Eu não esperava que ele fosse deixar aquilo assim.
Mas, por algumas horas… ele deixou.
O resto da manhã passou em um silêncio desconfortável. Minha mãe evitava qualquer assunto mais profundo, e eu fiquei no meu quarto, tentando organizar os pensamentos, mesmo sabendo que aquilo ainda não tinha acabado.
Porque com meu pai…
Nunca acabava.
No início da tarde, ouvi a batida na porta.
— Maitê.
Fechei os olhos por um segundo.
Claro.
— Entra.
Ele abriu a porta sem pressa.
A mesma postura de sempre.
Controlado.
Impecável.
Como se a discussão da manhã tivesse sido apenas mais um detalhe em um dia comum.
Mas eu conhecia aquele olhar.
Ele tinha decidido algo.
E isso nunca era bom.
— Se arrume — disse ele, direto.
Franzi a testa.
— Pra quê?
— Você vem comigo.
— Pra onde?
— Escritório.
Aquilo me pegou de surpresa.
— Hoje?
— A partir de hoje.
O silêncio caiu no quarto.
Eu me levantei devagar.
— Como assim “a partir de hoje”?
Ele deu alguns passos para dentro do quarto, observando o ambiente como se estivesse avaliando alguma coisa invisível.
— Você já tem idade suficiente para começar a entender como as coisas funcionam.
Cruzei os braços.
— Eu já faço faculdade.
— Não é suficiente.
A resposta veio imediata.
Sem espaço.
— Eu quero você mais perto — continuou ele. — Quero que comece a acompanhar meu trabalho.
Aquilo não era um convite.
Era uma decisão.
— Isso é porque eu terminei com o Lucas?
Ele me encarou.
Por um segundo.
Silencioso.
— Isso é porque você precisa de direção.
Meu peito apertou.
Não de dor.
De irritação.
— Eu tenho direção.
— Tem?
A pergunta veio com calma.
Mas carregada de dúvida.
— Você acabou de encerrar um relacionamento importante sem pensar nas consequências.
— Eu pensei.
— Pensou com emoção, não com lógica.
Soltei o ar, controlando a vontade de discutir.
— Nem tudo na vida é lógica.
— Tudo tem consequência.
Ele deu mais um passo.
Agora mais perto.
Mais direto.
— E eu prefiro que você esteja ao meu lado enquanto aprende isso.
Ali estava.
O verdadeiro motivo.
Controle.
Vigilância.
Presença.
— Você quer me vigiar.
Ele não negou.
Também não confirmou.
— Eu quero você perto de mim.
Aquilo poderia soar como cuidado.
Mas não soou.
Soou como decisão.
Como estratégia.
Passei a mão pelo cabelo, sentindo a tensão crescer dentro de mim.
— E se eu não quiser?
Ele não demorou nem um segundo.
— Você vai.
Simples.
Frio.
Definitivo.
Levantei o olhar.
Sustentei o dele.
— Isso não é escolha.
— Não.
O silêncio entre nós se tornou pesado.
Mas, dessa vez…
Eu não recuei.
— E o que exatamente eu vou fazer lá?
Ele deu um pequeno passo para trás, voltando ao controle total da situação.
— Observar. Aprender. Entender como funciona o mundo real.
Quase ri.
— O seu mundo.
— O mundo.
A correção veio imediata.
Mas eu não concordei.
Não em voz alta.
Ainda não.
Respirei fundo.
Talvez discutir mais não mudasse nada agora.
Talvez…
Talvez fosse melhor ver de perto.
Entender.
Ou provar para ele que aquilo não era o que eu queria.
— Que horas? — perguntei.
Um leve movimento passou pelo olhar dele.
Quase aprovação.
— Em uma hora.
Assenti.
— Tá.
Ele já estava se virando para sair quando parou na porta.
Sem olhar para mim, disse:
— E, Maitê…
Esperei.
— Isso não é punição.
Quase sorri.
Mas não de alegria.
— Parece muito.
Ele não respondeu.
Só saiu.
A porta se fechou atrás dele.
E o silêncio voltou.
Mas não era o mesmo de antes.
Agora havia algo diferente.
Uma sensação estranha.
Como se algo estivesse prestes a começar.
Caminhei até o espelho.
Me encarei por alguns segundos.
A mesma imagem.
Mas não a mesma pessoa.
— Então tá — murmurei.
Se era assim que ele queria jogar…
Talvez eu também pudesse aprender.
Me arrumei com calma.
Sem pressa.
Escolhendo cada detalhe com mais atenção do que o normal.
Não para impressionar.
Mas porque, de alguma forma…
Aquilo parecia um novo capítulo.
Quando desci, ele já estava pronto.
Esperando.
Como sempre.
— Vamos — disse ele.
Saímos juntos.
O carro já estava na porta.
Entrei sem dizer nada.
O silêncio entre nós durante o trajeto não era confortável.
Mas também não era novo.
Olhei pela janela, observando a cidade passar.
E, sem saber exatamente por quê…
Meu pensamento foi direto para uma única coisa.
Escritório.
Khalil.
Meu coração acelerou de leve.
Involuntário.
Irritante.
Mas real.
Desviei o olhar rapidamente.
Ridículo.
Balancei a cabeça.
Mas, no fundo…
Eu sabia.
Aquele dia não era só sobre trabalho.
E, talvez…
Meu pai nem fizesse ideia do que estava realmente colocando tão perto de mim.