O silêncio depois dela falar aquilo não era paz.
Era tensão.
Daquelas que não relaxam… só esperam o próximo estalo.
Penélope estava deitada no meio de nós como se tivesse vencido mais uma guerra que nem precisava existir. O dedo dela desenhava coisas aleatórias na minha mão enquanto ela fingia tranquilidade.
Fingia.
Porque eu conhecia aquele olhar.
Ela não estava calma.
Ela estava observando.
— Você ficou três meses sumida — eu falei baixo, sem tirar os olhos dela.
Ela nem piscou.
— Eu precisava pensar.
Dante soltou um riso curto.
— Pensar? Você simplesmente desapareceu.
Ela virou o rosto devagar pra ele.
— E vocês ficaram quietinhos, não ficaram?
Alan bufou.
— Quietinhos? A gente quase virou a cidade de cabeça pra baixo te procurando.
Liam apertou a mão dela de leve, mas firme.
— A gente achou que tinha acontecido alguma coisa.
Ela suspirou, como se aquilo fosse exagero nosso.
— Não aconteceu nada.
Silêncio.
Eu me inclinei um pouco.
— Mentira.
Os olhos verdes dela vieram direto pros meus.
Aquele tipo de olhar que não recua.
— Você tá me chamando de mentirosa, Tyler?
Meu nome na boca dela sempre vinha com veneno doce.
Eu não desviei.
— Tô.
Dante se mexeu, já ficando mais alerta.
— Fala a verdade, Penélope.
Ela sentou devagar no meio de nós, puxando a camisola no corpo como se estivesse se reorganizando por dentro também.
— A verdade? — ela riu sem humor. — A verdade é que eu não gostei do que vi.
Alan franziu a testa.
— Do que você viu?
Ela olhou um por um.
Um por um.
Como se estivesse escolhendo onde machucar primeiro.
— Vocês… sorrindo.
Silêncio pesado.
Liam soltou o ar devagar.
— Isso é o motivo?
— Não — ela respondeu rápido demais. — Não só isso.
Eu já sabia.
Sempre havia mais.
Ela desviou o olhar por um segundo.
— Eu vi vocês seguindo suas vidas como se… como se eu fosse só uma parte conveniente.
Dante ficou sério na hora.
— Conveniente?
Ela deu de ombros.
— Eu vi vocês funcionando sem mim.
Alan passou a mão no rosto, irritado.
— A gente não “funciona sem você”, Penélope. A gente só não fica destruindo tudo quando você some.
Ela riu de leve.
— Ah, então eu sou o caos agora?
Eu encarei ela.
— Você sempre foi.
Silêncio.
Ela engoliu seco.
Só um segundo.
Mas eu vi.
— Então pronto — ela falou, levantando da cama de repente. — Agora vocês têm seu caos de volta.
Liam levantou também.
— Não é assim.
Ela já estava andando pelo quarto.
— É assim sim.
Dante veio atrás, a voz mais baixa, perigosa:
— Você acha que a gente quer isso? Essa guerra toda?
Ela parou.
Virou devagar.
— Querem.
Eu levantei também agora.
— Não.
Ela riu, mas não tinha alegria.
— Vocês me perseguem, me provocam, me querem por perto o tempo todo… mas quando eu sumo vocês ficam irritados porque perdem o controle.
Alan deu um passo.
— A gente fica irritado porque você some sem explicação.
Ela inclinou a cabeça.
— E se eu explicasse, mudava alguma coisa?
Silêncio.
Porque não mudava.
E isso doía mais do que qualquer resposta.
Liam foi o primeiro a admitir em voz baixa:
— Não.
Ela respirou fundo, passando a mão no cabelo.
— Então pronto.
Mas dessa vez eu segurei o pulso dela.
Firme.
Sem machucar.
Mas sem deixar escapar.
— Não termina assim.
Ela olhou pra minha mão no pulso dela.
Depois pra mim.
— Tyler…
— Não. — eu cortei. — Você não some por três meses, volta mandando “vem”, beija a gente, bagunça tudo… e depois tenta fingir que é simples.
Dante se aproximou atrás dela.
Alan do lado.
Liam na frente.
Ela olhou ao redor.
Preso.
Mas ainda assim… sorrindo de canto.
— Vocês são impossíveis.
Eu cheguei mais perto.
— E você nos fez assim.
Silêncio.
O ar ficou mais pesado.
Mais real.
Ela baixou o olhar por um segundo.
E quando falou, a voz saiu mais baixa:
— E se eu disser que não sei ser diferente?
Dante respondeu na hora:
— Então a gente aprende com você.
Alan soltou um riso curto.
— Ou enlouquece junto.
Liam encostou a testa dela de leve com a dele.
— Já estamos no meio disso.
Eu soltei o pulso dela… e segurei o rosto.
Fazendo ela olhar pra mim.
— Mas não some de novo.
Ela não respondeu de imediato.
Só ficou me encarando.
E pela primeira vez naquela noite… não tinha provocação.
Só ela.
E o caos dela respirando junto com o nosso.
— Eu não prometo — ela disse baixo.
Dante fechou o maxilar.
— Penélope…
Ela levantou a mão, interrompendo.
— Mas eu tô aqui agora.
Silêncio.
E, por mais que isso não resolvesse nada…
Era exatamente por isso que a gente sempre voltava.
Porque com ela…
nunca era paz.
Era vício.