Infantil

788 Words
Depois do almoço, eu não esperei muito tempo. Assim que meu pai e Khalil voltaram para a sala para continuar falando sobre negócios e minha mãe foi supervisionar alguma coisa na cozinha, eu simplesmente me levantei da mesa. — Vou para a piscina — anunciei. Minha mãe assentiu distraída. Meu pai nem ouviu. Khalil… eu não olhei. Saí da casa pela porta de vidro que dava para o jardim, sentindo imediatamente o calor do sol envolver meu corpo outra vez. O ar lá fora estava perfeito, quente na medida certa, e a brisa suave fazia as folhas das palmeiras balançarem lentamente. A piscina brilhava à minha frente como um convite. Caminhei até a borda e tirei as sandálias, sentindo o piso aquecido sob meus pés. A água refletia o céu azul quase sem uma única nuvem. Era exatamente o que eu precisava. Silêncio. Paz. Tirei o vestido leve que usava, ficando apenas com o biquíni preto por baixo. Me sentei na borda da piscina e mergulhei os pés na água fria. Um arrepio percorreu minha pele. Perfeito. Inclinei o corpo para trás, apoiando as mãos no chão e fechando os olhos por um momento, deixando o sol tocar meu rosto. Por alguns segundos, consegui simplesmente existir ali. Sem pensar em nada. Mas, como sempre acontecia… minha mente encontrou alguma coisa para me incomodar. Lucas. Soltei um suspiro irritado. Peguei o celular que tinha deixado ao meu lado e olhei para a tela. Três mensagens novas. Todas dele. Revirei os olhos. Não precisei nem abrir para saber o conteúdo. Lucas sempre foi… intenso demais. No começo, aquilo parecia interessante. Ele era divertido, cheio de energia, sempre fazendo algo inesperado. Mas nos últimos meses aquilo tinha deixado de ser divertido. Tinha se tornado… cansativo. Abri a conversa. Lucas: "Por que você sumiu ontem?" Lucas: "Você estava online e não respondeu." Lucas: "Maitê, você está estranha comigo." Soltei uma pequena risada sem humor. Estranha. Talvez eu estivesse mesmo. Mas não era exatamente o que ele pensava. Lucas tinha dezenove anos, estudava na mesma faculdade que eu e, segundo a opinião de quase todas as minhas amigas, era “perfeito”. Bonito. Popular. Engraçado. Infantil. Esse último detalhe ninguém parecia notar além de mim. Ele brigava por coisas idiotas, fazia ciúmes de propósito, queria atenção o tempo inteiro e transformava qualquer pequena discussão em um drama enorme. No começo eu achava aquilo fofo. Agora só me deixava cansada. Muito cansada. Bloqueei a tela do celular e o deixei de lado novamente. Balancei os pés dentro da água, criando pequenas ondas na superfície da piscina. Talvez o problema fosse eu. Talvez eu simplesmente tivesse perdido a paciência. Ou talvez… Talvez eu tivesse começado a perceber que aquele tipo de relacionamento já não fazia mais sentido para mim. Passei a mão pelo cabelo, puxando os fios escuros para trás. A mecha azul caiu sobre meu ombro, brilhando sob a luz do sol. Lucas odiava aquela mecha. Dizia que parecia coisa de adolescente rebelde. Sorri sozinha. Engraçado. Ele dizia isso… enquanto fazia exatamente coisas de adolescente. Encostei as mãos atrás do corpo novamente e observei o jardim silencioso ao redor da piscina. A casa parecia tranquila. Mas, de alguma forma, eu sabia que não estava completamente sozinha ali. Porque dentro daquela casa estava Khalil Al-Nasser. Bilionário. Empresário. Amigo do meu pai. Um homem que parecia completamente deslocado em qualquer lugar que não fosse um prédio de vidro no meio de uma cidade gigantesca. E ainda assim… De alguma forma ele tinha acabado na minha casa. Passei a ponta dos dedos pela superfície da água, distraída. E sem perceber, minha mente voltou para aquele momento no jardim mais cedo. O jeito como ele tinha olhado para mim. Direto. Silencioso. Como se estivesse tentando entender alguma coisa. Balancei a cabeça levemente. Ridículo. Ele provavelmente nem tinha pensado duas vezes sobre aquilo. Homens como Khalil Al-Nasser deviam conviver com mulheres muito mais interessantes do que eu todos os dias. Modelos. Atrizes. Mulheres sofisticadas. Não garotas de dezoito anos sentadas na beira da piscina reclamando do namorado. Soltei um pequeno suspiro e mergulhei os pés mais fundo na água. Talvez fosse hora de terminar com Lucas. Aquela ideia vinha aparecendo na minha cabeça com cada vez mais frequência. E, pela primeira vez, não parecia assustadora. Parecia… inevitável. Inclinei o rosto para o céu, deixando o sol aquecer minha pele outra vez. Talvez aquele sábado ainda pudesse ser tranquilo. Talvez nada de interessante acontecesse. Talvez aquele homem poderoso dentro da minha casa voltasse para a vida dele cheia de negócios milionários e aviões particulares… E eu voltasse para a minha rotina comum. Talvez. Mas alguma coisa dentro de mim dizia que aquele sábado… Ainda não tinha terminado de surpreender.
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