A paz não durou nem duas horas.
Eu ainda estava na piscina quando comecei a ouvir o som.
Primeiro baixo.
Depois mais alto.
Música.
Muita música.
Franzi a testa, me levantando da borda da piscina e olhando em direção à casa. As janelas estavam abertas e, mesmo dali de fora, já dava para ouvir claramente o som grave batendo.
Revirei os olhos.
Só podia ser uma pessoa.
— Claro, Ana…
Minha irmã.
Dezesseis anos, energia infinita e absolutamente nenhuma noção de limites quando nossos pais não estavam prestando atenção.
Saí da piscina, a água escorrendo pelo meu corpo, e peguei a toalha, me secando rapidamente enquanto caminhava em direção à casa.
Assim que entrei…
O caos.
A sala estava cheia.
Adolescentes espalhados por todos os lados, rindo alto, falando ao mesmo tempo, música tocando em um volume que fazia o chão vibrar levemente.
Copos na mão.
Perfume doce demais no ar.
E aquela sensação sufocante de estar no meio de algo que eu… simplesmente não queria.
— Maitê!
A voz animada da Ana veio da escada. Ela desceu correndo, usando um short curto e uma blusa que provavelmente ela pegou escondida do meu guarda-roupa.
— Você viu? — perguntou, sorrindo. — Fiz uma festinha.
— Eu estou vendo — respondi, seca.
Ela revirou os olhos.
— Relaxa, papai nem tá aqui.
Claro que não estava.
Provavelmente ainda trancado no escritório com Khalil.
Só de pensar nisso, senti algo estranho no peito.
Ignorei.
— Só não quebra nada — falei, já passando por ela.
— Você é chata — ouvi ela dizer atrás de mim.
Talvez eu fosse.
Mas naquele momento, eu só queria sair dali.
Caminhei pela sala tentando não esbarrar em ninguém. Alguns rostos conhecidos, outros nem tanto. Gente rindo alto demais, se tocando demais, vivendo intensamente demais…
Ou talvez apenas fingindo.
Passei a mão no cabelo, já me sentindo incomodada.
Era estranho.
Eu deveria gostar daquilo.
Era a minha idade.
Minha fase.
Mas não parecia.
Não fazia sentido.
Tudo ali parecia… pequeno demais.
Superficial demais.
Infantil demais.
— Maitê!
Fechei os olhos por um segundo antes de me virar.
Lucas.
Claro.
Ele vinha na minha direção com aquele sorriso fácil de sempre, como se nada estivesse errado.
Como se tudo estivesse perfeitamente normal.
— Você sumiu hoje — disse ele, já se aproximando.
— Eu estava ocupada.
— Com o quê?
— Comigo mesma.
Ele riu, como se fosse brincadeira.
Mas não era.
Lucas chegou mais perto e colocou a mão na minha cintura.
Automaticamente, meu corpo enrijeceu.
Antes eu não percebia.
Agora eu percebia.
Cada detalhe.
O toque.
A forma como ele me puxava.
Como se fosse natural.
Como se tivesse direito.
— Você tá estranha — murmurou, aproximando o rosto do meu.
— Talvez eu esteja só cansada.
— De mim?
Suspirei.
— De tudo.
Ele não pareceu entender.
Nunca parecia.
Lucas se inclinou e me beijou.
E foi nesse momento que ficou claro.
Algo tinha mudado.
O beijo dele, que antes parecia leve, divertido… agora parecia vazio.
Automático.
Sem profundidade.
Sem significado.
Afastei o rosto antes que ele aprofundasse.
Ele franziu a testa.
— O que foi?
Balancei a cabeça.
— Nada.
Mas não era nada.
Era tudo.
O jeito como aquilo já não me fazia sentir nada.
O jeito como eu estava ali, no meio de uma festa, com meu namorado, e ainda assim me sentindo completamente deslocada.
Ele tentou me puxar de novo, a mão descendo pela minha cintura.
Eu segurei o pulso dele.
— Lucas…
— O quê?
— Para.
Ele me olhou confuso.
— Você nunca foi assim.
— Eu sei.
E talvez esse fosse o problema.
Soltei a mão dele e dei um passo para trás.
O barulho da música parecia ainda mais alto agora.
As risadas mais irritantes.
As conversas mais vazias.
Olhei ao redor mais uma vez.
E tive certeza.
Eu não pertencia mais àquele tipo de ambiente.
Não daquele jeito.
Não com aquelas pessoas.
Minha atenção se desviou automaticamente para o corredor que levava ao escritório do meu pai.
Silencioso.
Fechado.
Separado de todo aquele caos.
Onde provavelmente Khalil ainda estava.
Um homem completamente oposto a tudo aquilo.
Sério.
Controlado.
Maduro.
Perigoso.
Meu coração acelerou por um segundo.
Desviei o olhar imediatamente.
Ridículo.
Voltei a encarar Lucas.
Ele ainda parecia confuso, esperando alguma explicação que eu não sabia como dar.
Talvez porque nem eu mesma entendia completamente.
Só sabia de uma coisa.
Aquilo…
Já não era suficiente.