O dia estava lindo.
Um sol maravilhoso iluminava o céu azul, daqueles que parecem pintados à mão. O calor suave da manhã tornava o ar leve e convidativo, perfeito para um sábado preguiçoso. O tipo de dia em que tudo o que alguém quer fazer é esquecer o mundo e se jogar na água fresca de uma piscina.
Passei pelo portão do condomínio caminhando, sentindo o calor do sol tocar minha pele. As árvores altas que cercavam a entrada balançavam lentamente com a brisa, espalhando sombras no caminho de pedras claras.
Dispensei o motorista hoje.
Ele ficou confuso quando disse que queria voltar andando, como se aquilo fosse a coisa mais estranha do mundo. Talvez fosse mesmo. Pessoas que moram aqui não costumam caminhar por aí. Elas entram e saem de carros caros, vidros escuros e motoristas uniformizados.
Mas hoje eu queria sentir o ar.
Queria sentir que estava viva.
Na minha cabeça só pensava na piscina da minha casa.
Água fria, silêncio e talvez um pouco de música. Nada de compromissos, nada de convidados importantes do meu pai, nada de conversas sobre processos milionários ou clientes influentes.
Só eu.
Caminhei pela rua larga do condomínio observando as mansões ao redor. Casas enormes, jardins perfeitamente podados, carros que valiam mais do que muitas pessoas ganham na vida inteira.
Era bonito.
Mas às vezes também parecia uma gaiola dourada.
Suspirei, passando a mão pelo cabelo enquanto caminhava. Os fios escuros caíram sobre meus ombros e a mecha azul que eu mesma tinha pintado no mês passado balançou com o movimento.
Minha mãe quase teve um ataque quando viu.
Meu pai fingiu que não notou.
Sorri sozinha ao lembrar disso.
Continuei andando, deixando o sol aquecer minha pele. Eu estava usando um vestido leve de verão e sandálias simples, algo raro para alguém que cresceu ouvindo que precisava sempre parecer “impecável”.
A verdade é que eu não estava com humor para impecável.
Eu só queria um sábado.
A casa apareceu no final da rua, imensa como sempre. As paredes claras refletiam a luz do sol e as janelas enormes davam para o jardim que parecia mais um pequeno parque.
A fonte no centro do gramado já estava ligada.
Meu pai sempre dizia que uma casa precisava causar impacto.
E a nossa certamente causava.
Empurrei o portão menor ao lado da garagem e entrei no jardim da frente. O perfume das flores recém-regadas pairava no ar e o som suave da água da fonte misturava-se com o canto distante de alguns pássaros.
Tudo parecia tranquilo.
Silencioso.
Perfeito.
Até eu notar o carro.
Parei no meio do caminho.
Um carro preto estava estacionado em frente à casa.
Não era um dos carros do meu pai.
Franzi a testa, observando o veículo. Era um modelo luxuoso, elegante, daqueles que chamam atenção mesmo quando estão completamente parados.
Cliente.
Meu pai vivia recebendo clientes em casa, especialmente os mais importantes.
Revirei os olhos mentalmente.
Então lá se ia minha paz.
Provavelmente haveria conversas longas na sala, vozes graves discutindo negócios e talvez até um jantar formal que eu seria obrigada a participar para “manter a imagem da família”.
Suspirei.
Mas tudo bem.
Eu ainda tinha a piscina.
Contornei a lateral da casa, já imaginando o mergulho refrescante que estava prestes a dar.
Foi quando a porta da frente se abriu.
Instintivamente virei o rosto naquela direção.
Um homem saiu da casa.
Por um segundo, meu cérebro demorou a processar o que estava vendo.
Ele era alto.
Alto de um jeito que fazia qualquer pessoa parecer menor ao lado dele. Vestia um terno escuro perfeitamente ajustado ao corpo, a gravata impecável e os movimentos seguros de alguém que estava acostumado a comandar salas inteiras com apenas a presença.
Cabelo loiro.
Olhos claros.
Mesmo à distância eu podia perceber o quanto ele era… impressionante.
Ele parou no topo dos degraus da entrada, como se estivesse esperando alguém.
E então seus olhos encontraram os meus.
Meu coração falhou uma batida.
Foi um olhar rápido.
Mas intenso o suficiente para me fazer sentir como se tivesse sido observada por muito mais tempo.
Ele não desviou imediatamente.
Pelo contrário.
Parecia… curioso.
Inclinei levemente a cabeça, analisando-o com o mesmo descaramento.
Quem era ele?
Não parecia apenas um cliente qualquer.
Havia algo diferente na postura dele. Uma confiança silenciosa, quase perigosa.
Ele finalmente começou a descer os degraus.
E quanto mais se aproximava, mais eu percebia os detalhes.
A barba curta perfeitamente alinhada.
Os olhos claros que pareciam avaliar tudo ao redor.
O relógio caro em seu pulso.
Meu pai tinha clientes ricos.
Mas aquele homem parecia estar em outro nível.
Quando chegou ao final da escada, ele parou.
Por um instante, o silêncio se estendeu entre nós.
Então ele falou.
A voz era grave.
Calma.
Controlada.
— Você deve ser a filha do doutor Álvaro.
Um arrepio percorreu minha pele.
Eu não sabia exatamente por quê.
Talvez fosse o jeito como ele disse aquilo.
Talvez fosse o jeito como ele ainda me olhava.
Ergui o queixo levemente.
— Sou.
Um pequeno sorriso apareceu no canto da boca dele.
Não era exatamente simpático.
Era… interessante.
Perigoso, talvez.
Ele deu um passo mais perto.
— Prazer.
Houve uma breve pausa.
Então ele completou:
— Eu faço negócios com o seu pai.
Por algum motivo, aquilo soou muito mais significativo do que deveria.
Inclinei levemente a cabeça.
— Imagino que faça.
O sorriso dele aumentou um pouco.
Mas algo mudou no olhar.
Algo mais atento.
Mais interessado.
Por um segundo, tive a estranha sensação de que aquele homem estava tentando entender alguma coisa sobre mim.
E eu ainda nem sabia o nome dele.