Desejo

765 Words
Dois dias depois, eu já estava mais envolvida no processo da nova empresa do que imaginei. Os documentos aumentavam, os prazos se aproximavam e, pela primeira vez, eu me sentia realmente responsável por algo. No final da tarde, meu pai me chamou. — Esses documentos precisam da assinatura do Khalil hoje. Peguei a pasta. — Ele ainda está no escritório? — Não. Já saiu. Está em casa. Hesitei por um segundo. — Eu levo? — Sim. Quanto mais rápido resolvermos, melhor. Assenti. Peguei a bolsa e saí. O endereço não ficava longe, mas o caminho pareceu mais longo do que realmente era. Talvez porque, durante todo o trajeto, eu tentava não pensar no fato de que iria até a casa dele. Sozinha. Quando o carro parou em frente ao prédio, eu respirei fundo. Era luxuoso. Mas discreto. Nada exagerado, nada chamativo. Apenas elegante, como ele. Subi, anunciei meu nome na portaria e fui autorizada a subir. Meu coração acelerou sem motivo. Ou talvez com motivo demais. Toquei a campainha. Alguns segundos depois, a porta se abriu… mas não completamente. Uma funcionária apareceu. — A senhorita Maitê? — Sim. Vim trazer alguns documentos para o senhor Khalil. — Ele está na academia. Pode entrar, ele pediu para aguardar. Entrei. O apartamento era amplo, moderno, com cores neutras e uma vista impressionante da cidade. Tudo organizado, sem exageros. Sem fotos espalhadas. Sem sinais de muita vida pessoal. Era… silencioso. — Pode seguir por ali — disse a funcionária, apontando um corredor. Caminhei devagar, sentindo o coração acelerar um pouco mais a cada passo. Ouvi o som primeiro. Algo rítmico. Metal. Respiração controlada. Quando cheguei à porta aberta, eu parei. Khalil estava lá. Treinando. Ele estava de costas, levantando peso com movimentos firmes, concentrados. Vestia apenas uma camiseta justa e calça de treino. O tecido escuro marcava os ombros largos, os braços definidos, a postura forte. Eu não devia estar observando. Mas observei. Por um instante mais longo do que deveria. Ele terminou o movimento e apoiou o peso com cuidado. Passou a mão pela nuca, respirando fundo. O gesto fez a camiseta colar levemente nas costas, e algo dentro de mim reagiu. Não era apenas admiração. Era… diferente. Meu coração acelerou. Engoli em seco. Foi então que ele percebeu. Virou o rosto. Os olhos claros encontraram os meus. Houve um segundo de silêncio. — Não sabia que você já tinha chegado — disse ele, a voz um pouco mais baixa por causa da respiração ainda controlada. — Eu… trouxe os documentos. Levantei a pasta levemente, tentando parecer mais normal do que me sentia. Ele assentiu. — Pode entrar. Dei alguns passos, tentando não parecer afetada. Mas era impossível ignorar. A proximidade. O calor do ambiente. O cheiro leve de perfume misturado ao esforço físico. Ele pegou uma toalha e passou pelo rosto, depois pelo pescoço. — Seu pai pediu urgência? — Sim. Precisa da sua assinatura hoje. Ele se aproximou da bancada. — Me dê. Entreguei a pasta. Nossos dedos quase se tocaram. Pequeno. Rápido. Mas suficiente. Algo percorreu meu corpo. Involuntário. Ele abriu a pasta e começou a ler, ainda com a respiração um pouco mais pesada. Eu fiquei ali, em silêncio, tentando manter o olhar nos papéis… mas falhando. Meu olhar voltava. Para os braços. Para o movimento das mãos. Para a linha do maxilar ainda tensa. E isso me incomodou. Porque não era algo que eu costumava sentir. Não daquela forma. Não tão direto. — Está tudo certo — disse ele, pegando a caneta. Assinou com calma. — Pronto. Fechou a pasta e me entregou. Dessa vez, nossos dedos se tocaram de verdade. Um segundo. Talvez menos. Mas meu corpo reagiu como se tivesse sido mais. — Obrigada — murmurei. Ele me observou por um instante. Não era um olhar invasivo. Mas atento. Como se tivesse percebido algo. Ou talvez eu só estivesse imaginando. — Você está se adaptando ao trabalho? — perguntou ele. Assenti. — Estou tentando. — Está indo bem. O elogio veio simples. Mas me atingiu. Sorri de leve. — Isso ajuda. O silêncio caiu. Mas não era desconfortável. Era… diferente. Mais carregado. Mais consciente. Eu segurei a pasta com mais força do que o necessário. — Eu já vou. Ele assentiu. — Boa noite, Maitê. — Boa noite. Saí. Mas, enquanto caminhava pelo corredor, uma coisa ficou clara. Eu nunca tinha reparado tanto em alguém assim. Nunca tinha sentido aquele tipo de tensão silenciosa. E, pela primeira vez… Aquilo não me assustou. Só me deixou ainda mais consciente de algo que começava a crescer. Lento. Perigoso. E impossível de ignorar.
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