capítulo 5

1409 Words
— Que empréstimos, Joana? Abre os olhos, por favor! Nenhum banco ou instituição financeira dessa cidade nos atende mais! Pedro gritou em puro desespero, levantando a cabeça com os olhos marejados. — Nossa linha de crédito está completamente estourada. Se fecharmos as portas do restaurante agora, a Elise terá que abandonar imediatamente a faculdade de gastronomia no meio do semestre. Ela vai passar o resto da vida trabalhando em empregos precários e informais para conseguir nos sustentar na velhice. É esse o futuro de miséria que você quer para a nossa filha? — Eu faço qualquer coisa para evitar isso, Pedro! retrucou a mãe, batendo no peito. — Varro as ruas da cidade, faço faxina na casa dos outros de dia e de noite, começo a nossa vida do absoluto zero se for preciso! Mas não posso aceitar vender o destino e a liberdade da minha filha para um homem rico e desconhecido! — Nós não falhamos como pais por sermos pobres ou trabalhadores, Joana disse Pedro, a voz quebrada pela dor da realidade. — Mas a verdade nua e crua é que estamos completamente de pés e mãos atados pelo sistema. Estamos levando essa situação a ferro e fogo, passando fome se preciso, apenas para que ela possa se formar com honras, para que ela possa realizar o grande sonho de ser uma chef em Paris, como ela sempre planeja. Se perdermos o restaurante e o teto agora, o sonho dela morre enterrado junto com as nossas panelas. — Mas casá-la à força com um completo estranho? Um homem perigoso de Madri que nem sequer conhecemos a índole? Isso por acaso é proteção familiar ou é uma entrega ao abate? Pedro não tinha aquela resposta. Ele apenas a puxou para um abraço apertado e silencioso, os dois chorando juntos o fracasso de uma vida inteira de trabalho honesto que os empurrava impiedosamente para a borda do abismo. À noite, o ambiente na pequena casa da família era opressivo e carregado, embora Elise ainda não soubesse o real motivo daquela atmosfera cinzenta. Joana tentou disfarçar os olhos severamente inchados lavando o rosto com água fria e aplicando uma maquiagem leve para esconder as marcas do choro, enquanto Pedro, na cozinha de casa, preparava com dedicação o prato favorito da jovem: um bacalhau com natas cremoso, feito com o pouco que ainda restava na despensa quase vazia. Quando Elise chegou da faculdade por volta das nove da noite, visivelmente cansada da rotina de transportes públicos, mas com um sorriso radiante no rosto por ter ido excepcionalmente bem na prova prática, ela encontrou a mesa posta com esmero. — Oi, família querida! O cheiro desta cozinha está simplesmente maravilhoso hoje disse a jovem loira, deixando a mochila pesada sobre o sofá da sala e aproximando-se para dar um beijo carinhoso no rosto de cada um dos pais. Ela parou por um instante, observando as feições deles. — Aconteceu alguma coisa extraordinária hoje? Vocês estão tão quietos, parecem distantes... — Nada de mais, querida mentiu Joana rapidamente, sua voz saindo em um tom um pouco mais agudo e nervoso que o normal. — Só estamos um pouco mais cansados que o habitual. O dia de movimento no restaurante foi longo e exigiu muito de nós. Come, você precisa se alimentar bem. Elise sentou-se à mesa rústica, servindo-se de uma porção pequena do cozido para garantir conscientemente que sobrasse mais para os pais almoçarem no dia seguinte. — Eu tive uma excelente notícia na faculdade hoje, sabiam? O professor coordenador elogiou publicamente minha técnica de corte e finalização de pratos diante da turma toda. Ele me disse que eu tenho verdadeiras mãos de artista para a alta gastronomia. Pedro sorriu de forma extremamente triste e melancólica, sentindo uma pontada de culpa dilacerar seu peito. Aquelas mesmas mãos delicadas de artista, em um futuro muito próximo e inevitável, poderiam estar carregando o peso de uma aliança de diamantes reluzente que ela jamais pediu ou desejou receber. — Que notícia maravilhosa, minha filha. Você merece conquistar o mundo inteiro com o seu talento disse o pai, sem conseguir sustentar o olhar puro e focado da jovem por muito tempo, desviando os olhos para o próprio prato. O jantar familiar transcorreu entre silêncios desconfortáveis, ruídos de talheres e conversas superficiais sobre as matérias da faculdade. Elise sentia claramente que havia um elefante invisível naquela sala, uma sombra densa que pairava sobre as cabeças de seus pais, mas decidiu respeitar o espaço e não pressioná-los com perguntas difíceis. Ela achava, inocentemente, que era apenas o reflexo do cansaço diário e das preocupações normais com as contas de rotina do comércio familiar. Mal sabia a inocente garota que, naquele exato momento, em uma suíte presidencial de um hotel de luxo no centro da cidade, Óscar observava atentamente a foto de seu rosto em um tablet de última geração, exibindo um sorriso de vitória antecipada. O velho líder da organização espanhola apenas aguardava o telefonema de rendição que ele sabia que, inevitavelmente, Pedro faria antes do término daquela semana. A sobrevivência humana, às vezes, exige sacrifícios severos que o amor mais puro reluta desesperadamente em aceitar, mas que a necessidade implacável acaba por impor sem piedade. E o cronômetro invisível para a nova e perigosa vida de Elise no mundo da máfia já havia começado a girar de forma irreversível. O tempo é um recurso que os desesperados não possuem, e para Pedro e Joana, os dois dias seguintes à visita de Óscar foram como caminhar sobre brasas. O sol de Portugal continuava a brilhar lá fora, banhando as ruas de dourado, mas para os donos do restaurante, o mundo ao redor parecia ter mergulhado em um tom de cinza perpétuo. Eles tentaram, em um último e desesperado esforço de orgulho, fazer uma promoção agressiva de pratos do dia, baixando os preços e espalhando cartazes na esperança de que um milagre financeiro entrasse pela porta de entrada. Mas o milagre não veio; o salão permaneceu melancolicamente vazio, recebendo apenas alguns clientes habituais e o silêncio ensurdecedor do caixa que m*l somava moedas ao fim do expediente. No pequeno escritório dos fundos, o clima era de velório absoluto. Pedro observava os extratos bancários na tela do computador antigo com os olhos vermelhos, os dígitos negativos parecendo rir de todo o seu esforço de décadas. — Joana, meu bem, penso que não vamos ter outra alternativa murmurou ele, a voz falhando enquanto desviava o olhar do monitor. — Olha o que estamos a fazer com a nossa vida... com a nossa menina. Joana, sentada na cadeira ao lado, apertava um lenço úmido entre as mãos trêmulas, tentando conter as lágrimas que teimavam em cair. — Não, Pedro... a minha menina. Nossa única menina. Como vamos ter a coragem de olhar para o rosto dela e dizer que o preço da nossa sobrevivência é a liberdade dela? É o futuro dela que estamos colocando na mesa de negociações. Pedro soltou um suspiro pesado, levantando-se para abraçar os ombros da esposa. — Eu sei, meu amor. Dói em mim mais do que tudo. Mas a promoção especial de pratos não deu certo. A Ruth já está com o salário desta quinzena atrasado, os fornecedores estão batendo à nossa porta com ameaças judiciais. E a Elise... ela é inteligente, já começou a perceber que as coisas estão desmoronando. Se não aceitarmos essa aliança, em uma semana as portas deste lugar estarão seladas pela justiça. Este acordo... ele ao menos garante que ela continuará os estudos dela. Ela poderá ser a grande chef que sempre sonhou, mas sob a proteção de uma família poderosa de Madri. Enquanto o casal sofria com a iminência da ruína em Portugal, na capital espanhola o tabuleiro estratégico estava sendo montado sem pausas. Óscar, momentos antes de arrumar suas malas no hotel para retornar ao restaurante, ligou diretamente para Henrique. O herdeiro atendeu no segundo toque, a voz grossa carregada de uma impaciência característica de quem odiava ser interrompido em sua rotina de controle. — Oi, pai. Como foi de viagem por terras lusitanas? perguntou Henrique, mantendo o telefone no viva-voz enquanto assinava com caneta tinteiro uma pilha de novos documentos logísticos em sua mesa de mogno maciço. — Extremamente produtiva, meu filho! Já conversei pessoalmente com os seus futuros sogros. Eles ficaram de nos dar a resposta definitiva amanhã de manhã, e eu conheço o mercado o suficiente para saber que eles vão aceitar pelo bem da filha deles.
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