Eu não percebi o tempo passar.
Quando levantei os olhos do último documento, o sol já estava mais baixo, refletindo nos prédios ao redor e tingindo o escritório com uma luz mais suave. Meu pai ainda não tinha voltado, e o silêncio do ambiente parecia mais natural agora.
— Acho que já adiantamos bastante — murmurei, fechando a pasta.
Khalil assentiu, observando rapidamente a organização que eu tinha feito.
— Sim.
Antes que qualquer um de nós dissesse mais alguma coisa, uma batida leve na porta interrompeu.
— Pode entrar — disse Khalil, já que meu pai ainda não tinha voltado.
A porta se abriu.
E, por um segundo, meu cérebro demorou para entender.
Lucas.
Ele entrou com o olhar direto em mim, ignorando completamente o resto do ambiente. Estava mais sério do que eu já tinha visto, os ombros tensos, a respiração levemente acelerada.
Meu coração apertou.
Não de saudade.
Mas de antecipação.
— Maitê — disse ele.
O silêncio ficou pesado imediatamente.
Khalil não se moveu. Apenas permaneceu onde estava, observando com calma, sem interferir.
— O que você está fazendo aqui? — perguntei, me levantando.
Lucas deu alguns passos para dentro.
— Eu precisava falar com você.
— Aqui não é…
— Eu sei que não é o melhor lugar — interrompeu ele. — Mas você não me atende, não responde, e eu não ia simplesmente deixar isso assim.
Engoli em seco.
— Lucas…
— Eu não entendi, Maitê — disse ele, a voz mais baixa agora. — Ontem você terminou comigo como se… como se fosse simples.
Não era simples.
Mas também não era impossível.
— Não foi simples — respondi.
Ele passou a mão pelo cabelo.
— Então por que pareceu?
Olhei rapidamente para Khalil.
Ele continuava em silêncio, respeitando a situação, mas atento.
— A gente pode conversar lá fora — falei.
Lucas negou.
— Não. Eu quero entender agora.
O olhar dele passou rapidamente por Khalil.
Uma avaliação silenciosa.
— Ele pode esperar.
Khalil não reagiu.
Apenas manteve a postura calma, como se aquilo não o incomodasse.
— Lucas — disse eu, tentando manter a calma — não tem muito o que explicar.
— Tem sim.
Ele deu mais um passo.
— Você terminou comigo dizendo que mudou. Mas mudar assim… de um dia pro outro?
— Não foi de um dia pro outro.
— Então quando?
Respirei fundo.
— Faz tempo.
Ele ficou em silêncio por um segundo.
— Você nunca falou nada.
— Porque eu estava tentando entender.
— Entender ou se afastar?
A pergunta veio mais dura.
— Lucas…
— Você nem tentou consertar.
Aquilo me incomodou.
— Nem tudo se conserta.
Ele me encarou.
— Ou você só não quis.
O silêncio ficou mais pesado.
— Eu não quis continuar em algo que não me fazia mais feliz.
Ele desviou o olhar por um instante.
— Eu podia ter mudado.
A frase veio sincera.
E aquilo doeu um pouco.
— Talvez — respondi — mas não é sobre você mudar. É sobre eu não me sentir mais a mesma pessoa.
Lucas respirou fundo.
— E agora?
— Agora acabou.
A resposta saiu mais suave, mas firme.
Ele ficou parado, absorvendo aquilo.
O olhar dele passou novamente pelo escritório.
— Você já seguiu em frente?
— Não.
— Então por que parece que sim?
Eu não respondi.
Porque não sabia exatamente.
Talvez porque eu me sentisse… diferente.
Mais leve.
Mais focada.
Lucas assentiu lentamente.
— Eu só precisava ouvir isso de novo.
Houve um pequeno silêncio.
— Eu não vou insistir — disse ele. — Só não queria sair como se… não tivesse significado nada.
Meu peito apertou.
— Teve.
Ele me olhou por um segundo.
Depois assentiu.
— Tá.
Lucas se virou para sair, mas antes lançou um último olhar rápido para Khalil. Não foi hostil, mas foi claro: ele percebeu a presença, percebeu o ambiente, percebeu que eu estava entrando em outro mundo.
Ele saiu.
A porta se fechou.
O silêncio voltou.
Mas dessa vez… mais pesado.
Eu soltei o ar lentamente, tentando recuperar o equilíbrio.
— Desculpa — murmurei.
Khalil negou levemente.
— Não precisa.
— Ele não devia ter vindo aqui.
— Ele veio porque precisava.
Olhei para ele.
— Você acha?
— Sim.
— Por quê?
Ele respondeu com calma.
— Algumas pessoas precisam encerrar as coisas para conseguir seguir.
Aquilo fez sentido.
Assenti devagar.
Voltei para a cadeira, sentindo o cansaço emocional chegar de uma vez.
— Isso foi estranho.
— É normal.
— Você sempre sabe o que dizer?
Ele fez uma pausa.
— Não. Só digo o que parece verdade.
E, mais uma vez…
O silêncio entre nós voltou.
Mas agora havia algo diferente.
Algo mais profundo.
Como se aquele momento tivesse encerrado não só um relacionamento…
Mas também um capítulo inteiro da minha vida.