Livre

811 Words
barulho voltou aos poucos. Como se o mundo estivesse retomando o volume depois de ter ficado mudo por alguns segundos. A música. As vozes. Os passos. Mas, dentro de mim… ainda estava tudo em silêncio. Eu não me movi. Fiquei ali, parada, olhando para o vazio por um instante, sentindo o peso do que tinha acabado de acontecer… e, ao mesmo tempo, uma leveza estranha crescendo no peito. Não era felicidade. Ainda não. Mas também não era dor. Era… espaço. Como se algo tivesse sido arrancado de mim. E agora havia lugar para outra coisa. Respirei fundo. Uma vez. Duas. Tentando me acostumar com a sensação. Então virei. E caminhei. Sem olhar para ninguém. Sem parar. Sem querer explicações, perguntas ou olhares curiosos. Passei pela sala como se não fizesse parte dela. Como se aquilo tudo fosse distante. Irreal. Empurrei a porta de vidro novamente. E o silêncio me encontrou do outro lado. O jardim estava como antes. Calmo. Escuro na medida certa. A piscina refletia as luzes suaves ao redor, criando pequenas ondas de luz na água parada. O ar parecia mais leve. Mais respirável. Mais… meu. Caminhei até a beira da piscina, mais devagar dessa vez. Sem pressa. Sem fugir. Apenas… indo. Sentei no mesmo lugar de antes. Os pés tocaram a água fria. O arrepio veio de novo. Mas dessa vez foi diferente. Mais suave. Encostei as mãos atrás do corpo e inclinei o rosto para o céu. As estrelas estavam mais visíveis agora. A noite já tinha tomado conta completamente. E, por um momento… Tudo parecia em ordem. Mesmo não estando. Ouvi passos. Não me virei. Eu já sabia. Ele não fazia barulho. Mas eu sabia. Khalil parou a alguns passos de distância. Não perto demais. Não longe demais. A distância exata. Ficamos em silêncio. De novo. Mas não era estranho. Não era desconfortável. Era… necessário. Como se palavras estragassem aquele momento. Como se qualquer coisa dita diminuísse o que estava ali. Eu respirei fundo. E falei, sem olhar para ele. — Eu terminei. A frase saiu simples. Sem drama. Sem peso exagerado. Mas carregada de verdade. Houve uma pequena pausa. E então a voz dele veio. Baixa. Controlada. — Eu percebi. Quase sorri. Claro que ele percebeu. Khalil não era o tipo de homem que deixava passar esse tipo de coisa. Passei os dedos pela água, distraída. — Foi estranho. — Por quê? Pensei por um segundo. — Porque não doeu do jeito que eu achei que ia doer. Silêncio. — Isso não é estranho — disse ele. — Não? — Não. Olhei para frente, ainda evitando encará-lo. — Parece que deveria ser. Ele deu mais um passo. Agora estava um pouco mais perto. Mas ainda respeitando um limite invisível. — Só dói quando ainda existe algo para segurar. A frase ficou no ar. E fez sentido. Muito mais do que eu gostaria. Assenti devagar. — Acho que eu já tinha soltado… antes mesmo de terminar. — Provavelmente. O jeito como ele disse aquilo… Sem julgamento. Sem suavizar. Só… direto. Aquilo era quase reconfortante. Virei o rosto, finalmente olhando para ele. Khalil estava com a mesma expressão de sempre. Calma. Firme. Mas havia algo a mais ali. Algo mais atento. Mais presente. — Você sempre fala assim? — perguntei. Ele arqueou levemente a sobrancelha. — Assim como? — Como se tudo fosse simples. Um canto da boca dele se curvou. — Eu não disse que é simples. Fez uma pausa. — Eu só disse como é. Sustentei o olhar. — E isso não te incomoda? — O quê? — As coisas serem… assim. Ele me observou por um segundo mais longo. Como se estivesse decidindo o quanto responder. — Eu prefiro lidar com a realidade do que com expectativas que não existem. Aquilo me fez pensar. De verdade. — Eu acho que eu passei muito tempo tentando fazer algo dar certo só porque… deveria dar. — Isso acontece. — Com você também? A pergunta escapou antes que eu pudesse impedir. Ele ficou em silêncio. E, pela primeira vez… Pareceu hesitar. Mas só por um segundo. — Já aconteceu. Não disse mais nada. E, estranhamente… Aquilo foi suficiente. Voltei a olhar para a água. — Eu achei que ia me sentir pior. — E como você se sente? Pensei. Senti. Procurei a palavra certa. — Livre. A resposta veio baixa. Mas verdadeira. Ele assentiu. Como se já esperasse aquilo. O silêncio voltou. Mas agora era diferente. Mais leve. Mais… confortável. Como se aquele espaço entre nós não fosse vazio. Mas cheio de coisas que ainda não tinham sido ditas. E talvez nem precisassem ser. Fiquei ali, com os pés na água, sentindo a noite ao meu redor. E, pela primeira vez naquele dia… Sem confusão. Sem incômodo. Sem necessidade de fugir. Apenas… ali. Com ele. E, de alguma forma estranha… Aquilo parecia exatamente onde eu deveria estar.
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