O destino é um mestre silencioso que costuma agir nos bastidores, enquanto os mortais ainda acreditam convictamente que têm o controle das próprias vidas.
Mais uma semana se arrastou em Portugal, tingida por uma tensão invisível que Elise, mergulhada em seus exames exaustivos e receitas complexas, ainda não conseguia decifrar completamente.
Ela via as olheiras cada vez mais profundas no rosto do pai e o olhar fugidio de sua mãe ao final de cada expediente, mas sua mente jovem estava ocupada demais tentando decorar a química exata dos fermentos e a história da culinária clássica internacional.
A garota não fazia ideia de que, a poucos quilômetros dali, o tabuleiro da sua existência já começava a ser movido por mãos poderosas e impiedosas.
O sol da manhã em Portugal parecia entrar pelas janelas do restaurante com uma alegria radiante que não condizia em nada com o clima pesado e sufocante que dominava o escritório de Pedro e Joana.
O casal estava reunido a portas fechadas, revisando pilhas de papéis amassados, contas de luz atrasadas, notificações judiciais de cobrança e faturas vencidas de fornecedores, quando uma batida suave na madeira os sobressaltou, quebrando o silêncio fúnebre.
— Dona Joana, seu Pedro, com licença. Bom dia
disse Ruth, a funcionária de longa data que já era considerada como parte da família, colocando apenas a cabeça para dentro da sala.
— Bom dia, Ruth
responderam os dois em uníssono, as vozes arrastadas por um cansaço crônico que noite nenhuma de sono parecia curar mais.
Joana ajeitou a postura na cadeira e tentou forçar um tom de normalidade na voz para não alarmar a colaboradora.
— Entre, Ruth. O que foi? Aconteceu algum problema com a entrega da manhã?
— Não, senhora. É que tem um senhor lá na recepção principal querendo falar com vocês agora. Ele parece ser alguém... muito importante. O porte dele é diferente de tudo o que estamos acostumados a ver por aqui.
Pedro franziu o cenho imediatamente, sentindo um frio incômodo no estômago. O fornecedor principal já havia vindo na semana passada fazer ameaças claras; quem mais poderia surgir para cobrar algo ou exigir explicações?
— Ele disse quem era ou o que deseja, Ruth?
perguntou o cozinheiro, limpando o suor da testa com as costas da mão.
— Sim, senhor. O seu nome é Óscar. Ele me disse expressamente que veio de Madri especialmente para falar com os donos do estabelecimento. Ele aguarda no salão.
Joana e Pedro trocaram um olhar rápido de absoluto estranhamento e desconfiança.
Madri? Eles não tinham conexões comerciais ou familiares na Espanha, muito menos conheciam alguém influente que viajaria uma distância tão longa até ali sem um aviso prévio ou um telefonema de agendamento.
— De Madri? Óscar? Não conhecemos viva alma com esse nome por aquelas bandas
comentou Joana, ajeitando o avental sobre a roupa com as mãos trêmulas.
— Mas, por favor, traga-o até aqui, Ruth. Na situação em que nos encontramos, não podemos nos dar ao luxo de recusar clientes, investidores ou parcerias, seja lá o que ele vier propor.
A funcionária assentiu prontamente e caminhou de volta até a recepção, onde o visitante aguardava pacientemente.
Óscar não estava ali por mero acaso ou capricho.
Dias antes, ele havia comunicado expressamente a Henrique que faria aquela viagem de negócios até o território vizinho.
O herdeiro da máfia, no entanto, reagira com a habitual indiferença agressiva e o sarcasmo de sempre, acreditando piamente que o pai estava apenas blefando para assustá-lo.
Mas Óscar nunca blefava quando o assunto em pauta era a sobrevivência, a linhagem e a sucessão do império que ajudara a erguer.
A conexão com aquela humilde família portuguesa havia acontecido através de Mourão, o fornecedor de alimentos que vinha pressionando Pedro e Joana de forma implacável.
O sujeito, que operava discretamente em uma rede logística que tocava as mãos ocultas da organização criminosa espanhola, sabia por meio de contatos que Óscar procurava com urgência uma moça jovem, de boa família e reputação intocável para casar com o herdeiro.
Na primeira oportunidade que teve de subir na hierarquia, Mourão ligou diretamente para o seu contato direto em Madri.
— Senhor Óscar, eu trabalho fornecendo mercadorias para um casal humilde que é dono de um restaurante tradicional aqui em Portugal
dissera Mourão ao telefone, com a voz baixa e conspiratória.
— Eles estão completamente atolados em dívidas, à beira da falência total, mas eles têm uma filha... uma verdadeira joia, senhor. Linda, extremamente jovem, educada e pura. Por que o senhor não os ajuda financeiramente propondo o matrimônio com o seu herdeiro? Seria a solução definitiva para a ruína deles e a resposta perfeita para as exigências do seu Conselho.
Óscar, sempre pragmático, calculista e frio, não aceitou a sugestão de imediato. Ele não confiava em palavras vazias.
— Mande-me fotos recentes da moça e todos os dados pessoais que conseguir levantar. Vou mandar minha equipe investigá-la de cima a baixo antes de tomar qualquer atitude.
Dois dias depois daquela ligação, Óscar já tinha um dossiê completo e detalhado da vida de Elise em suas mãos.
Ele viu a fotografia da jovem de dezoito anos e sentiu uma satisfação imediata inundar seus planos.
Ela possuía uma beleza clássica, traços finos e uma aura de inocência genuína que era extremamente rara nos círculos corruptos que Henrique costumava frequentar nas noites de Madri.
Mais do que a aparência física deslumbrante, o relatório confidencial mostrou uma filha devotada, uma estudante de gastronomia brilhante e uma mulher de caráter inquestionável.
— Obrigado pelas informações estratégicas, Mourão
dissera Óscar antes de desligar, enquanto digitava uma ordem de pagamento.
— A quantia generosa prometida já está depositada na sua conta pessoal. Vou até o local avaliar a situação pessoalmente.
Óscar sabia que Elise era a peça perfeita para o seu jogo de xadrez. Se Henrique precisava de uma Dama respeitável para legitimar seu poder definitivo diante dos conselheiros mais antigos e tradicionais, aquela garota seria o cisne que ele colocaria estrategicamente no meio dos lobos famintos.
Enquanto Ruth ia buscá-lo, Óscar permaneceu sentado na recepção do restaurante simples.
Ele analisava cada canto com olhos clínicos: a pintura gasta pelas ações do tempo, a mobília antiga de madeira, mas também o cuidado extremo com a higiene e a organização do espaço.
*"Com o investimento financeiro correto e as conexões certas, isso aqui se tornaria facilmente o melhor e mais lucrativo ponto gastronômico da região em poucos meses"*
pensou o espanhol, já visualizando uma futura expansão comercial como sócio oculto da propriedade.
— Dona Joana, o senhor está aqui
anunciou Ruth, empurrando a porta de madeira e dando passagem para o visitante.
— Entrem, por favor. Obrigada, Ruth. Traga-nos uma jarra de café fresco, por favor
pediu Joana, levantando-se imediatamente para receber o homem de aparência aristocrática.
Óscar entrou no pequeno recinto com uma postura impecável, exalando autoridade.
O terno cinza-chumbo perfeitamente alinhado, o relógio de ouro maciço brilhando no pulso e o perfume importado caro preencheram o ar do escritório modesto, fazendo com que Pedro e Joana se sentissem subitamente pequenos e desarmados dentro de seu próprio espaço.
— Prazer, senhora, senhor. Chamo-me Óscar
disse o homem, estendendo a mão direita com uma firmeza que não dava margem para hesitações.
— O prazer é nosso. Sou o Pedro
respondeu o dono do restaurante, apertando a mão do visitante com desconfiança evidente no olhar.
— O que o senhor gostaria de tratar conosco com tanta urgência? Veio de tão longe apenas para apreciar uma refeição em nossa casa?
Óscar sorriu de canto, uma expressão gélida que jamais alcançava seus olhos calculistas. Ele puxou uma das cadeiras e acomodou-se com extrema elegância.
— Vim tratar especificamente de um assunto sério de negócios que interessa a ambos. Vou direto ao ponto com os senhores, pois valorizo o tempo: eu sei perfeitamente que estão enfrentando problemas financeiros gravíssimos. Estão quase decretando falência total, certo?