Estágio

829 Words
prédio era exatamente como eu imaginava. Alto. Imponente. Frio. Vidros espelhados refletindo o céu da cidade, como se aquele lugar não pertencesse ao mesmo mundo que o resto. O carro parou em frente à entrada principal, e, por um segundo, eu fiquei olhando. Era ali. O mundo do meu pai. O mundo que ele queria que fosse… meu. — Vamos — disse ele, abrindo a porta. Desci do carro e o ar da cidade me atingiu de imediato. Diferente do condomínio. Mais pesado. Mais real. Mais… movimentado. Pessoas entrando e saindo. Saltos batendo no chão. Homens de terno falando ao telefone. Tudo rápido. Tudo preciso. Nada fora do lugar. Seguimos em direção à entrada, e assim que passamos pela porta giratória, o ambiente mudou completamente. Ar-condicionado frio. Cheiro limpo. Silêncio controlado. Um tipo de silêncio diferente daquele da minha casa. Aqui não era paz. Era disciplina. — Doutor Álvaro — cumprimentou a recepcionista, imediatamente se levantando. Ele apenas assentiu. Seguro. No controle. Eu observei tudo. Os olhares discretos na minha direção. A curiosidade. Ninguém perguntou nada. Mas todos notaram. Entramos no elevador. As portas se fecharam. E, pela primeira vez desde que saímos de casa, ele falou comigo sem ser direto ao ponto. — Aqui é diferente. Soltei um pequeno suspiro. — Eu percebi. Ele olhou para frente. — Aqui, decisões têm impacto real. — Lá fora também. Ele virou o rosto levemente para mim. — Nem sempre. Aquilo me incomodou. Mas eu não respondi. O elevador parou. As portas se abriram. E o andar era… exatamente como ele. Organizado. Silencioso. Eficiente. Salas de vidro. Mesas alinhadas. Pessoas trabalhando sem distração. Sem música alta. Sem risadas vazias. Sem caos. Por um segundo… Aquilo me pareceu confortável. E eu odiei perceber isso. Caminhei ao lado dele, sentindo os olhares discretos acompanhando nossos passos. Ele parou em frente a uma porta maior. Seu escritório. Abriu. Entramos. O espaço era amplo, elegante, com uma vista absurda da cidade inteira. Uma mesa impecável, estantes organizadas, nada fora do lugar. Tudo sob controle. — Senta — disse ele. Obedeci. Mais por curiosidade do que por ordem. Ele deu a volta na mesa e se sentou na cadeira, assumindo completamente aquele lugar. Ali… Ele era maior. Mais imponente. Mais… distante. — A partir de hoje — começou ele — você vem comigo todos os dias. Meu corpo ficou tenso. — Todos os dias? — Depois da faculdade. Cruzei os braços. — Você decidiu isso sozinho? — Sim. Respirei fundo. — E o que exatamente eu vou fazer aqui? Ele entrelaçou os dedos sobre a mesa. — Observar. Aprender. Aos poucos, participar. — Participar de quê? — Do que eu faço. — Que é? Ele me encarou. Por um segundo. Como se estivesse avaliando o quanto eu realmente entendia. — Resolver problemas. Aquilo soou… mais simples do que realmente era. — Problemas de quem? — De pessoas que podem pagar por soluções. Claro. Faz sentido. Olhei ao redor. — E você acha que eu vou gostar disso? Ele não respondeu de imediato. — Eu acho que você precisa entender isso. A resposta foi diferente. Mais honesta. Mas ainda assim… Não era uma escolha. — Isso é temporário? — Não. Levantei o olhar. — Então é definitivo? — Depende de você. Aquilo me pegou de surpresa. — Como assim? — Se você se adaptar… pode ser seu futuro. Meu peito apertou. Não de medo. Mas de pressão. — E se eu não quiser esse futuro? O silêncio caiu. Ele não desviou o olhar. — Então você vai descobrir isso aqui dentro. Aquilo… Era quase justo. Quase. Mas ainda assim… Forçado. Levantei da cadeira, andando lentamente pelo escritório. Parei em frente à janela. A cidade inteira ali. Pequena. Distante. Controlável… daquele ponto de vista. — Você sempre soube que queria isso? — perguntei. Ele se levantou também. — Não. — Então por que acha que eu vou querer? Ele se aproximou alguns passos. — Porque você não é tão diferente de mim quanto pensa. Aquilo me fez virar. — Eu sou completamente diferente de você. Ele sustentou meu olhar. Calmo. Seguro. — Você acha isso agora. Meu coração acelerou. Não de atração. Mas de confronto. — Eu não quero viver controlando tudo — falei. — Não é sobre controle. — Parece muito. — É sobre responsabilidade. Silêncio. Mais uma vez. Mas dessa vez… Mais denso. Mais profundo. Mais… real. Antes que eu pudesse responder, uma batida leve na porta interrompeu. — Pode entrar — disse meu pai. A porta se abriu. E, naquele instante… O ar mudou. Khalil. Meu coração reagiu antes de mim. Rápido. Involuntário. Irritante. Mas impossível de ignorar. Ele entrou como sempre. Seguro. Elegante. Impecável. Mas, dessa vez… Os olhos dele encontraram os meus primeiro. E ficaram ali. Por um segundo a mais do que deveriam. — Interrompi? — perguntou ele, a voz calma. — Não — respondeu meu pai. — Entre. Mas algo me dizia que, a partir daquele momento… Nada ali seria simples.
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