Suficiente

843 Words
Meu pai continuou falando por mais alguns minutos, revisando detalhes, prazos e pontos importantes da a******a da empresa. Eu tentava acompanhar tudo, anotando mentalmente o que parecia mais urgente, mas ainda me sentia como alguém que tinha acabado de entrar em um mundo completamente novo. Era diferente. Muito diferente. Nada ali era improvisado. Nada era feito sem pensar. Cada palavra tinha peso, cada decisão parecia mover algo maior. — Tenho uma reunião externa — disse meu pai, fechando a pasta sobre a mesa. — Volto em aproximadamente uma hora. Ele olhou primeiro para Khalil, depois para mim. — Qualquer dúvida, resolvam entre vocês. Aquilo foi simples. Natural. Mas, para mim, pareceu mais significativo do que deveria. Meu pai pegou o celular, a chave do carro e saiu com a mesma pressa controlada de sempre. A porta se fechou atrás dele, e o silêncio tomou o escritório. Diferente do silêncio da casa. Aqui era mais profissional. Mais atento. Mais… presente. Eu ainda estava segurando a pasta, olhando os documentos sem realmente ler. Percebi o movimento ao meu lado quando Khalil deu alguns passos até a mesa. — Você já trabalhou com algo assim antes? — perguntou ele. Balancei a cabeça. — Não. Só teoria da faculdade. Ele assentiu levemente. — A teoria ajuda… mas a prática é diferente. — Eu já percebi. Ele puxou uma cadeira ao lado da mesa, sem invadir meu espaço, mas se aproximando o suficiente para observar os documentos. — Podemos começar pelos prazos — disse ele. — Essa parte costuma causar problemas. Abri a pasta novamente. — Tem muita coisa. — Sim. Ele apontou para uma folha específica. — Esse aqui é o cronograma inicial. Se isso atrasar, o resto atrasa junto. Inclinei o corpo levemente para ler melhor. Eu podia sentir a presença dele ao meu lado, mas não era invasiva. Era… estável. Segura. — Então eu organizo isso primeiro? — perguntei. — É um bom começo. Peguei um bloco de notas sobre a mesa e comecei a escrever. No início, minha letra saiu mais lenta, mais cuidadosa do que o normal. — Você costuma trabalhar assim? — perguntei. — Assim como? — Direto ao ponto. Ele fez uma pausa. — Evita perder tempo. Assenti. — Faz sentido. Continuei anotando, marcando datas, organizando mentalmente o que precisava ser feito. O ambiente estava silencioso, exceto pelo som leve da caneta no papel e pelo movimento distante do escritório do lado de fora. — Seu pai é exigente — disse ele de repente. Olhei para ele. — Eu sei. — Ele não colocaria você aqui se não achasse que você consegue. Aquilo me pegou de surpresa. Não era exatamente um elogio. Mas também não era neutro. — Ou ele só quer me manter ocupada — respondi. Um leve movimento apareceu no canto da boca dele. — Talvez as duas coisas. Voltei a olhar para os documentos. — Eu não quero parecer que estou aqui só porque sou filha dele. — Então não pareça. A resposta veio simples. Direta. Levantei o olhar. — Como? Ele sustentou meu olhar por um segundo. — Trabalhe como se não fosse. Aquilo ficou na minha cabeça. Continuei organizando as folhas, separando por ordem de urgência. Aos poucos, comecei a entender melhor a estrutura. Não era simples, mas também não era impossível. — Isso aqui precisa de confirmação — falei, apontando um dos documentos. Ele inclinou o corpo levemente para ver. — Sim. Essa parte depende de um retorno jurídico. — Eu posso enviar um e-mail? — Pode. — Agora? — Agora. Peguei o notebook sobre a mesa, ainda um pouco insegura, mas determinada. Digitei o e-mail com cuidado, revisando duas vezes antes de enviar. — Pronto — disse. Ele apenas assentiu. Não houve elogio. Mas também não houve correção. E, estranhamente… aquilo já era suficiente. O silêncio voltou. Mas não era desconfortável. Eu continuei organizando os documentos, sentindo, pouco a pouco, que estava encontrando um ritmo. Era diferente de tudo que eu já tinha feito, mas havia algo ali que me desafiava. Algo que me mantinha focada. — Você aprende rápido — disse ele. Levantei o olhar. — Eu estou tentando. — Está funcionando. Dessa vez, o comentário soou mais claro. Mais direto. Um leve calor subiu pelo meu rosto, e voltei a olhar para o papel para disfarçar. — Ainda tenho muito para aprender. — Todos têm. Ele se afastou um pouco, encostando-se levemente na mesa. — Mas começar já é metade do caminho. Respirei fundo. E, pela primeira vez desde que cheguei ali… Eu não me senti deslocada. Nem pressionada. Nem observada. Apenas… concentrada. E, de alguma forma, isso me deixou mais tranquila do que qualquer outra coisa naquele dia. Quando terminei de organizar o primeiro bloco de documentos, levantei o olhar. — Acho que já temos uma base. Ele observou a pilha organizada. — Temos. O silêncio voltou mais uma vez. Mas agora era diferente. Mais leve. Mais natural. Como se, sem perceber… Nós tivéssemos encontrado um equilíbrio. Não pessoal. Não emocional. Mas profissional. E, naquele momento… Isso já parecia o suficiente.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD