encantada.
— Isso aqui deve ser caro…
Ele sorriu de leve.
— Relaxa… hoje você só aproveita.
Sentaram.
E começaram a conversar.
Leve.
Natural.
Até que ela perguntou:
— O que aconteceu com você?
Ele a olhou por um segundo.
Pensando.
— Eu sofri um acidente… há três anos.
Ela ficou mais séria.
— E…?
— Às vezes, com fisioterapia, eu consigo ficar em pé…
Pausa.
— Mas ainda dependo da cadeira.
Ela assentiu, com empatia.
Sem julgamento.
— Você se incomoda? ele perguntou.
Ela arregalou os olhos.
— Claro que não!
— Eu só perguntei porque você é tão novo…
Ele arqueou a sobrancelha.
— Eu sou novo?
Ela riu.
— Quantos anos você tem?
— Trinta e sete.
— Ah… nem é tanto assim.
Ela sorriu.
— Eu sou só dez anos mais nova.
Ele observou ela.
Com atenção.
— Você também é muito bonito… sabia?
Ela falou de repente.E depois ficou sem graça.
Ele sorriu.
— Você acha?
— Acho…
Silêncio leve.
Confortável.
— Então… a gente pode ser amigos? ele perguntou.
Ela sorriu.
— Claro… podemos sim.
Ele inclinou levemente a cabeça.
— Seu sorriso é lindo… você devia sorrir mais vezes.
Ela sorriu de novo.Dessa vez… mais solta.
O tempo passou rápido.
A conversa fluiu.
E, pela primeira vez…Camila riu de verdade.
A conta chegou.
Ela tentou pegar.
— Não, deixa que eu pago.Não precisa
— Por favor.
Ele insistiu.E pagou.
Depois…
Ele a levou de volta.
Pararam em frente ao hotel.
Ela sorriu.
— Obrigada por hoje…
— Eu vou te chamar mais vezes — ele disse. Você precisa conhecer a cidade…
— Tem teatros… peças…
Ela arregalou os olhos.
— Tipo aquelas da televisão?
Ele riu.
— Exatamente.
Mas isso deve ser caro…Não se preocupa com isso.
Pausa.
— Eu resolvo.
Ela sorriu.
Se inclinou levemente…
E deu um beijo no rosto dele.
— Obrigada mesmo…
E saiu.
Alonso ficou ali.
Observando ela entrar.Até desaparecer.
Dentro do carro…
Um dos homens dele, Alex, olhou pelo retrovisor.
— Você vai mentir pra ela?
Alonso permaneceu em silêncio por alguns segundos.
— Ela é simples… Verdadeira…
Olhou para frente.
— Eu não vou contar ainda quem eu sou.
Alex arqueou a sobrancelha.
— E por quê?
Alonso respirou fundo.
— Porque eu quero que ela goste de mim…
Pausa.
— Pelo que eu sou… quando ninguém tá olhando.
Um leve sorriso surgiu.
— E não pelo que eu tenho.
Alex riu de leve.
— Nunca vi você assim…
Alonso olhou pela janela.
Pensativo.
— Eu me apaixonei por ela…
Silêncio.
— Acho que foi naquele momento…quando ela segurou minha cadeira...e olhou nos meus olhos…
Ele sorriu de leve.
— Ali já era.
Alex riu.
— E depois você ainda levou um tapa…
Alonso soltou um leve riso.
— Foi o melhor tapa da minha vida.
Os olhos dele ficaram mais intensos.
O olhar dela…O sorriso…
Pausa.
— Ela não lembra de mim.
Olhou para frente.
— Mas tudo bem…
A voz saiu baixa.
Decidida.
— Eu faço ela me notar de novo e dessa vez…
Não por acaso.Mas porque ele queria.