Caos

910 Words
O barulho voltou antes mesmo de eu entrar. Mais alto. Mais pesado. Mais… descontrolado. Fiquei parada por um segundo na porta de vidro, olhando a sala como se estivesse vendo aquilo pela primeira vez. As luzes estavam mais fortes, a música mais alta, e havia ainda mais gente do que antes. Gente que eu não conhecia. Gente que claramente não deveria estar ali. Meu estômago revirou. As palavras de Khalil ecoaram na minha cabeça. “As pessoas que entram quando ninguém está prestando atenção.” Droga. Empurrei a porta e entrei. O ar estava mais quente, mais denso. O cheiro de bebida se misturava com perfume doce demais e alguma coisa que eu nem queria identificar. Ana estava no meio da sala, rindo alto, completamente entregue àquela energia caótica, como se aquilo fosse exatamente o que ela queria. Como se aquilo fosse normal. Mas não era. Não daquele jeito. Caminhei em direção a ela, desviando de corpos, mãos, copos. Alguém esbarrou em mim e nem pediu desculpa. Respira, Maitê. — Ana — chamei, firme. Ela virou, sorrindo. — Você voltou! — O que está acontecendo aqui? Ela riu. — Uma festa? — Tem gente aqui que você nem conhece. — Relaxa! Relaxar. Claro. Olhei ao redor mais uma vez. Dois garotos discutindo perto do sofá. Uma garota rindo alto demais, quase caindo. Um grupo perto da escada abrindo outra garrafa. Aquilo não era mais só uma “festinha”. Era um problema esperando para acontecer. — Isso precisa acabar — falei, mais baixo. Ana revirou os olhos. — Você está exagerando. Talvez. Mas meu corpo dizia o contrário. Meu instinto gritava que aquilo estava errado. Antes que eu pudesse responder, um barulho seco cortou a música. Algo caiu. Ou quebrou. Todos olharam na mesma direção. Um dos garotos tinha derrubado um vaso decorativo. Estilhaços espalhados pelo chão, o som ainda ecoando na sala. Silêncio. Por dois segundos. Depois… risadas. Meu coração apertou. — Tá tudo bem! — alguém gritou. Não. Não estava. Passei a mão no cabelo, sentindo a tensão crescer dentro de mim. Aquilo estava saindo do controle. E ninguém parecia perceber. Ou se importar. — Maitê. Fechei os olhos por um segundo. Lucas. Me virei devagar. Ele vinha na minha direção, com um sorriso estranho no rosto. Não estava bêbado o suficiente para cair… mas o suficiente para falar demais. — Você sumiu — disse ele. — Eu precisava de ar. — E agora? — Agora eu estou vendo que isso aqui não foi uma boa ideia. Ele riu. — Você está dramática. Aquela palavra me irritou mais do que deveria. — Não, Lucas. Eu estou sendo realista. Ele chegou mais perto. Perto demais. — Você anda estranha — murmurou. — Desde quando você virou… isso? — Isso o quê? — Chata. Aquilo doeu. Mais do que deveria. Mas não porque ele estava certo. E sim porque ele não entendia. Não fazia a menor ideia do que estava acontecendo comigo. — Eu só não quero mais esse tipo de coisa — falei, firme. Ele me olhou como se eu tivesse falado outro idioma. — Esse tipo de coisa? — Isso — apontei ao redor — esse caos. Essa infantilidade. O sorriso dele desapareceu. — Você também era assim. — Eu sei. E talvez essa fosse a pior parte. Ele deu um passo mais perto, a mão indo direto para a minha cintura. Meu corpo travou. Antes eu não percebia. Agora eu sentia. Cada toque. Cada movimento. Cada coisa que parecia automática demais. Errada demais. — Para — falei. Ele não parou. — Qual é, Maitê… Segurei o pulso dele. Mais forte dessa vez. — Eu disse para. O olhar dele mudou. Confuso. Ferido. — O que está acontecendo com você? Eu respirei fundo. Tentando encontrar as palavras. Mas a verdade era simples. E difícil ao mesmo tempo. — Eu estou mudando. Ele riu, sem humor. — Não. Você só está sendo influenciada. Franzi a testa. — Influenciada por quem? Ele não respondeu. Mas eu senti. A insinuação. E aquilo me irritou. — Para de tentar me diminuir para se sentir melhor, Lucas. O silêncio caiu entre nós. Pesado. Ele soltou meu braço. — Você está se achando melhor que todo mundo agora? Balancei a cabeça. — Não. Eu só não quero mais fingir que isso aqui me faz bem. Um empurrão aconteceu perto de nós. A discussão que eu tinha visto antes escalou. Dois garotos agora se encaravam de verdade. Um deles derrubou um copo. Outro respondeu. As vozes subiram. Meu coração acelerou. — Tá vendo? — falei, olhando para Lucas. — É disso que eu estou falando. Mas ele não respondeu. Ele só me encarava. Como se estivesse perdendo alguma coisa. Talvez estivesse mesmo. Alguém gritou. A briga começou. E naquele instante… Eu soube. Aquilo tinha passado do limite. Olhei ao redor, procurando Ana. Mas ela estava rindo. Como se fosse divertido. Como se fosse apenas mais uma cena. Meu peito apertou. Foi então que senti. Aquela sensação de novo. Virei o rosto. E ele estava lá. Khalil. Parado no corredor. Observando. Silencioso. Distante. Mas atento a tudo. Os olhos dele passaram pela cena. Pela briga. Pelo caos. E então pararam em mim. Por um segundo. Apenas um segundo. Mas foi suficiente. Não havia surpresa no olhar dele. Apenas confirmação. Ele estava certo. E eu sabia disso. Desviei o olhar primeiro. Porque, de alguma forma… Aquilo me atingiu mais do que qualquer outra coisa naquela noite.
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