Sua realidade era regada a luxo extremo, carros esportivos que valiam fortunas e mulheres que vinham e iam sem deixar o menor rastro em seu coração de gelo.
Henrique não acreditava no amor ou em laços afetivos profundos; para ele, as mulheres eram apenas acessórios passageiros, movidos por puro interesse em sua conta bancária e no poder que seu sobrenome carregava.
No entanto, até o homem mais poderoso da organização tinha um senhor a quem responder.
Seu pai, Óscar, de cinquenta e três anos, entrou no escritório com a postura ereta e o olhar rígido de quem nunca aceitava negativas como resposta.
— Henrique, não estamos aqui para discutir preferências
disse Óscar, sua voz cortante como uma lâmina afiada, quebrando o silêncio do ambiente luxuoso.
— O Conselho está pressionando. Eles querem estabilidade nas fronteiras e nos negócios. Querem uma Dama da Máfia ao seu lado. Você precisa se casar com uma mulher jovem, de boa linhagem moral, para garantir a sucessão e o respeito dos nossos aliados.
Henrique soltou uma risada seca, desprovida de qualquer humor, virando o copo de bebida pura que tinha em mãos.
— Pai, não estou pronto para me casar agora. Minha vida funciona perfeitamente bem assim. Não preciso de uma esposa para validar quem eu sou nas ruas.
— Não me interessa o que você quer, Henrique!
explodiu Óscar, batendo com a mão firme na mesa de madeira escura.
— O Conselho está em cima há dias. Ou você se casa e legitima sua posição perante as outras famílias, ou o trono passará para o seu primo Calebe. Ele é o próximo na hierarquia se você se recusar a cumprir as leis da nossa tradição.
O nome de Calebe fez o maxilar de Henrique travar instantaneamente. O ódio brilhou em seus olhos.
Calebe, de trinta e um anos, era um mulherengo nato, um herdeiro irresponsável que vivia envolvido em escândalos, farras e desperdiçava quantias obscenas de dinheiro em cassinos.
Deixar o império bilionário nas mãos de alguém tão despreparado seria o fim de tudo o que os seus antepassados construíram com tanto sangue.
— Calebe? Aquele i****a destruiria tudo o que controlamos em menos de um mês
rosnou Henrique, os punhos cerrados ao lado do corpo.
— Então aceite o seu destino e faça o que deve ser feito
disparou Óscar, mantendo a calma de quem já havia arquitetado cada passo do tabuleiro, acendendo um charuto caro.
— Cedo ou tarde, você irá conhecer a sua noiva.
Henrique virou-se bruscamente, a surpresa rompendo sua máscara de indiferença.
— O quê? Como assim noiva? Você já escolheu alguém pelas minhas costas?
Óscar soltou uma fumaça densa, observando o filho com frieza calculista.
— Ela ainda não sabe de nada, mas logo saberá. Ela tem dezoito anos e uma reputação impecável. Os pais dela são donos de um pequeno restaurante em Portugal e precisam desesperadamente de ajuda financeira para não irem parar na prisão por conta de dívidas pesadas. Farei a proposta de salvação a eles em troca da mão da garota. Portanto, esteja pronto para o matrimônio em breve.
— Em breve? Não é assim que as coisas funcionam, pai! Você está literalmente comprando uma esposa!
Henrique esbravejou, a indignação subindo por sua garganta.
— Cresce, Henrique! Já está com trinta anos, p***a! Isso é um negócio, como qualquer outro que fechamos toda semana. A estabilidade da nossa família vale mais do que o seu orgulho.
Henrique saiu da sala furioso, batendo a porta de madeira maciça. Seus passos pesados ecoavam pelos imensos corredores de mármore da mansão.
Óscar, contudo, não se abalou. Ele conhecia o temperamento do filho e sabia que ele precisava desse choque de realidade para assumir o topo do império.
Buscando uma válvula de escape para a raiva que corria em suas veias, Henrique buscou refúgio no único lugar onde sentia que podia anestesiar os pensamentos: sua boate de luxo no centro de Madri.
Lá, o som pulsante das caixas de som e as luzes neon vermelhas e azuis serviam de distração.
Ele se trancou no escritório do andar superior por horas, revisando números, relatórios e rotas de carga para evitar pensar no casamento forçado.
Quando o cansaço mental finalmente venceu a adrenalina, ele desceu para o bar principal da área VIP.
Uma das mulheres que costumava frequentar seu camarote aproximou-se com passos lentos, roçando o corpo curvilíneo no dele e sussurrando promessas de prazer no seu ouvido com uma voz manhosa.
Henrique, no entanto, a afastou com um gesto impaciente e frio.Sua cabeça estava cheia demais. Seus pensamentos insistiam em voar até a tal garota de Portugal.
Uma completa estranha que, por culpa do fracasso financeiro dos pais, se tornaria a dona do seu sobrenome e entraria em seu mundo sombrio.
Ele deixou o copo de whisky intocado no balcão, pegou as chaves do seu SUV de luxo blindado e saiu do local sem se despedir de ninguém.
Dirigir em alta velocidade era sua única terapia eficaz. Ele rodou pelas avenidas desertas de Madri por horas, sentindo o motor potente vibrar sob seus pés, enquanto seus seguranças o seguiam à distância em outro veículo, como sombras vigilantes prontas para qualquer ataque inimigo.
Na manhã seguinte, a rotina pesada de Henrique começou antes mesmo do amanhecer.
Ele descontou toda a sua frustração acumulada nos aparelhos da academia particular da mansão.
Sem camisa, o suor brilhando sobre as inúmeras tatuagens que cobriam suas costas e os músculos tensos pelo esforço, ele malhava pesado, levantando cargas absurdas sob o olhar discreto e admirado das funcionárias que limpavam a propriedade.
Após o treino exaustivo e um banho gelado para acalmar os nervos, ele vestiu um terno escuro sob medida, cortado perfeitamente para sua estatura imponente.
A indumentária impecável escondia o monstro implacável e revelava o empresário de sucesso.
A reunião com o Conselho da organização, realizada horas depois, foi um verdadeiro teste para sua sanidade mental.
O velho Roberto, um dos conselheiros mais antigos, tradicionais e irritantes da velha guarda, não perdeu a oportunidade de alfinetar o jovem líder diante de todos.
— Henrique foge de seus compromissos com a tradição
comentou Roberto em tom de deboche, ajustando os óculos de grau na ponta do nariz.
— Ele prefere manter o seu foco nas diversões da noite ao invés de achar uma esposa decente de boa família para nos dar um herdeiro legítimo. Ele conhece muito bem as nossas regras.
Henrique sentiu o sangue ferver, mas manteve o olhar fixo no homem.
— Como se o senhor, dono de toda a razão e moralidade, nunca tivesse frequentado os meus estabelecimentos noturnos para gastar o nosso dinheiro, Roberto
rebateu ele, exibindo um sorriso venenoso que fez o conselheiro calar-se imediatamente.
— Cala a boca, Henrique!
ordenou Óscar em tom firme, tentando manter as aparências e a diplomacia entre os membros do alto escalão.
— Acho que os senhores esquecem quem realmente manda nessa p***a aqui
disparou Henrique, levantando-se da cadeira de couro com um olhar ameaçador.
César, outro conselheiro influente e astuto, interveio antes que o pior acontecesse.
— Você ainda não manda de fato em todas as frentes, Henrique. Só terá o controle total e irrestrito de todos os territórios depois que se casar e cumprir o rito tradicional perante a igreja e o Conselho. Até lá, suas decisões ainda passam por nós.
— Então o que estou fazendo perdendo o meu tempo nessa p***a de reunião?
Henrique rosnou, ajeitando o paletó e saindo da sala de conferências sem olhar para trás.Óscar o seguiu imediatamente, interceptando-o no corredor amplo.
— Você não vai a lugar nenhum! Precisa manter o respeito desses homens se quer governar sem rebeliões. Pare de agir como um moleque mimado e assuma de vez as suas responsabilidades de liderança. Deixe de lado as distrações da boate e foca no que realmente importa para o nosso futuro.
— Eu sei exatamente o que estou fazendo com os meus negócios, pai! Não sou a p***a de uma criança que você precisa controlar ou dizer como agir!
Henrique rebateu, a voz ecoando pelas paredes.Mais tarde, quando a poeira baixou e o silêncio dominou o escritório particular de seu pai, Henrique sentiu o gosto amargo da capitulação.
Ele se desculpou pelo descontrole na frente dos conselheiros, mas a mágoa e a revolta pela falta de escolha eram evidentes em suas feições.
— Por que está reagindo dessa forma tão agressiva, meu filho?
perguntou Óscar, adotando uma postura mais suave e paternal pela primeira vez naquele dia.
— Minha vida inteira foi traçada sem o meu consentimento, pai. Eu não quero me casar com uma desconhecida que não sabe nada sobre o nosso mundo. Você está comprando a vida dos pais dela. Vou me unir a alguém que aceitou se vender apenas para não afundar um restaurante qualquer de beira de estrada em Portugal. Ela vai me odiar, e eu não farei questão de ser legal.
Óscar suspirou profundamente, caminhando até a janela e olhando para o jardim planejado.
— Não deveria pensar dessa forma tão fria. Em breve ela não será uma transação comercial, será a sua esposa, a mulher que carregará o seu nome e cuidará da sua casa. Esqueceu como eu me casei com a sua mãe? Foi um acordo estrito entre famílias, e nós fomos felizes à nossa maneira com o passar dos anos. O respeito constrói o resto.
— É completamente diferente, pai. Os tempos mudaram, as pessoas mudaram.
— Não, não mudaram. As regras da honra, do sangue e da família são eternas na nossa linhagem
Óscar virou-se, encarando o filho com seriedade extrema.
— E escuta bem o que vou te dizer: não quero que a trate como uma mercadoria barata quando ela chegar. Ela será a sua rainha, a Dama de Madri. Trate-a com a dignidade que o cargo exige.
Henrique deu de ombros, a frieza habitual retornando aos seus olhos azuis intensos como duas pedras de gelo.
— Tudo bem, pai. Eu me caso. Se é isso que o Conselho quer para calar a boca, eu farei. Mas vai ser pela máfia, pela coroa e pelo poder do nosso sobrenome. Só não me peça para amar ou ter sentimentos por uma mulher que eu nem sequer conheço. Para mim, ela será apenas uma obrigação contratual.
Óscar apenas riu alto, um som seco, experiente e repleto de ironia. Ele conhecia a vida e sabia muito bem que o amor era um convidado inesperado que costumava entrar sem bater nas portas mais protegidas, especialmente quando se tratava de uma jovem com o espírito forte e resiliente de Elise.
Henrique saiu dali direto para os galpões da zona industrial para conferir pessoalmente o carregamento das novas mercadorias que seriam enviadas às outras sedes da Europa, buscando ocupar a mente com o trabalho pesado.
Enquanto isso, do outro lado da fronteira, no território de Portugal, Elise fechava seus livros de gastronomia exausta após o dia longo de estudos e explicações.
Ela apagava as luzes do pequeno restaurante da família, sem ter a menor ideia de que a sua liberdade e o seu preço já haviam sido pagos em ouro vivo e sangue espanhol.