Capítulo 12

879 Words
Larissa Eu deveria ter entrado no prédio. Deveria ter desejado boa noite. Deveria ter ido embora. Mas continuei parada diante dele. Observando. Sentindo. Tentando entender como aquele homem tinha conseguido se tornar tão importante em tão pouco tempo. O silêncio entre nós não era desconfortável. Era suave. Calmo. Como se nenhum dos dois tivesse pressa para encerrar aquele momento. — Você está me olhando de novo. A voz de Dante era baixa. Divertida. Sorri. — E você também. — Eu comecei primeiro. Revirei os olhos. — Quantos anos você tem mesmo? — Trinta e nove. — Poderia jurar que tem doze. A gargalhada dele ecoou pela rua quase vazia. E meu coração aqueceu. Porque eu gostava daquele som. Gostava muito. Mais do que deveria. — Venha comigo. Franzi a testa. — Para onde? — Caminhar. Olhei para a rua. Depois para ele. — Agora? — Agora. — Pessoas normais dormem nesse horário. — Ainda bem que nenhum de nós é normal. Bufei. Mas comecei a andar. Ao lado dele. Como se fosse a coisa mais natural do mundo. Por alguns minutos caminhamos sem rumo. Conversando sobre assuntos aleatórios. Livros. Filmes. Músicas. Coisas simples. E talvez fosse justamente isso que eu mais gostava. Não parecia forçado. Não parecia uma entrevista. Parecia apenas... Nós. — Qual é o seu maior sonho? A pergunta dele me pegou de surpresa. Olhei para frente. Pensando. — Eu queria ilustrar livros. A resposta saiu antes que eu pudesse impedir. Dante me observou. — Você nunca me contou isso. Dei de ombros. — Porque parece bobo. — Não parece. — Parece sim. — Não. Sorri. — Você sempre discorda de mim. — Porque você costuma estar errada sobre si mesma. Meu coração tropeçou. Porque havia sinceridade naquela frase. Sinceridade demais. — O que isso significa? Dante parou de andar. Virando-se para mim. Os olhos escuros me observando. Atentos. — Significa que você se enxerga de uma forma muito diferente da forma como os outros enxergam você. Minha respiração ficou presa. Porque eu sabia exatamente do que ele estava falando. E odiava isso. Odiava porque ele estava certo. — Você não me conhece. A voz saiu mais baixa. Mais frágil. Os olhos dele suavizaram. — Então me explique. Engoli em seco. Porque aquela conversa estava indo para um lugar perigoso. Um lugar que eu evitava. Um lugar que doía. — Não tem nada para explicar. — Tem sim. Balancei a cabeça. — Dante... — Larissa. O jeito como ele pronunciou meu nome fez meu peito apertar. Porque não havia julgamento. Nem pena. Apenas preocupação. E fazia muito tempo que alguém não se preocupava comigo daquela forma. Muito tempo. — Meu ex... As palavras escaparam antes que eu pudesse impedir. Dante ficou imóvel. Esperando. Sem interromper. Sem pressionar. Apenas esperando. — Ele sempre dizia que estava tentando me ajudar. Meu sorriso foi triste. Amargo. — Ajudar como? Olhei para o chão. — Dizendo que eu precisava emagrecer. O silêncio que se seguiu foi pesado. — Dizendo que eu ficaria mais bonita. Mais desejável. Mais tudo. Minha garganta apertou. Porque mesmo depois de tanto tempo... Ainda doía. — No começo parecia preocupação. Depois parecia conselho. Depois virou crítica. E quando percebi... Eu já tinha começado a acreditar. Os olhos de Dante escureceram. Não de raiva contra mim. Mas contra alguém que eu nem conseguia mais ver. — Larissa... — Eu sei que é ridículo. — Não. — É sim. Sorri sem humor. — Porque eu deveria ter percebido. Deveria ter ido embora antes. Mas eu fiquei. E ouvi. E acreditei. Por muito tempo. A voz falhou. E odiei isso. Odiei sentir aquela dor novamente. Mas também estava cansada de fingir que ela não existia. Por alguns segundos, nenhum dos dois falou. Então senti os dedos de Dante envolvendo minha mão. Devagar. Como se me desse a chance de recuar. Mas eu não recuei. Porque não queria. — Olhe para mim. Levantei os olhos. Meu coração acelerou. Porque nunca tinha visto tanta intensidade no olhar dele. Nunca. — Escute com atenção. A voz saiu firme. Séria. Cada palavra carregada de convicção. — Não existe absolutamente nada de errado com você. Minha respiração falhou. — Dante... — Nada. Os dedos dele apertaram os meus. — Seu ex era um i****a. Uma risada escapou. Molhada pelas lágrimas que eu tentava esconder. — Você nem conhece ele. — Não preciso conhecer. O sorriso dele desapareceu. — Porque qualquer homem que fez você acreditar que precisava mudar para merecer amor não merece sequer ser lembrado. Meu coração simplesmente quebrou. E se reconstruiu ao mesmo tempo. Porque eu queria acreditar. Queria desesperadamente acreditar. Mas ainda era difícil. Muito difícil. — Você merece alguém que olhe para você e agradeça por cada detalhe. As lágrimas finalmente escaparam. E, pela primeira vez... Eu não tentei escondê-las. Dante levou uma das mãos ao meu rosto. Secando uma lágrima que escorria pela minha bochecha. Delicadamente. Como se eu fosse preciosa. Como se eu pudesse quebrar. — Você é linda, Larissa. Meu coração parou. Porque ele não estava flertando. Não estava brincando. Não estava tentando me conquistar. Ele estava sendo sincero. E talvez fosse isso que tornava tudo tão perigoso. Porque eu acreditava nele. Pela primeira vez... Eu acreditava. E isso era muito mais assustador do que qualquer outra coisa.
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