Prazer

690 Words
O silêncio da casa nunca durava muito tempo. Eu m*l tinha dado alguns passos em direção ao jardim quando ouvi a voz do meu pai ecoando pelo interior da casa. — Maitê! Suspirei. Olhei rapidamente para a piscina ao fundo do jardim, a água azul brilhando sob o sol de sábado, prometendo exatamente o tipo de descanso que eu queria. Mas meu pai raramente chamava duas vezes. E quando chamava daquele jeito… significava visita importante. Dei meia-volta e caminhei de volta para a casa. Assim que entrei, o ar fresco do ar-condicionado me envolveu, contrastando com o calor agradável do lado de fora. O piso de mármore refletia a luz que entrava pelas enormes janelas da sala, e o cheiro familiar do almoço sendo preparado vinha da cozinha. Minha mãe estava ali. Elegante como sempre, mesmo em um sábado. Vestia um conjunto claro e seus cabelos perfeitamente arrumados denunciavam que ela já sabia que teríamos companhia para o almoço. Ela me lançou um olhar rápido. Aquele olhar de mãe que diz “comporte-se.” Eu ergui uma sobrancelha. — O que foi? — Seu pai quer falar com você na sala — respondeu ela calmamente. Claro que quer. Caminhei em direção à sala principal. E foi impossível não sentir aquela pequena tensão no estômago quando o vi novamente. Khalil Al-Nasser estava sentado no sofá. O terno escuro caía perfeitamente sobre os ombros largos, e ele conversava com meu pai com uma tranquilidade impressionante, como se aquele lugar fosse tão familiar para ele quanto para nós. Meu pai levantou os olhos quando entrei. — Ah, Maitê, venha cá. Obedeci, caminhando até eles. Khalil também olhou para mim. O olhar dele foi rápido. Educado. Nada do momento estranho que tivemos lá fora. Se alguém observasse aquela cena, pensaria que éramos completos desconhecidos. Talvez fosse melhor assim. Meu pai colocou a mão no meu ombro. — Esta é minha filha, Maitê. Olhei diretamente para Khalil. Ele se levantou. O gesto foi lento, elegante. — Prazer — disse ele. A voz dele era a mesma de antes. Grave. Calma. Controlada. Meu pai continuou: — Maitê, este é Khalil Al-Nasser. Fiz uma pequena pausa. O nome soou importante. Mesmo para mim. Meu pai não apresentava clientes daquela forma. Ele continuou, com um leve orgulho na voz: — Além de cliente, Khalil é um grande amigo. Os olhos claros dele se voltaram para mim novamente. Dessa vez havia algo diferente ali. Algo mais atento. Mas durou apenas um segundo. Inclinei levemente a cabeça. — Prazer em conhecê-lo. Ele respondeu apenas com um pequeno aceno. Formal. Distante. Perfeito. Se alguém olhasse aquela cena, jamais imaginaria que alguns minutos antes nós dois estávamos nos encarando no jardim como se algo invisível tivesse nos puxado para aquele momento. Minha mãe apareceu na sala logo depois. — O almoço está pronto. Meu pai abriu um sorriso satisfeito. — Excelente. A mesa da sala de jantar já estava posta. Pratos de porcelana, talheres brilhando sob a luz do lustre e o aroma delicioso da comida se espalhando pelo ambiente. Nos sentamos. Meu pai e Khalil começaram a conversar quase imediatamente. Negócios. Investimentos. Mercado internacional. Palavras que eu ouvia desde criança, mas que raramente despertavam meu interesse. Minha mãe participava ocasionalmente da conversa, sempre educada e elegante. Eu fiquei quieta. Comendo. Observando. E tentando ignorar completamente o fato de que Khalil estava sentado bem à minha frente. Ele também não falou comigo. Nenhuma pergunta. Nenhum comentário. Nada. Era como se eu simplesmente não existisse naquela mesa. E talvez fosse exatamente isso que ele queria. Mas mesmo assim… De vez em quando eu percebia. Aqueles olhos claros se movendo. Rápidos. Discretos. Como se ele estivesse apenas verificando algo. Ou alguém. Na terceira vez que isso aconteceu, levantei o olhar. Nossos olhos se encontraram. Por apenas um segundo. O suficiente para perceber que ele também tinha notado. Mas Khalil foi o primeiro a desviar. Continuou a conversa com meu pai como se nada tivesse acontecido. Como se eu fosse apenas mais um detalhe da casa. Engraçado. Porque algo me dizia que, de alguma forma… Eu não era. E talvez isso fosse exatamente o problema.
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