Imatura

857 Words
O dia seguinte amanheceu silencioso demais. E, de alguma forma… isso já parecia um aviso. A casa estava organizada novamente, como se nada tivesse acontecido. Nenhum sinal da festa, nenhum vestígio do caos da noite anterior. Tudo limpo, impecável… exatamente como meu pai gostava. Como se problemas pudessem ser apagados com organização. Desci as escadas devagar, ainda sentindo o peso leve — e estranho — do término. Não era dor. Não era arrependimento. Era… consequência. E eu sabia que ela ainda não tinha terminado de chegar. — Maitê. Parei no último degrau. Meu pai. Ele estava na sala, de pé, com o celular na mão e uma expressão que eu conhecia muito bem. Fria. Controlada. Mas prestes a explodir. Suspirei internamente. Então ele já sabia. — Bom dia — falei, tentando manter a calma. — Nós precisamos conversar. Claro. Caminhei até a sala, sentindo cada passo mais pesado que o anterior. Minha mãe estava sentada no sofá, em silêncio, apenas observando. O olhar dela não era de reprovação… mas também não era de apoio. Era preocupação. Isso me incomodou mais do que se ela estivesse brava. Meu pai desligou o celular com um movimento seco. — Você terminou com o Lucas? Direto. Sem rodeios. Assenti. — Terminei. O silêncio caiu por um segundo. E então veio. — Você enlouqueceu? A voz dele não era alta. Mas era pior assim. Carregada. Controlada demais. — Não — respondi, firme. — Eu só fiz o que precisava ser feito. Ele passou a mão pelo rosto, irritado. — Lucas é filho do Henrique. Eu sabia. Todo mundo sabia. — Eu sei. — Você tem ideia do que isso significa? — Eu não terminei com ele por causa do pai dele. — Não é esse o ponto, Maitê! A voz dele subiu um pouco agora. Finalmente deixando escapar o que ele estava tentando conter. — Famílias como a nossa não funcionam assim. Relacionamentos não são só… sentimentos. Aquilo me atingiu. Mas não da forma que ele esperava. — Talvez esse seja o problema. O silêncio caiu pesado na sala. Minha mãe me olhou. Meu pai ficou imóvel por um segundo. — O que você disse? Respirei fundo. Agora não dava mais para voltar atrás. — Talvez esse seja o problema — repeti. — Tratar tudo como acordo, como conveniência… como se fosse negócio. Os olhos dele endureceram. — Você está sendo imatura. Soltei uma pequena risada, sem humor. — Engraçado. Ele franziu a testa. — O quê? — Porque eu terminei justamente porque não queria continuar em algo que não fazia mais sentido… e isso é ser imatura? Ele me encarou. E, por um segundo, eu vi. Não era só raiva. Era frustração. — Você não entende como o mundo funciona ainda — disse ele. — Talvez eu só não queira aceitar que ele funcione assim. Aquilo foi um golpe. Eu senti. Ele também. Minha mãe se mexeu no sofá, claramente desconfortável. — Maitê… — ela tentou intervir. Mas meu pai levantou a mão levemente, pedindo silêncio. Os olhos dele não saíam de mim. — Lucas é um bom rapaz. — Eu nunca disse que ele não era. — Então por que terminar? E ali estava. A pergunta. Simples. Mas carregada de tudo. Eu respirei fundo. E, pela primeira vez… Respondi sem medo. — Porque ele não é o homem que eu quero ao meu lado. O silêncio que veio depois foi… diferente. Mais pesado. Mais profundo. Como se aquela frase tivesse atravessado algo maior do que apenas aquela discussão. Meu pai me encarou por alguns segundos. Tentando entender. Ou talvez tentando aceitar que não ia conseguir controlar aquilo. — E que tipo de homem você quer, então? A pergunta veio mais baixa. Mas mais perigosa. Eu hesitei. Por um segundo. Porque, sem querer… Um rosto veio à minha mente. Olhos claros. Postura firme. Silêncio carregado de presença. Desviei o olhar. Erro. — Eu ainda estou descobrindo — respondi. Meu pai soltou um suspiro irritado. — Enquanto você descobre, está jogando fora oportunidades que muitas pessoas fariam qualquer coisa para ter. — Eu não sou “muitas pessoas”. Ele ficou em silêncio. E, dessa vez… Não tinha mais argumento pronto. Apenas frustração. — Você vai falar com o Lucas — disse ele, firme. — Vai resolver isso. Meu coração apertou. Mas não por dúvida. — Não vou. A resposta saiu calma. Definitiva. Ele me encarou. — Maitê— — Eu não vou voltar atrás. O silêncio voltou. Mas agora era final. Sem espaço. Sem negociação. Meu pai fechou os olhos por um segundo, respirando fundo. Quando abriu, estava mais frio. Mais distante. — Você está fazendo uma escolha. Assenti. — Eu sei. — Então arque com as consequências. Aquilo não foi uma ameaça. Foi um aviso. E eu entendi. — Eu vou. Virei antes que ele pudesse dizer mais alguma coisa. Subi as escadas sem olhar para trás. Sem parar. Sem fugir. Mas também sem ceder. Porque, pela primeira vez… Eu não estava tentando agradar ninguém. Nem meu pai. Nem Lucas. Nem o mundo que esperava algo de mim. Eu estava escolhendo. E, mesmo que fosse difícil… Aquilo parecia certo.
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