O restante da manhã passou rápido demais.
Mas eu não consegui esquecer.
A proximidade na sala.
O silêncio.
O olhar.
Nada tinha acontecido… e, ainda assim, parecia que alguma coisa tinha mudado. Como se uma linha invisível tivesse sido cruzada, mesmo sem intenção.
Tentei me concentrar no trabalho, mas minha mente voltava constantemente àquele momento. Cada vez que ouvia a voz dele em algum ponto do escritório, meu corpo reagia antes mesmo de eu perceber.
Ridículo.
Respirei fundo e continuei organizando os documentos. Meu pai entrou e saiu algumas vezes, sempre apressado. No meio da tarde, ele apareceu na minha mesa.
— Preciso que você revise esses contratos com o Khalil. É rápido.
Assenti.
— Agora?
— Sim. Ele está na sala ao lado.
Peguei os papéis e caminhei até a porta. Bati levemente.
— Entre — veio a voz dele.
Abri.
Khalil estava sozinho, sentado à mesa, analisando alguns documentos. Levantou o olhar quando entrei.
— Seu pai pediu para revisarmos isso — falei.
— Claro.
Ele indicou a cadeira ao lado dele, não a da frente.
Sentei.
Perto.
Muito perto.
Abri o contrato sobre a mesa e comecei a ler. Ele se inclinou levemente, e nossos ombros quase se tocaram. O calor dele parecia mais perceptível naquele espaço menor.
— Essa cláusula precisa de ajuste — disse ele.
Inclinei-me para ver melhor.
Meu cabelo caiu para frente, e senti o movimento dele, discreto, se afastando apenas o suficiente para não tocar. O gesto foi pequeno… mas consciente.
Meu coração acelerou.
Peguei a caneta e comecei a marcar o trecho. Nossos braços se encostaram novamente. Dessa vez, nenhum de nós se moveu imediatamente.
Silêncio.
Respiração.
O som distante do escritório do lado de fora parecia longe.
Levantei o olhar sem perceber.
Ele já estava me olhando.
Muito perto.
Perto o suficiente para eu perceber os detalhes dos olhos claros, a linha firme do maxilar, a respiração controlada.
Por um segundo, ninguém falou.
Ninguém se moveu.
Meu corpo reagiu antes da minha mente.
O ar ficou mais denso.
Ele inclinou levemente o rosto, não o suficiente para ser um gesto claro, mas o bastante para diminuir ainda mais a distância.
Meu coração disparou.
Foi rápido.
Mas intenso.
E então…
Ele se afastou.
Pequeno movimento.
Controlado.
Como se tivesse lembrado de algo.
Como se tivesse imposto um limite.
Eu respirei fundo, voltando o olhar para o contrato.
— Essa parte também precisa revisar — murmurei, tentando manter a voz firme.
— Sim.
A resposta veio baixa.
Continuamos.
Mas o silêncio agora era diferente.
Mais consciente.
Mais tenso.
Terminamos a revisão em poucos minutos, mas parecia que tinha sido muito mais tempo. Fechei o contrato e me levantei.
— Eu vou passar isso para o meu pai.
Ele assentiu.
— Certo.
Houve uma pequena pausa.
— Obrigada — falei.
— De nada.
Saí da sala com o coração ainda acelerado. Caminhei pelo corredor tentando parecer normal, mas sentindo claramente o efeito daquele momento.
Não tinha acontecido nada.
Nada concreto.
Mas o quase…
Era mais forte do que qualquer coisa.
E, pela primeira vez, percebi com clareza:
Se aquilo continuasse…
Seria cada vez mais difícil manter distância.