Próxima

591 Words
Na manhã seguinte, tentei não criar expectativa. Levantei, me arrumei e fui para o escritório com a mesma postura dos últimos dias: concentrada, objetiva, determinada a manter a cabeça no trabalho. Repeti mentalmente que não fazia sentido pensar em algo além disso. Mas, no fundo, eu sabia… Havia uma pequena tensão. Algo que eu não controlava completamente. Assim que entrei no andar do escritório, senti o movimento um pouco diferente. Algumas pessoas falavam mais baixo, outras passavam mais rápido. Era sutil, mas perceptível. Ele estava ali. Eu soube antes mesmo de vê-lo. Caminhei até minha mesa e organizei os papéis, fingindo não notar nada. Meu pai ainda não tinha chegado, e isso me deu alguns minutos de silêncio. Abri a pasta da nova empresa e comecei a revisar os prazos. — Bom dia. Levantei o olhar. Khalil estava ao lado da minha mesa. O coração acelerou. — Bom dia. Ele assentiu levemente. — Seu pai pediu para revisarmos alguns pontos antes da reunião. — Claro. Peguei a pasta, tentando parecer tranquila. Ele indicou a sala de reuniões menor, mais reservada. Caminhamos até lá em silêncio, e o som dos nossos passos parecia mais alto do que realmente era. Entramos. A sala era simples, com uma mesa de vidro e duas cadeiras próximas. Ele fechou a porta, e o silêncio se intensificou. Sentamos lado a lado. Perto. Mais perto do que eu estava acostumada. Ele abriu o documento e começou a analisar, concentrado. Eu me inclinei levemente para acompanhar, e o movimento diminuiu ainda mais a distância entre nós. O perfume dele chegou primeiro. Discreto. Marcante. Engoli em seco e tentei me concentrar nas palavras. — Esse prazo precisa ser antecipado — disse ele, apontando para a folha. — Posso ajustar. Peguei a caneta e comecei a anotar. Meu braço roçou levemente no dele. Pequeno. Acidental. Mas suficiente para fazer meu corpo reagir. Continuei escrevendo, fingindo normalidade. Ele também não se afastou. A proximidade ficou ali. Silenciosa. Carregada. — Se isso atrasar, a autorização não sai a tempo — continuou ele. Assenti. — Eu entro em contato hoje. — Melhor. O silêncio voltou. Mas não era vazio. Era cheio de pequenas percepções: a respiração dele, o movimento das mãos, o calor que parecia maior naquele espaço fechado. Levantei o olhar sem querer. Ele também me olhou. Por um segundo. Sem pressa. Sem palavras. Meu coração disparou. Desviei primeiro. Voltei para o documento, mas minha concentração já não era a mesma. — Você organizou bem — disse ele, após alguns segundos. — Estou tentando. — Está funcionando. A frase veio calma, quase suave. Senti um leve calor subir pelo rosto. — Obrigada. Ele assentiu e continuou a leitura. Eu acompanhava, mas meus pensamentos estavam mais dispersos. Cada pequeno movimento parecia ampliado. Cada silêncio parecia mais longo. Quando terminamos, ele fechou a pasta. — Acho que é isso. Assenti. Mas nenhum de nós se levantou imediatamente. Ficamos ali. Sentados. Em silêncio. A proximidade ainda presente. Sem motivo para continuar. Mas também sem pressa para sair. Ele respirou fundo e se levantou primeiro. Dei um pequeno passo para trás, criando distância. O ar pareceu mais leve, mas também… menos intenso. — Podemos seguir com isso — disse ele. — Certo. Abrimos a porta e voltamos ao escritório principal. O ambiente voltou ao normal, com pessoas circulando e telefones tocando. Mas algo tinha mudado. Não havia acontecido nada. Nenhum toque proposital. Nenhuma palavra diferente. E, ainda assim… Aquele silêncio entre nós tinha dito mais do que qualquer conversa. E eu sabia. Aquilo estava se tornando perigoso.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD