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803 Words
Eu não percebi o tempo passar. Quando levantei os olhos do último documento, o sol já estava mais baixo, refletindo nos prédios ao redor e tingindo o escritório com uma luz mais suave. Meu pai ainda não tinha voltado, e o silêncio do ambiente parecia mais natural agora. — Acho que já adiantamos bastante — murmurei, fechando a pasta. Khalil assentiu, observando rapidamente a organização que eu tinha feito. — Sim. Antes que qualquer um de nós dissesse mais alguma coisa, uma batida leve na porta interrompeu. — Pode entrar — disse Khalil, já que meu pai ainda não tinha voltado. A porta se abriu. E, por um segundo, meu cérebro demorou para entender. Lucas. Ele entrou com o olhar direto em mim, ignorando completamente o resto do ambiente. Estava mais sério do que eu já tinha visto, os ombros tensos, a respiração levemente acelerada. Meu coração apertou. Não de saudade. Mas de antecipação. — Maitê — disse ele. O silêncio ficou pesado imediatamente. Khalil não se moveu. Apenas permaneceu onde estava, observando com calma, sem interferir. — O que você está fazendo aqui? — perguntei, me levantando. Lucas deu alguns passos para dentro. — Eu precisava falar com você. — Aqui não é… — Eu sei que não é o melhor lugar — interrompeu ele. — Mas você não me atende, não responde, e eu não ia simplesmente deixar isso assim. Engoli em seco. — Lucas… — Eu não entendi, Maitê — disse ele, a voz mais baixa agora. — Ontem você terminou comigo como se… como se fosse simples. Não era simples. Mas também não era impossível. — Não foi simples — respondi. Ele passou a mão pelo cabelo. — Então por que pareceu? Olhei rapidamente para Khalil. Ele continuava em silêncio, respeitando a situação, mas atento. — A gente pode conversar lá fora — falei. Lucas negou. — Não. Eu quero entender agora. O olhar dele passou rapidamente por Khalil. Uma avaliação silenciosa. — Ele pode esperar. Khalil não reagiu. Apenas manteve a postura calma, como se aquilo não o incomodasse. — Lucas — disse eu, tentando manter a calma — não tem muito o que explicar. — Tem sim. Ele deu mais um passo. — Você terminou comigo dizendo que mudou. Mas mudar assim… de um dia pro outro? — Não foi de um dia pro outro. — Então quando? Respirei fundo. — Faz tempo. Ele ficou em silêncio por um segundo. — Você nunca falou nada. — Porque eu estava tentando entender. — Entender ou se afastar? A pergunta veio mais dura. — Lucas… — Você nem tentou consertar. Aquilo me incomodou. — Nem tudo se conserta. Ele me encarou. — Ou você só não quis. O silêncio ficou mais pesado. — Eu não quis continuar em algo que não me fazia mais feliz. Ele desviou o olhar por um instante. — Eu podia ter mudado. A frase veio sincera. E aquilo doeu um pouco. — Talvez — respondi — mas não é sobre você mudar. É sobre eu não me sentir mais a mesma pessoa. Lucas respirou fundo. — E agora? — Agora acabou. A resposta saiu mais suave, mas firme. Ele ficou parado, absorvendo aquilo. O olhar dele passou novamente pelo escritório. — Você já seguiu em frente? — Não. — Então por que parece que sim? Eu não respondi. Porque não sabia exatamente. Talvez porque eu me sentisse… diferente. Mais leve. Mais focada. Lucas assentiu lentamente. — Eu só precisava ouvir isso de novo. Houve um pequeno silêncio. — Eu não vou insistir — disse ele. — Só não queria sair como se… não tivesse significado nada. Meu peito apertou. — Teve. Ele me olhou por um segundo. Depois assentiu. — Tá. Lucas se virou para sair, mas antes lançou um último olhar rápido para Khalil. Não foi hostil, mas foi claro: ele percebeu a presença, percebeu o ambiente, percebeu que eu estava entrando em outro mundo. Ele saiu. A porta se fechou. O silêncio voltou. Mas dessa vez… mais pesado. Eu soltei o ar lentamente, tentando recuperar o equilíbrio. — Desculpa — murmurei. Khalil negou levemente. — Não precisa. — Ele não devia ter vindo aqui. — Ele veio porque precisava. Olhei para ele. — Você acha? — Sim. — Por quê? Ele respondeu com calma. — Algumas pessoas precisam encerrar as coisas para conseguir seguir. Aquilo fez sentido. Assenti devagar. Voltei para a cadeira, sentindo o cansaço emocional chegar de uma vez. — Isso foi estranho. — É normal. — Você sempre sabe o que dizer? Ele fez uma pausa. — Não. Só digo o que parece verdade. E, mais uma vez… O silêncio entre nós voltou. Mas agora havia algo diferente. Algo mais profundo. Como se aquele momento tivesse encerrado não só um relacionamento… Mas também um capítulo inteiro da minha vida.
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