Alinhados

750 Words
Khalil entrou no escritório com a mesma segurança silenciosa de sempre. O terno escuro perfeitamente alinhado, o olhar atento, a postura de alguém acostumado a ambientes como aquele. Ele cumprimentou meu pai com um aperto de mão firme, mas discreto. — Álvaro. — Khalil, entre. Meu pai indicou a cadeira à frente da mesa. Eu ainda estava próxima da janela, tentando me recompor do pequeno impacto que a presença dele sempre causava, mesmo quando eu não queria admitir. Khalil sentou-se, cruzando levemente as pernas, e só então voltou a me olhar. Não foi um olhar invasivo. Foi breve. Educado. Mas suficiente para me lembrar que agora nós estávamos em outro contexto. Formal. Profissional. Distante. Ou pelo menos deveria ser. — Estou finalizando os detalhes da a******a da nova empresa — disse meu pai, entrando direto no assunto. — A documentação principal já está praticamente pronta. Khalil assentiu. — Ótimo. Meu pai então fez algo que eu não esperava. — Maitê vai auxiliar nesse processo. O silêncio que veio depois foi curto… mas perceptível. Meu coração acelerou. Virei o rosto para encarar meu pai. — Eu vou? Ele apenas confirmou com a cabeça. — Sim. Você vai acompanhar tudo. Contrato social, estrutura jurídica, análise de riscos, cronograma de a******a. Quero que você veja cada etapa. Khalil permaneceu em silêncio por um instante, absorvendo a informação. Seus olhos claros passaram rapidamente de meu pai para mim. Não havia surpresa exagerada ali. Mas havia atenção. — Parece uma boa forma de começar — disse ele, por fim. Meu pai se apoiou levemente na mesa. — Exatamente. É um processo importante, complexo e com responsabilidade real. Ela precisa entender como isso funciona na prática. Eu dei um pequeno passo à frente. — E qual exatamente vai ser meu papel? Meu pai respondeu antes mesmo que Khalil pudesse falar. — Você vai organizar a documentação, acompanhar reuniões, revisar prazos e ajudar na comunicação entre os setores envolvidos. — Ou seja… observar. — E participar — corrigiu ele. Olhei para Khalil. — Isso não vai te incomodar? A pergunta saiu mais direta do que eu planejava. Ele sustentou meu olhar. — Não. A resposta foi simples. Sem hesitação. — Desde que você esteja disposta a aprender — acrescentou ele. Aquilo me fez erguer levemente o queixo. — Eu estou. Meu pai abriu um leve sorriso satisfeito. — Então está resolvido. Ele puxou uma pasta da mesa e a colocou à frente. — Aqui está a base do projeto. Khalil está abrindo uma nova empresa de energia no Brasil. É uma operação grande, estratégica. Você vai acompanhar desde o início. Peguei a pasta. Era pesada. Não só fisicamente. Mas simbolicamente. Abri lentamente. Documentos. Anotações. Estrutura societária. Cronogramas. Tudo muito mais sério do que qualquer coisa que eu já tinha lidado. — É bastante coisa — murmurei. — É — confirmou meu pai. — E é exatamente por isso que você vai participar. Senti o olhar de Khalil novamente. Mais atento agora. Mais avaliador. Como se estivesse tentando entender se eu realmente levaria aquilo a sério. Fechei a pasta. — Quando começamos? Meu pai respondeu: — Agora. Khalil inclinou levemente a cabeça. — Posso explicar o contexto da empresa, se quiser. Meu pai assentiu. — Perfeito. E então… Khalil se levantou. Deu alguns passos até ficar ao lado da mesa, mais próximo de mim, mas ainda mantendo a distância profissional. — A empresa vai atuar inicialmente no setor de energia e logística — começou ele, a voz calma, firme. — A ideia é estruturar operações no Brasil com expansão futura. Eu escutava com atenção. Mas também observava. O jeito como ele falava. Seguro. Objetivo. Sem exageros. Sem tentar impressionar. Ele explicava como se eu realmente fizesse parte daquilo. — Vamos precisar de agilidade na parte jurídica — continuou ele. — Existem algumas autorizações que não podem atrasar. Assenti. — Eu posso organizar os prazos. Ele olhou para mim. Direto. — Isso ajudaria. Meu pai observava em silêncio. Claramente satisfeito. — Então estamos alinhados — disse ele. — Maitê acompanha o processo. Khalil, qualquer demanda, trate diretamente com ela também. Meu coração acelerou de leve. Diretamente. Khalil apenas assentiu. — Perfeito. O silêncio que veio depois não era desconfortável. Mas era… significativo. Porque, naquele momento, algo mudava. Não era mais apenas encontros casuais. Ou conversas no jardim. Agora havia algo concreto. Algo que nos colocava no mesmo espaço. No mesmo objetivo. No mesmo processo. E, pela primeira vez… Aquilo parecia mais perigoso do que qualquer silêncio que já tivemos.
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